domingo, 6 de julho de 2014

AS BEM AVENTURANÇAS

        
                    AS BEM AVENTURANAÇA MATEUS CAP 5

Os Humildes de Espírito

Muitos dos que viram os milagres que o Senhor Jesus realizou convenceram-se de que ele era, realmente, o Rei que Deus havia prometido, que reinaria sobre a nação de Israel. Por isso lhe fizeram uma pergunta de supremaimportância: "Somos suficientemente justos para entrar no teu reino?" Sabiam muito bem que o Antigo Testamento exigia justiça como base da aceitação de Deus; conheciam bem a declaração do salmista de que só os limpos de mãos e puros de coração poderiam estar na presença do Rei. Vieram, pois. para informar-se acerca da justiça que Jesus exigia para entrada em seu reino.
Nosso Senhor escandalizou a multidão que se compunha de devotos dos fariseus e com zelo buscava a justiça por eles ensinada, ao dizer-lhes: "Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus" (5:20). Se a justiça dos fariseus, que requeria rígida observância de 365 proibições e de 250 mandamentos, não era suficiente para introduzir os homens no reino do Messias, que tipo de justiça seria necessária?
O Sermão da Montanha expunha a santidade divina e as exigências de um Deus santo. Descreve o tipo de justiça que Deus espera dos que venham a conhecê-lo pela fé. Nessa parte do sermão, muito conhecida, amada e freqüentemente citada— mas pouco compreendida—que denominamos as Bem-aventuranças, nosso Senhor descreveu as características da pessoa Justa e lançou os fundamentos de uma vida feliz. Mostrou o que caracteriza os que foram justificados pela fé na promessa de Deus. Também nos deu a base sobre a qual Deus dispensa suas bênçãos aos que o recebem como Salvador pessoal. Bem podemos denominar as Bem-aventuranças de "Fundamentos de uma vida feliz".
A primeira Bem-aventurança do Senhor está em Mateus 5:3: "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus." Só Deus é bem-aventurado. Ele é digno de receber bênção em virtude de sua santidade absoluta, inalterá­vel. Quem foi abençoado por Deus é, deveras, feliz; a palavra traduzida por bem-aventurado" nesta passagem bíblica seria mais bem traduzida por "feliz". Só Deus é digno de ser chamado bem-aventurado ou bendito por aquilo que ele é em seu caráter; mas Deus pode dispensar(Conceder, conferir, distribuir) bênçãos ao homem. A pessoa que recebe bênçãos de Deus é, em verdade, um indivíduo feliz.
Freqüentemente se emprega a palavra "feliz" ou "bem-aventurado" no Novo Testamento para descrever a condição daque­les a quem Deus abençoa. Em João 13:17, ao concluir a primeira das grandes lições aos discípulos, ministrada no cenáculo pouco antes de sua morte, o Senhor voltou-se e disse: "Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes."
Em João 20:29 o Senhor emprega a mesma palavra ao dirigir-se a Tome: "Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram, e  creram." Aquele que crê é verdadeiramente feliz.
Em sua primeira carta a Timóteo, Paulo emprega a mesma palavra, agora traduzida por "bendito": "Segundo o evangelho da glória do Deus bendito, do qual fui encarregado" (1:11). Aqui O apóstolo fala do contentamento que pertence a Deus em virtude de ser ele quem é. A infelicidade não se encontra em Deus. Visto que se trata de um Deus feliz, ele confere sua felicidade aos que crêem nele.
Também em Tito 2:13, falando da vinda de Cristo, o apóstolo diz: "Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus." É uma esperança que traz felicidade ao crente.
A palavra feliz, usada entre os gregos, em sua origem descrevia a condição dos deuses gregos que se supunha viverem satisfeitos, ou contentes, porque tinham tudo quanto desejassem e eram livres para gozar de tudo o que possuíam, sem restrições. Para a mentalidade grega, a felicidade relaciona­va-se com as posses materiais e com a liberdade de desfrutá-las. A felicidade deles tinha que ver com a gratificação irrestrita, ilimitada, dos desejos físicos. Uma vez que não se impunham limites às suas divindades, os gregos julgavam que os deuses eram felizes. Podendo viver com a mesma liberdade que atribuíam aos seus deuses, julgavam-se um povo feliz. A felicidade, para os gregos, relacionava-se com o mundo físico e material.
Porém, ao falar da felicidade, nosso Senhor relacionou-a com a santidade. Esse é o conceito bíblico; o Novo Testamento identifica a felicidade com pureza de caráter. A Palavra de Deus considera o pecado como manancial de miséria; a santidade, como fonte de paz, de satisfação, de contentamento—tudo quanto incluímos na palavra feliz.Assim, quando o Senhor disse "Bem-aventurados os humildes de espírito", apresentou a primeira característica de santidade, geradora de santidade, e com isso lançou o fundamento de uma vida piedosa, feliz.
O Senhor mostrou o que deve caracterizar o homem que se diz santo, e a bênção que desce de Deus sobre aquele que recebeu o dom divino da justiça mediante a fé em Cristo. Quão significativo é que o Senhor tenha exaltado a própria caracterís­tica que o mundo despreza, desvaloriza e considera sinal de fraqueza. O mundo não tem condições, jamais, de proporcionar o fundamento de uma vida feliz porque não pode produzir felicidade—e esta não existe sem santidade.
A palavra "humilde", que nosso Senhor empregou em Mateus 5:3, é uma palavra muito interessante e descritiva. Para. entender seu emprego, veja Lucas 16:19-22:
Ora, havia certo homem rico, que se vestia de púrpura e de linho
finíssimo, e que todos os dias se regalava esplendidamente. Havia
também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia a
porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa
do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o
mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão.

A palavra que nos versículos 20 e 22 é traduzida por "mendigo" é a mesma que em Mateus 5:3 se traduz por "humildes". O mendigo era destituído de tudo, batido pela pobreza, sem recursos de nenhuma espécie. Humilde emendi­go derivam de uma raiz que significa "cobrir" ou "encolher". Era tão humilhante ao indivíduo confessar que nada tinha, e que por isso dependia de outrem, que o próprio ato de mendigar o rebaixava. Por isso é que o mendigo cobria o rosto, encolhia-se, acovardava-se quando estendia a mão para pedir uma esmola. Ele tinha vergonha de ser reconhecido.
Nosso Senhor não escolheu impensadamente esta palavra ao dizer: "Bem-aventurados os mendigos de espírito, bem-aventu­rados os paupérrimos espirituais, bem-aventurados os espiritualmente destituídos, bem-aventurados os falidos espiritual­mente que se encolhem e se humilham por causa de seu total desamparo; porque deles é o reino dos céus." Em se tratando de coisas espirituais, humilde de espírito é o contrário, não da auto-estima, porém do orgulho espiritual. O que nosso Senhor condenou foi a auto-suficiência oriunda do orgulho espiritual.
O Novo Testamento relata que os fariseus eram intensamente orgulhosos, pois se consideravam justos; como justos, de nada necessitavam. Ouviram o Senhor Jesus oferecer a verdadeira justiça que vem de Deus, e repeliram-na. Esta palavra dirige-se a eles e aos seus seguidores. A pessoa que se caracteriza por orgulho espiritual não receberá de Deus coisa alguma; a bênção de Deus não pode descer sobre ela, porque o orgulho não serve de alicerce para a justiça. O orgulho espiritual não é demonstração de santidade mas de pecaminosidade; jamais pode produzir felicidade. “Bem-aventurados os paupérrimos espirituais, porque deles é o reino dos céus”.
Humilde de espírito é aquele de quem foi retirada a base da auto-suficiência; é aquele cujo coração está ajoelhado. Tal pessoa caracteriza-se por uma atitude de total dependência. Neste caso, como em todas as Bem-aventuranças, o Senhor não instituiu um novo conceito. Pelo contrário, ele voltou-se para o Antigo Testamento, especialmente para os salmos, e reuniu o que a Escritura já havia ensinado com tanta clareza, de sorte que, valendo-se da Palavra de Deus, pudesse descrever a justiça e a santidade, oferecendo a base de uma vida abençoada, feliz.                                                                                
O salmista escreveu: "Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coraçãocompungido(Enternecer; sensibilizar) e contrito não o desprezarás, ó Deus" (Salmo 51:17). E no Salmo 34:18: "Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os de espírito oprimido." Referindo-se ao coração quebrantado e contrito, o salmista não pretendia dizer um coração esmagado pelas privações, mas o coração que chegou ao fim de si mesmo, que não vê socorro algum em suas próprias forças, e clama a Deus por livramento.
Ao pronunciar: "Bem-aventurados os humildes de espírito", o Senhor dizia aos seus ouvintes, antes de tudo, como ter acesso a ele. Lucas 18:9-14 ilustra-o de modo muito vivido:
Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem Justos, e
desprezavam os outros: Dois homem subiram ao templo com o propósito de orar: um fariseu e o
outro publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, ­graças te
dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como
este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano,
estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo:
Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não
aquele; porque todo o que se exalta, será humilhado, mas o que se humilha, será exaltado.

Numa lição tão expressiva, o Senhor apresentou a verdade que havia demonstrado ao dizer: "Bem-aventurado os humildes de espírito." O fariseu desta parábola pôs-se em pé, num lugar público, para recomendar-se a Deus por seus méritos: "Não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda como este publicano." Controlado pelo orgulho, ele se recomendava a Deus, exigindo que Deus o aceitasse e ouvisse sua petição pelo que ele, fariseu, era. A seguir recomendou-se a Deus por aquilo que ele havia feito: "Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto possuo." Esperava que Deus o abençoasse pelo que ele havia feito para Deus. Que exemplo de quem não possui humildade de espírito!
Por outro lado, havia um pecador confesso, encolhido, que clamava: "Ó Deus, sê propício a mim, pecador!" "Deus, olha para mim como olhas para o propiciatório borrifado do sangue expiador." Este nada tinha que reivindicar para sua pessoa nem para sua justiça. Em sua pobreza e desamparo espiritual ele lançou-se inteiramente à graça e à misericórdia de Deus. Aí estava um homem humilde de espírito, e nosso Senhor disse: "Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta, será humilhado; mas o que se humilha [que é humilde de espírito], será exaltado" (18:14). O único caminho que o homem tem de acesso a Deus é ir ao Criador e confessar sua injustiça, sua incapacidade de satisfazer aos padrões e às exigências do Altíssimo, e, pela fé, reivindicar o sangue de Cristo que lhe cobre os pecados. Tal pessoa—humil­de de espírito—é feliz porque abençoada por Deus.
Todavia, nosso Senhor não mostrou apenas o caminho de acesso a ele e ao seu reino, mas também o que caracteriza aquele que, em humildade de espírito, clama pela salvação de Deus. Sua vida, como filho de Deus, será marcada, momento após momento, por aquela mesma dependência completa de Deus.
Em Filipenses 3:3, Paulo revelou esta humildade de espírito ao escrever: "Porque nós... não confiamos na carne." E em Romanos 8:4-5: "A fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito." A pessoa que, segundo a carne, procura agradar a Deus, alega ter condições de fazê-lo. Em estado de orgulho procura agradar a Deus. A única pessoa que agrada a Deus na vida diária é aquela que diz: "Ó Deus, não posso fazê-lo porque a carne é corrupta; mas confio total e completamente no poder sustentador do Espírito Santo em viver a vida de Cristo por meu intermédio."
Ao saltar do barco para ir ao encontro do Senhor, andando sobre as águas, Pedro começou a afundar; então clamou: "Senhor, socorre-me." Ele foi humilde de espírito. Quando Maria e Marta, dominadas pela tristeza com a morte de seu irmão Lázaro, enviaram um recado a Jesus para que viesse e as ajudasse, elas se revelaram mendigas de espírito. Ao reconhe­cer seu próprio desamparo e lançar-se confiante à graça de Deus e ao seu Espírito, a pessoa está renunciando ao orgulho espiritual e revelando a humildade de espírito que possibilita a Deus derramar bênçãos e mais bênçãos sobre sua vida.
Que temos nós para oferecer a Deus? Nada. Que tem Deus para dar-nos? Tudo. O que faz que as riquezas de Deus sejam nossas? Um pedido de socorro, um grito de dependência, uma confissão de nosso desamparo. "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus."

Bibliografia Pentecost

2:3: nada façais por contenda ou por vangloria, mas com humildade cada um considere os outros superiores a si mesmo;
Essas palavras podem ser confrontadas com o trecho de Rm 12:10, onde se lê: «Amai-vos cordialmente uns aos outros, com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros». Também podem ser comparadas com a idéia do versículo anterior, que devemos ter o mesmo sentimento uns para com os outros. É como se Paulo houvesse escrito: «Não penseis em coisas elevadas demais, mas condescendei com o que é humilde; e não sejais sábios aos vossos próprios olhos», idéias essas que transparecem no trecho de Rm 12:16. Essas são injunções similares, ainda que não totalmente iguais.
«...partidarismo...» No grego temos a palavra «eritheia», que quer dizer «espírito litigioso», «ambição egoísta». A tradução que temos aqui é apenas uma interpretação, embora seja habilidosa. Paulo falava das ambições egoístas, daqueles que queriam fazer da igreja um palco para sua glória pessoal. Aqueles que assim agem, não demoram a obter seguidores, ficando formado um partido faccioso, uma espécie de pequeno culto de personalidade, dentro das fileiras da igreja local. Assim é que alguns indivíduos, até mesmo em Filipos, pregavam a Cristo por motivo deautoglorificação, conforme se vê em Fp 1:15,16: Tais indivíduos servem de empecilho para o trabalho do evangelho, transformando-se em oponentes do mesmo. Ora, o apóstolo dos gentios queria evitar que essa situação fosse criada na igreja cristã de Filipos.
«...vangloria...» No grego temos «kenodoksia», como um substantivo, usado exclusivamente aqui em todo o N.T., embora sua forma adjetivada ocorra em Gl 5:26. Na Septuaginta (versão do A.T. hebraico para o grego, completada cerca de duzentos anos antes da era cristã), essa palavra era usada para descrever a «loucura» da adoração idolatra. A forma verbal é usada para descrever a loucura de seguir 'vãs presunções'. O substantivo é formado por duas palavras, «kenos» («vazio») e «doksa» («opinião»). Dentro do uso neotestamentário, significa «ter alta opinião de si mesmo» (o que é uma vaidade, afinal de contas), de modo a exaltar-se a si próprio, de gloriar-se alguém em si mesmo. Somente Deus pode ser glorificado por cristãos sinceros, e a ninguém é permitido gloriar-se em sua presença.
Aquele que se gloria em si mesmo, portanto, na realidade usurpa a posição de Deus, o que é um grande absurdo. Aquele que se vangloria de si mesmo faz do próprio «eu» um deus. E isso é uma vaidade das piores, que serve de elemento provocante no seio da igreja, segundo toda a experiência humana bem o demonstra. A tentação maior para tal vaidade ocorria entre os crentes judeus, escudados em antiqüíssima tradição religiosa; e em muitos deles havia uma opinião exagerada sobre a superioridade racial em questões religiosas. Além desses, havia aqueles cristãos que estavam influenciados pela filosofia grega, os quais davam excessiva importância à «sabedoria», e esses poderiam imaginar que, de alguma maneira especial, eram os grandes guardiões da sabedoria divina.
«...mas por humildade...» No grego temos «tapeinophrosune», que literalmente significa «humildade de mente», ou seja, «humildade». Essa fôrma verbal significa «ser modesto», «ser despretensioso», «ser humilde». (Ver o trecho de Mt 11:29, onde se lê que Jesus se dizia «humilde de coração»). Cristo, pois, é o supremo exemplo de humildade, o nosso grande modelo quanto a essa virtude. Já Aristóteles considerava que a humildade é um «vício de deficiência». De fato, a despeito do que afirmam em contrário, muitíssimas pessoas pensam que a humildade é uma indesejável demonstração de fraqueza. Mas a humildade consiste tão-somente da atitude que nos leva a evitar pensar exageradamente bem a nosso próprio respeito, o que seria um orgulho egoísta, que prejudica ao próximo. Quem não é humilde sempre procura impor os seus desejos e os seus métodos, sem importar-se com o que os outros pensem ou sintam. É possível que Paulo tenha cunhado a palavra que encontramos aqui, a fim de expressar uma virtude exclusiva dos cristãos, porquanto não a encontramos em qualquer literatura até então, embora ela seja usada nas citações que se fizeram deste trecho, a partir dessa época.
O estado mental caracterizado pela humildade é contrário à atitude pretensiosa e à agressividade, com vistas ao autobenefício, ignorando o benefício do próximo. Paulo não nos exorta a sermos fracos e de disposição para a falta de energia. Pelo contrário, só não nos devemos impor mediante atitudes egoístas. (Ver os trechos seguintes: At 20:19: «...servindo ao Senhor com toda a humildade...»; I Pe 5:5: «...cingi-vos todos de humildade...»; Lc 14:11: «Pois todo o que se exalta será humilhado...»; Tg 4:6: «...Deus...dá graça aos humildes...» e I Pe 5:6: «Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte...»).
A humildade consiste, antes de tudo, de uma correta atitude para com Deus, no reconhecimento de sua grandeza e de seu total controle sobre nossas vidas; e então, secundariamente, consiste em nossa atitude para com o próximo, não querendo nós nos elevarmos acima de quem quer que seja, mas antes, considerando os seus direitos. «Devemos pensar humildemente sobre nós mesmos, porque somos destituídos de importância». (Neander).
«...considerando cada um os outros superiores a si mesmo... » Na passagem de Rm 12:10, se lê: «...preferindo-vos em honra uns aos outros...»

Natureza da Humildade

1. Como é óbvio, todos os homens não estão no mesmo nível de educação, de riquezas materiais, de inteligência ou de posição social. Paulo como que dizia: «Não permitais que essas realidades terrenas vos cegue para a realidade superior». Os homens, no tocante às suas almas, são iguais em grandeza potencial. «Portanto, tratai a todos os homens como vossos iguais».
2. Em outros trechos bíblicos, o apóstolo ensinou-nos que até mesmo quando «diferimos» de outros, material ou espiritualmente falando, isso se deve ao fato de que «foi-nos dado diferir desse modo». Deus é a origem de todas as diferenças vitais. Também é o operador de todas as vantagens. Por conseguinte, nada possuímos que não nos tenha sido dado. Em razão do que podemos jactar-nos? (Ver I Co 4:7).
3. Até mesmo nossas realizações já foram mapeadas para nós de antemão, porquanto, Deus guia nosso destino, o que inclui aquilo que fazemos. Assim se aprende em Ef 2:10. És tu destacado em tuas realizações? Dê o crédito a Deus, que é quem o merece. Não te exaltes acima de teus semelhantes, por haveres trabalhado mais abundantemente do que eles. (Ver I Co 15:10).
4. Esses mandamentos e essas instruções, sem embargo, não nos desencorajam a tentar melhorar a nós mesmos. Procuremos avançar! Mas façamos essa busca no Espírito, e com a atitude de humildade. (Ver I Co 12:31). Aprovemos e busquemos as coisas mais excelentes (ver Fp 1:10). E, se porventura chegarmos a atingi-las, cumpre-nos dar toda a glória a Deus, o qual opera em nós a sua vontade (ver Fp 2:13).

Sermão do Monte: a Ética do Reino e a Lei (Mt 5.1-11)

O Evangelho de Mateus tem um propósito didático. A ênfase especial vai para a mensagem de Jesus. Uma das características distintivas do Evangelho de Mateus é que o ensino de Jesus é dividido em 5 seções. O Sermão do Monte (caps. 5-7) é o primeiro desses blocos. Os outros são: Instruções aos Doze (cap. 10), As Parábolas do Reino (cap. 13), A Vida na Comunidade Cristã (cap. 18), e Julgamento Escatológico (caps. 23-25). Cada livro se encerra com uma fórmula semelhante a: "Concluindo Jesus de proferir estas palavras" (7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1).
Não devemos imaginar que o Sermão do Monte é um discurso único pronunciado por Jesus num dia particular. Sem dúvida houve um sermão primitivo, real, mas esse sermão foi depois ampliado bastante por Mateus (cp. Mounce, "Sermon on the Mount", IBD, vol. 3, pp. 1417-19). Várias observações indicam essa conclusão. Sendo verdadeiro mestre, Jesus não esperaria que seus ouvintes fossem capazes de absorver tanta instrução ética de uma só vez. Essa concentração forte de conceitos anularia seu propósito didático. Certas seções não têm conexão com o assunto precedente, nem com o que vem a seguir (p.e., 5:31,32; 7:7-11). Fato importante: 34 dos versículos do Sermão do Monte de Mateus (que tem 107 versículos) não se encontram no registro que Lucas faz desse sermão (Lucas 6:20-49), mas encontram-se espalhados noutros contextos de Lucas. É muito provável que Mateus tivesse organizado seu material em ordem, e em tópicos, ao compilar o sermão, e menos viável que Lucas houvesse espalhado seu material e, em seguida, arranjado novos contextos históricos. Além do mais, 47 dos versículos de Mateus não têm paralelo algum em Lucas.
Com freqüência se sugere que nos cinco blocos de ensinos de Mateus temos uma tentativa de apresentação de um novo Pentateuco. Jesus é retratado como o segundo Moisés, maior do que o primeiro (cp. Deuteronômio 18:15), que sobe à montanha, assume postura de autoridade (senta-se para ensinar, cp. Lucas 4:20-21), e entrega uma nova lei. Essa é uma idéia interessante, mas nada persuasiva. O sermão de Jesus não consiste de nova coleção de leis, senão de uma descrição de como devem viver as pessoas que entraram no reino de Deus. As exigências éticas desse sermão não objetivam levar as pessoas ao desespero, de modo que se atirem à misericórdia de Deus; seu propósito é orientá-las e encaminhá-las como pessoas que querem agradar a Deus. É verdade que as exigências estão definidas em termos absolutos("Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus", 5:48), entretanto, essa é a natureza de todos os grandes ensinos éticos. Embora não consigamos atingir as estrelas, ainda assim nos servem de orientação confiável em navegação.

5:1-2 Vendo Jesus as multidões, subiu a um monte e assentou-se.
Aproximaram-se dele os seus discípulos, ele começou a ensiná-los. A área sob referência provavelmente era a encosta de um monte que se elevava para o norte e oeste do mar da Galiléia. Mateus menciona várias experiências que ocorreram em montanhas (a terceira tentação, 4:8; a transfiguração, 17:1; a grande comissão, 28:16). Não deve preocupar-nos o fato de Lucas colocar seu relato do sermão "num lugar plano", depois de Jesus haver descido da montanha (Lucas 6:17ss.). O importante é o sermão em si, não seu ambiente topográfico. As tentativas de harmonizar aparentes incoerências com freqüência produzem mais malefícios que benefícios.
Quando Jesus se assentou a fim de ensinar, assumiu posição de autorida­de. Nas sinagogas judaicas os mestres sentavam-se (cp. Lucas 4:20). Ainda nos referimos a matérias como "cadeiras", na universidade, a professores universitários como "catedráticos"; de vez em quando o papa diz alguma coisa ex cathedra, "de sua cadeira".
Com freqüência se levanta a questão do auditório específico de Jesus. As multidões mencionadas em 5:1 ainda estão ali ao final do sermão (7:28, "As multidões se admiraram da sua doutrina"). Entremeando essas referências, entretanto, parece que Jesus estava ensinando seus discípulos (cp. 5:1b). Uma resposta é que os discípulos constituíam as multidões (Gundry, p. 66). Outra, é que ele estava ensinando os Doze, mas outras pessoas se juntaram para ouvi-lo. Parece-nos que é melhor tomar essa referência a discípulos como expressão abrangente de todos quantos seguiam a Jesus a fim de ouvir o que ele tinha a ensinar. É óbvio que os Doze estavam ali, mas a referência não deveria restringir-se a esse grupo especial.
O Sermão do Monte começa com uma série de exclamações com respeito à felicidade das pessoas que se colocaram sob o governo soberano de Deus. Albright-Mann chama as bem-aventuranças de "a carta magna do reino" ou a constituição espiritual do reino (p. 68). A forma literária empregada por Mateus é comum no Antigo Testamento, especialmente nos Salmos e na literatura sapiencial(Respeitante à sapiência. Relativo à reflexão sobre o destino humano, os caminhos para atingir a sabedoria e a conformação à ordem do universo, esp. aquela que se desenvolveu no antigo Oriente Médio, tal como expressa em alguns livros bíblicos. Relativo aos livros bíblicos que tratam desses temas. [Os livros sapienciais bíblicos são: Jó, Provérbios, Eclesiastes, Salmos, Cântico dos Cânticos, além dos deuterocanônicos Eclesiástico e Sabedoria.] ) (p.e., Salmo 1:1, "Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores"; cp. Salmo 84:4-5,12). A palavra grega para bem-aventurados é makarios. Barclay observa que Chipre era chamada he makaria ("a Ilha Feliz") porque era tão fértil ebonita que tudo quanto a pessoa almejasse poderia ser encontrado nela (vol. 1, p. 89). Assim, bem-aventuradodescreve uma alegria cujo segredo está dentro da própria pessoa. Outros têm observado que Homero chamava os deuseshoi makares ("os felizardos"). Agora Jesus exclama que não são os ricos e poderosos, mas os pobres e humildes de quem se pode dizer, na verdade, que são bem-aventurados. A apreciação de Jesus das coisas que constituem a vida, como deveria ser vivida, ressalta em forte contraste com a sabedoria convencional.
As bem-aventuranças são oito (o v. 11 amplia o pensamento do versículo anterior, mudando da terceira pessoa para o discurso direto). Alguns manuscritos (a maior parte dos quais em latim) transpõem os vv. 4 e 5, presumivelmente a fim de juntar "os pobres" do v. 3 aos "mansos" do v. 5. A ordem original é melhor: apresenta quatro pares de virtudes diagramadas nesta ordem: A B A' B' C D C' D' (Green, p. 76). Os comentaristas se dividem quanto à questão de essas bem-aventuranças lançadas pelo Senhor serem primordialmente do presente ou do futuro. É desnecessário assumir uma posição em detrimento da outra. Conquanto a expressão terminal de cada bênção aguarda o dia de sua vindicação final, essas bem-aventuranças em si mesmas devem ser experimentadas e usufruídas no tempo presente. O verbo no futuro, nos vv. 4-9 enfatiza a certeza, em vez de a necessidade de um período de espera.
5:3-4 A primeira bem-aventurança declara a felicidade dos pobres de espírito. Na linguagem hebraica, "pobre" não era apenas a pessoa em desvantagem econômica, mas todos quantos, em sua necessidade, apelam a Deus em busca de ajuda (Salmo 69:32; Isaías 61:1). Hill diz que estes são os 'nwyrwhno 1QM 14.7-"os humildes pobres que confiam na ajuda de Deus" (p. 111).
A palavra grega para "pobres", ptochos, possui uma tonalidade especial de "extrema pobreza". Deriva de um verbo que significa "rastejar" ou "agachar-se" (a forma substantiva é usada para designar o mendigo, alguém em pobreza abjeta). Ser pobre de espírito significa depender totalmente de Deus para ajuda (cp. Salmo 34:6, "Clamou este pobre, e o Senhor o ouviu; salvou-o de todas as suas angústias").
Observa-se com freqüência que Lucas se refere a esse grupo de pessoas de modo mais simples, "os pobres" (Lucas 6:20), enquanto Mateus acrescen­ta um termo qualificativo: de espírito. É improvável, como sugerem alguns às vezes, que isso signifique "voluntariamente". A promessa feita aos que aceitam sua dependência absoluta de Deus é que o reino dos céus lhes pertence. Entraram no reino triunfante de Deus, estabelecido pela obra redentora de Cristo, o qual se concretizará de modo completo quando o Senhor voltar, no final dos tempos.
Bem-aventurados os que choram - os que se entristecem pela sua própria teimosia ou pela perversidade tão prevalecente neste mundo. Os que choram não se refere apenas àqueles que têm passado por épocas difíceis, mas que entendem que todo o sofrimento neste mundo deriva da tendência humana destrutiva, pecaminosa, a qual nos impele a agir como se Deus não existisse. Os que "sabem o que significa a tristeza" (Phillips) deverão ser confortados pelo próprio Deus (serão consolados é uma paráfrase semítica reverente). Isaías proclamou o ano do favor divino, quando o rei messiânico haveria de "pregar as boas novas aos pobres" (Isaías 61:1; cp. Mateus 5:3) e "consolar todos os tristes" (Isaías 61:2; cp. Mateus 5:4).
5:5-6 A terceira bem-aventurança promete a terra como herança aos mansos. Nos sinóticos, a palavra paramansos (praus) só é usada por Mateus, em apenas três ocasiões. Em 11:28-30 Jesus convida os cansados e sobrecarregados deste mundo para que tomem sobre si seu jugo e descubram que o Senhor é "manso e humilde de coração". No final de seu ministério Jesus entrou em Jerusalém montado num jumento, cumprindo a profecia de Zacarias: ele é "humilde, montado em jumentinho" (Mateus 21:5; Zacarias 9:9). Jesus desempenhou seu ministério messiânico não como um zelote cujo objetivo seria estabelecer um reino político mediante a força, mas como alguém que viveu vida de serviço sacrificial e humilde, para Deus e para o ser humano. Esta é a humildade (mansidão) que Jesus requer de seus seguidores. É o manso e humilde que vai herdar a terra e ter abundância de paz (Salmo 37:11). "Os que têm espírito manso" (NEB), não os ambiciosos e avarentos, recebem as recompensas mais satisfatórias da vida. Os agressivos são incapazes de usufruir os seus lucros mal-adquiridos. Só os humildes têm a capacidade de gozar a vida, todas aquelas coisas que provêem satisfação duradoura e genuína.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça. Para todos quantos vivem num mundo em que lhes basta abrir a torneira, sempre que querem água, e que dispõem de algum tipo de comida, a experiência da fome e da sede lhes é estranha. Não acontecia isso no mundo antigo, com tantas pessoas vivendo constantemente à beira da fome, atravessando desertos às vezes sem provisão de água. A sede como imagem de anseio espiritual é encontrada em passagens como Salmo 42:1-2, "Como o cervo anseia pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus". A justiça pela qual os seres humanos anseiam é a capacidade de viver de conformidade com a vontade de Deus. Inclui a vindicação final da missão redentora de Deus, abertamente reconhecida por todos os homens quando o Senhor voltar em triunfo (cp. Filipenses 2:10-11). A satisfação completa do povo de Deus é representada sob a forma de um banquete messiânico (cp. Isaías 25:6; Apocalipse 2:17). Deus os satisfará de modo completo! Huston Smith (autor muito conhecido na área de religiões do mundo) observou certa vez que nunca conseguimos obter o suficiente daquilo que na verdade não queremos. Fomos criados para Deus e nada, exceto sua presença, pode nos satisfazer.
5:7-8 A quinta bem-aventurança descreve os seguidores de Cristo como sendo misericordiosos, isto é, cheios de compaixão. Por trás do termo grego está a rica expressão hebraica hesed, "bondade" (a tradução de Coverdale a usa com regularidade na RS), ou "amor persistente" (RSV). Ser misericordioso significa manter a fidelidade de um relacionamento de aliança. Não se trata de um ímpeto de emoção, mas de bondade intencional. É aos misericordiososque Deus mostrará misericórdia. Este princípio da reciprocidade é visto em outros contextos, como na oração dominical ("Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores", Mateus 6:12; cp. Lucas 6:14-15) e Tiago 2:13 ("o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia"). De Gamaliel deJabné (rabino do final do primeiro século) se diz que afirmava: "Enquanto você for misericordioso, o Misericordioso lhe será misericordioso". Esta ética quid pro quo deverá ser observada com seriedade, sem legalismo. Todos quantos foram genuinamente perdoados nada fazem senão perdoar.
Bem-aventurados os puros de coração. A referência primária não é à pureza sexual, embora esta seja mencionada em 5:28, mas à retidão, a pessoa ser liberta da "tirania do eu dividido" (Tasker, p. 62). De acordo com Tiago, o hipócrita precisa "purificar o coração" (4:8). Se o olho não é bom, o corpo todo estará nas trevas (Mateus 6:23). Motivos ulteriores dividem o coração. Escritores judeus entendiam que essa inclinação para a esquizofrenia moral resulta de um yeser ou impulso mau. O que Deus exige do que deseja subir ao santo monte do Senhor, senão que seja "limpo de mãos e puro de coração"? (Salmo 24:3-4).
A recompensa da integridade interior, total, é que eles verão a Deus. João escreve que "ninguém nunca viu a Deus" (João 1:18), e Paulo nos dá a razão disso: é que Deus "habita na luz inacessível" (1 Timóteo 6:16). Permanecer na presença de Deus é a maior bênção concebível. Em Apocalipse 22:4 os bem-aventurados "verão a sua face". Embora a promessa seja primordialmente escatológica, pode ser concretizada num sentido espiritual também, no presente tempo. A pureza genuína prove uma experiência imediata e profunda da presença e do poder de Deus. Os puros verão a Deus.
5:9-10 A próxima bênção é prometida aos pacificadores. A paz ordenada por Jesus não é uma aceitação passiva de qualquer coisa que surja, mas um envolvimento ativo que confronta o problema e o resolve de todo, alcançando reconciliação satisfatória. "Procura a paz e segue-a" é a admoestação do salmista (Salmo 34:14). "Aquele que pratica a paz", diz o comentário judaico Sifra (a respeito de Números 6:26), "é filho do mundo vindouro". A paz que devemos estabelecer é (neste contexto) a que deriva de relacionamentos corretos entre os membros da família humana. Se trabalharmos em prol da reconciliação, seremos chamados filhos de Deus (hyioi theoü). Isto se refere àqueles que, agindo como Deus age, apresentam uma semelhança de família, herdada do seu Pai celeste.
A bem-aventurança final tem que ver com os que sofrem perseguição porque mantêm na confissão de fé e na vida as exigências de retidão impostas por Deus. A esses perseguidos pertence o reino dos céus. Jesus prometeu a seus seguidores a mesma hostilidade que ele próprio sofreu (João 15:18-25). Pedro falou várias vezes a respeito do sofrimento injusto (1 Pedro 1:6; 3:13-17a; 4:12-19). Sofrer por haver feito o que Deus exige de nós, traz-nos grande conforto. Observe que o reino dos céus abre (v. 3) e também fecha (v. 10) as oito bem-aventuranças. Esse recurso retórico, conhecido como inclusão, era comum nos escritos antigos.
5:11-12 Os vv. 11 e 12 ampliam a última bem-aventurança. Insultos, oposição e mentiras devem ser esperadaspelos seguidores de Cristo. Quando isso acontecer, regozijai-vos e alegrai-vos. O segundo verbo é composto por duas palavras gregas que significam (lit.) "saltar excessivamente". Areação à perseguição é a alegria incontida. A recompensa no céu (i.é., à vista de Deus) é grande. Os profetas receberam esse tipo de tratamento, e nós somos sucessores deles (cp. 23:29-36). Stendahl acha que Jesus poderia estar-se referindo a seus discípulos como profetas, da mesma maneira como os essênios faziam.

Bibliografia Mounce


As Bem-aventuranças (5.3-12)

O Cenário do Sermão, 5.1-2

Alguém poderia deduzir do primeiro versículo do capítulo cinco que Jesus deixou a multidão (1) e entregou este "sermão" somente para os discípulos. Mas parece que a multidão se reuniu em torno da parte externa do círculo interno e ouviu o discurso (cf. 7.28).
A referência a um monte é provavelmente significativa. Assim como Moisés rece­beu a antiga Lei no monte Sinai, assim também Jesus, o novo Líder, pronunciou a lei do Reino na encosta de um monte.
Assentando-se. Enquanto os pregadores de hoje seguem o costume grego e romano de ficar em pé para falar, os mestres judeus sempre se sentavam enquanto ensinavam. Discípulos literalmente significa "aprendizes". A palavra só é encontrada nos Evange­lhos e Atos (Mateus, 74 vezes; Marcos, 45; Lucas, 38; João, 81; Atos, 30). Esta é a desig­nação mais antiga para os seguidores de Jesus.

As Bem-aventuranças (5.3-12)

a) Os Pobres de Espírito (5.3). Cada beatitude(Felicidade eterna e suprema; bem-aventurança. Gozo da alma dos que se absorvem em contemplações místicas. Felicidade tranqüila e serena; bem-estar.) começa com bem-aventurados, o que lembrava aos ouvintes o Salmo 1.1. Lenski comenta: " 'Bem-aventurado!' entoado repetidas vezes, soa como sinos do céu, tocando neste mundo amaldiçoado, do alto da catedral do reino, convidando todos os homens a entrar".
A palavra grega makarios significa "feliz". Mas é óbvio que "... as bênçãos contem­pladas nas Beatitudes não podem de forma alguma ser expressas em nosso idioma pela palavra ou pelo conceito de 'felicidade' ". Elas se referem, antes, à bem-aventurança que só vêm para aqueles que desfrutam da salvação em Jesus Cristo. Hunter sugere:" Aben­çoado' significa 'Ah, a felicidade de', e a beatitude é a felicidade do homem que, em comu­nhão com Deus, vive a vida que é realmente a vida". Arndt e Gingrich escrevem: "A tradução Ó, a felicidade de ou saudação àqueles, preferida por alguns, pode ser exatamente correta para o original aramaico, mas ela escassamente exaure(Esgotar completamente; despejar até a última gota) o conteúdo que makarios tinha nos lábios dos cristãos de fala grega". John Wesley tem sido seguido por vários tradutores atuais ao adotar "Feliz". Mas "Bem-aventurado" talvez seja uma tradução mais adequada.
Os pobres de espírito (3) são aqueles que reconhecem a sua pobreza espiritual. Lucas (6.20) diz: "Bem-aventurados vós, os pobres". Mas, após o cativeiro babilônico, a frase "os pobres" era freqüentemente usada para os piedosos, em contraste com os opressores ricos, ímpios e mundanos dos pobres. Assim, as afirmações em Mateus e Lucas significam a mesma coisa. Talvez a melhor tradução de 5.3a seja a de Goodspeed: "Bem-aventurados são aqueles que sentem a sua necessidade espiritual".
Por que estes pobres são bem-aventurados? Porque deles é o Reino dos céus. As Beatitudes estão na forma de paralelismo sintético, um tipo de poesia hebraica na qual a segunda linha completa o significado da primeira. Desse modo, aqui a segunda linha define mais especificamente a conotação de "bem-aventurado".
A primeira beatitude atinge diretamente o centro da necessidade do homem. Fitch declara: "A pobreza de espírito é essencialmente o destronamento do orgulho". Depois de declarar que "o orgulho é a própria essência do pecado", ele continua dizendo: "O orgulho é o pecado de um individualismo exagerado, o pecado do usurpador reivindican­do um trono que não é seu, o pecado que enche o universo com apenas um ego, o pecado de destronar a Deus de sua soberania de direito".
b) Os que Choram (5.4). Quando alguém percebe que está falido de todos os bens espirituais que o tornariam aceitável a Deus, irá chorar (4) sobre o fato. Lloyd-Jones escreve: " 'Chorar' é algo que vem logo depois da necessidade de ser 'pobre de espírito' ", e acrescenta: "Quando eu confronto Deus e a sua santidade, e contemplo a vida que devo viver, vejo a mim mesmo, o meu total desamparo e falta de esperança".
Este choro leva ao arrependimento e à conversão. Mas não pára aqui. Continua por toda a vida do cristão consciencioso. Os maiores santos percebem mais intensamente o quanto carecem da perfeita semelhança com Cristo, e choram acerca disso. Só o cristão néscio pode se sentir complacente.
A promessa para aqueles que choram é que eles serão consolados (cf. Is 57.18). Isto acontece primeiro na consolação do perdão, e depois na consolação da comunhão. Um Cristo compassivo está especialmente perto daqueles que choram.
c) O Manso (5.5). O significado da verdadeira mansidão, infelizmente, tem sido com freqüência mal-entendido.Por diversas vezes ele tem sido imaginado em termos de uma humildade modesta, negativa e quase falsa. Mas, na verdade, é algo muito diferente, mesmo quando se trata de alguém em relação ao seu companheiro. O arcebispo Trenchescreve a esse respeito: "A mansidão é uma graça lavrada na alma; e o seu exercício está primeira e principalmente relacionado a Deus". Ele acrescenta: "E aquele estado de espírito em que aceitamos os seus tratos conosco como bons e, portanto, sem discussão ou resistência". De acordo com esta mesma opinião, Fitch diz: "A mansidão é a entrega a Deus, a submissão à sua vontade, o preparo para aceitar o que quer que Ele possa oferecer, e a prontidão para assumir a posição mais baixa". Colocada em termos sim­ples, a mansidão é a submissão à vontade de Deus. E isto não é primariamente negativo, mas positivo. E um cumprir ativo da vontade de Deus na nossa vida diária. Jesus Cristo é o Exemplo supremo de tal mansidão (cf. 11.29). Esta realização da vontade de Deus inclui uma avaliação correta de si mesmo, uma avaliação que leva a pessoa a "não saber mais do que convém saber" (Rm 12.3).
Dos mansos é dito que eles herdarão a terra (5). O mundo acredita que o caminho para vencer é fazer valer os seus direitos. Mas Jesus disse que aqueles que aceitam a sua vontade, um dia reinarão com Ele.
d) Os que têm Fome e Sede de Justiça (5.6). Um dos primeiros sinais de vida de um bebê normal é a fome. Assim sendo, aquele que verdadeiramente nasceu de novo sentirá fome e sede de justiça (6) - o que nas Escrituras freqüentemente significa "salvação" (cf. Is 51.6). Para estes, é dada a promessa: eles serão fartos. A palavra grega échortazo, de chortos, que é geralmente traduzida como "relva" no Novo Testamento. O quadro é o do gado que se alimenta até estar satisfeito. O verbo também é traduzido como "satisfei­to", e isto se encaixa muito bem aqui. Fitchobserva: "A plenitude é a resposta de Deus para o vazio do coração do homem".
e) Os Misericordiosos (5.7). Aqueles que receberam a misericórdia de Deus devem demonstrar misericórdia aos seus companheiros. A ilustração mais vivida de como é irracional se recusar a perdoar os outros, é apresentada na parábola do credor incompassivo (18.23-35). A parábola do Bom Samaritano (Lc 10.30-37) dá um excelente exemplo de misericórdia a alguém necessitado. A misericórdia tem sido definida como a "bondade em ação".
Bowman e Tapp sugerem que as Beatitudes aparentemente representam "um poe­ma aramaico original em duas estrofes de quatro versos cada". As quatro primeiras beatitudes descrevem: "primeiro, um despertar do seu estado de inadequação...; segun­do, a determinação de 'se converter' a Deus com arrependimento...; terceiro, a adoção de uma atitude constante de confiança somente em Deus...; e finalmente, o profundo desejo de adquirir a 'justiça' completa que constitui a 'salvação' para o homem". Fitch defende que a primeira estrofe descreve o nascimento do cristão, e que a segunda estrofe descre­ve a sua vida como cristão.
f) Os Limpos de Coração (5.8). Sobre esta condição Whedon diz: "Aqui está um traço de caráter que só o Espírito de Deus pode produzir. Isto é a santificação". McLaughlin escreve: "Um coração puro é um coração que não tem, em si, nada que seja contrário ao amor de Deus".
Jesus declarou que somente os limpos de coração verão a Deus (8). E isto se refere à vida aqui, bem como à vida futura. O pecado é como poeira nos olhos. Ele obscurece a visão e distorce a vista. Só podemos entrar em plena comunhão com o Senhor quando os nossos corações estão limpos de todo pecado (cf. 1 João 1.7).
A pureza de coração é a finalidade e a soma das beatitudes anteriores. A possibilidade de tal retidão interior está claramente implícita; mas também está aparente tanto nas Escri­turas quanto na experiência universal de que ninguém é puro por natureza (Jr 17.9); os corações só podem ser puros se forem purificados. Nem mesmo a cultura humana poderá purgar(Tornar puro; purificar, limpar) as profundezas da corrupção; deve necessariamente haver uma obra da graça divina.
O coração deve ser purificado de seu orgulho (Pv 16.5); se não, em vez de ser "pobre de espírito" ele será arrogante e auto-suficiente; em vez de estar arrependido (alguém que chora verdadeiramente) ele será autocomplacente; em vez de ser "manso", um ho­mem será obstinado e impetuoso. O coração também deve ser purificado do duplo ânimo (Tg 4.8), do egoísmo e da contenda (Tg 3.14), e da incredulidade (Hb 3.12).
g) Os Pacificadores (5.9). Tiago diz em sua epístola que "a sabedoria que vem do alto é, primeiramente, pura, depois, pacífica" (Tg 3.17). Esta é a ordem aqui. Somente os puros de coração, que foram limpos da natureza carnal (a causa de toda a luta interior), podem ter "a paz de Deus" plenamente em suas almas. Um coração dividido é um cora­ção perturbado. Somente a paz de Cristo, nos controlando, pode nos tornar pacificadores.
Ninguém gosta de um provocador. Mas o desafio para o cristão é: Será que sou um pacificador - na comunidade, na igreja, em casa? Este último local é o teste mais difícil de todos.
Filhos de Deus (9) é, no grego, literalmente, "filhos de Deus". Quando o artigo definido é omitido no grego, ele enfatiza o tipo ou o caráter. Quando as pessoas promo­vem a paz, elas são chamadas de "filhos de Deus" porque agem como Deus. No pensa­mento oriental "filho de" significa "ter a natureza de".
h) Os que sofrem perseguição (5.10-12). Alguns estudiosos classificam as Beatitudes em número de nove. Outros contam oito, considerando o versículo 11 como uma extensão adicional do versículo 10. Seguiremos este último método.
Não se deve falhar em observar que aqueles que sofrem perseguição por causa da justiça (10) são bem-aventurados. Alguns que se fizeram mártires a si mesmos ale­gam estar sendo perseguidos por causa da justiça, quando na verdade estão sofrendo por causa de sua própria ignorância. Quando criticados por agirem ou falarem de forma insensata, eles citam esta beatitude. Mas isto é "falsificar a palavra de Deus" (2 Co 4.2).
Quando perseguido, o cristão deve exultar e alegrar-se (12). Jesus cita o exemplo dos profetas que foram perseguidos nos tempos do Antigo Testamento. Mas, na verda­de, Ele mesmo é o Exemplo supremo daquilo que é descrito no versículo 11. Alguém já disse que as Beatitudes são uma autobiografia de Cristo.
As virtudes que Jesus exalta no Sermão do Monte são quase que exatamente o opos­to daquelas admiradas pelos gregos e romanos em seus dias. Ele disse: Bem-aventura­dos são os pobres de espírito, os limpos de coração, os pacificadores, os que sofrem perse­guição; os que choram, os mansos, os misericordiosos; e aqueles que têm fome e sede de justiça. Estas características também são contrárias ao espírito deste século. Bowman e Tapp se expressam assim: "Parece, então, que o nosso Senhor está esboçando uma perso­nalidade salva que é forçada a viver em um mundo perdido; a justiça cercada pela iniqüidade, com as conseqüentes tensões assim criadas".
Um dos melhores resumos das oito Beatitudes é o apresentado por Fitch. Ele diz:

Elas se dividem naturalmente em quatro partes separadas. As três primeiras nos mostram um homem se convertendo dos seus pecados a Deus, e a quarta nos mostra Deus se voltando para o pecador e revestindo-o com a justiça de Cristo. As três seguintes... nos mostram o filho recém-nascido de Deus operando as obras de justiça entre os homens; e a Beatitude final mostra como os homens reagem... Há, primeiro, três graças de uma alma contrita, seguidas pela resposta de Deus em misericórdia, em justiça e em paz. Então seguem-se três graças de uma alma comissionada, seguidas pela resposta do mundo em perseguição e reprovação.

                Bibliografia Comentário Beacon


Em que consiste o reino de Deus? Quais são as leis desse reino? Que tipo de pessoa pertence a esse rei­no? Que fazer para entrar nesse rei­no? Com o propósito de responder essas indagações e estabelecer o padrão de conduta dos cidadãos do Reino, Jesus proferiu um discurso chave popularmente conhecida como "o Sermão do Monte".
Este sermão indica que a vida com Cristo requer a substituição do nosso 'padrão de justiça pelo padrão de justiça de Deus. Jesus ensinou que a felicidade por Ele oferecida não deve depender do que temos ou fazemos, mas do que somos; e não pode ser importada, mas precisa nascer da alma, do interior.
Podemos concluir, através des­se magistral sermão que, se quiser­mos alcançar a felicidade nesta vida e a eternidade, não nos resta outra alternativa, senão, atentarmos para todos os sublimes ensinamentos do majestoso Filho de Deus.
Entre os sermões proferidos por Cristo aos discípulos, o Sermão do Monte, como ficou conhecido, tra­duz de forma marcante e reveladora a essência e a natureza de sua doutrina. Teremos, neste trimestre, não só a oportunidade ímpar de conhecer ou recordar as suas vigas mestras, mas, acima de tudo, de procurar fazer desse ensino singular o ideal de vida de todos quantos desejam sinceramente praticar O cristianismo bíblico.

O contexto do Sermão do Monte

1. O contexto geográfico. A maior parte do ministério de Je­sus se desenvolveu ao norte de Is­rael, nas redondezas do mar da Galiléia, região em que realizou, também, grande parte de seus por­tentosos milagres (ver Mt 4.23,24). Naquelas imediações está o Monte das bem-aventuranças, onde pregou o mais conhecido sermão de todos os tempos, no qual balizou os prin­cípios gerais do Reino de Deus.
2. O propósito do sermão. O Sermão do Monte é a síntese do ensino de Cristo para o seu povo. Antes de a Igreja consolidar-se como agente do Reino de Deus na terra (cf. At 8.12; 19.8; 20.25; 28.31), o Senhor tomou a iniciati­va de descortinar ao núcleo apos­tólico, através desta primeira gran­de explanação pedagógica, as vi­gas mestras que constituem o mo­delo de vida cristã trazido pelo Reino de Deus, isto é, a sua ética.

As dimensões das bem-aventuranças

1. A dimensão presente. Tanto as bem-aventuranças quanto os demais princípios bíblicos do Sermão do Monte podem ser vitos sob dois ângulos: a dimensão presente e a dimensão escatológica. Ambos se interpõem e se completam. Há os que vinculam estes princípios apenas à manifestação futura do Reino de Deus, como se não pudessem ser experimentados aqui e agora. Eles o fazem porquê interpretam a expressão "reino dos céus", utilizada por Mateus, e que aparece no Sermão do Mon­te, como referente ao reino milenial, o que excluiria a validade desses princípios para a época presente.
Mas, na verdade, comparando-­se os sinóticos, verifica-se que "rei­no dos céus", em determinadas passagens, equivale em Mateus a expressão "Reino de Deus". Compare os seguintes textos: Mt 3.1,2 e Mc 1.14,15; Mt 13.1-23 e Mc 4.1-20; Mt 13.31-58 e Lc 13.18-21. Ora, Jesus deixou claro que a che­gada do Reino de Deus é um ato presente na história (ver Mt 4.17). Portanto, se esta manifestação pre­sente é uma verdade escriturística, não há como excluir desta era e situar apenas no futuro os ensinos éticos e as bênçãos proclamados no Sermão do Monte, entre as quais as bem-aventuranças.
2. A dimensão escatológica. Todavia, sob o ângulo escatológico, haverá um tempo em que o Reino de Deus manifestar-se-á de forma física, como retrata Apo­calipse 11.15. Quando então esses princípios, e as bênçãos decorren­tes serão experimentados de modo perfeito e absoluto. Hoje, conhecemos em parte (1 Co 13.9,10) e nos submetemos voluntariamente ao senhorio do "reino do Filho do seu amor" (Cl 1.13), mas, quando as etapas finais do plano de Deus ti­verem seu cumprimento, seremos então introduzidos a essa nova di­mensão do Reino em que podere­mos viver em toda a plenitude e justiça a imagem perfeita de Cristo (ver 1 Jo 3.2).
3. A dimensão do compro­misso. Mas as bem-aventuranças e os demais princípios do Sermão do Monte apontam também para a dimensão do compromisso. Este padrão ético constituído por Deus para o seu povo, com o qual cada crente precisa estar comprometi­do, é o referencial que norteia a vida cristã.
Não se trata de legislação para ser cumprida nos moldes da lei mosaica, porque esta, apesar de re­velar a transgressão, não foi sufici­ente para resgatar o homem de seu estado pecaminoso (ver Gl 3.24,25). Por outro lado, nenhum esforço humano é capaz de cumprir, por si mesmo, este elevado padrão de san­tidade exigido por Deus.
O único e legítimo recurso que torna o crente apto a estar em con­dições de expressar em sua relati­vidade humana esses requisitos, quando as circunstâncias o exi­gem, é viver permanentemente sob a graça de Deus em Cristo.

O caminho para as bem-aventuranças

1. A importância do es­pírito despojado. A primeira das bem-aventuranças requer o despojamento de espírito (v.3). No grego, a idéia implica desenvolver a capacidade de esvaziar-se de to­dos os sentimentos que predis­põem o homem a viver de forma egoísta. É não julgar-se auto-sufi­ciente, mas estar disposto a abrir mão de si mesmo pela promessa da recompensa vindoura (ver 1 Co 4.16-18). Os "pobres de espírito" não vivem ansiosos, nem autoconfiantes, mas dependem sempre do Senhor, pela fé, pela oração, firma­dos nas promessas divinas e na esperança do "reino dos céus" na sua plenitude.
2. A força do quebrantamento. A segunda bem-aventurança nos leva ao quebrantamento (v.4). Aqui a idéia não é a da autocomiseração(Comiseração de si mesmo. Piedade, pena, dó, compaixão, amiseração, miseração ) em que o indivíduo se entrega a um esta­do de lamúria pela própria sor­te. Não é o lamento natural por alguma perda, nem a tristeza egocêntrica(Diz-se daquele que refere tudo ao próprio eu, tomado como centro de todo o interesse; personalista) e invejosa por não ter alcançado o que outros já têm. Mas é quebrantar-se com "triste­za segundo Deus" (2 Co 7.10), em razão de seus próprios pecados, bem como tomar para si o sofri­mento pelos pecados, maldades e injustiças dos homens que não conhecem a Deus.
3. A busca da mansidão. Esta bem-aventurança ressalta a for­ça da mansidão (v.5). Ela se contrapõe ao ódio, à violência e ao estilo agressivo das conquistas humanas. Parece um paradoxo, mas quando os de espírito brando despontam, inibem atitudes que poderiam desaguar em conflitos e tragédias.
4. A relevância da justi­ça. A quarta bem-aventurança re­vela que a justiça deve ser um profundo anseio de todo crente (v.6). "Fome e sede" são termos que de­notam extrema necessidade. Tal qual o organismo faminto e se­dento, o cristão não desfrutará da verdadeira calma e paz de espíri­to enquanto não sentir-se saciado da presença de Deus, o que impli­ca viver não só em retidão espiri­tual, mas em não conformar-se com as injustiças e opressões que prevalecem no mundo.
5. A prática da miseri­córdia. Quem experimenta está bem-aventurança (v.7) é porque está em harmonia com as demais. Misericórdia é o ato de ser compassivo com o próximo em seu estado de carência espiritual, moral e social. Ora, só chega a este passo quem é capaz de esvaziar-se, que­brantar-se, ter um espírito brando e amar a justiça. Apenas estes con­seguem ser misericordiosos. Em suas vidas aplicar-se-á a lei da semeadura e da colheita: por terem exercido a misericórdia, serão tam­bém por ela alcançados (cf. Gl 6.7).
6. O lugar da pureza. Con­vém lembrar que pureza de cora­ção não se trata de algo apenas ex­terno e aparente, unicamente com o fim de ser apreciado pelos homens, a exemplo dos fariseus, pois o termo "coração", na Bíblia, traduz a idéia de centro da personalidade. Portanto, esta pureza só é verdadeira quando se realiza a partir do âmago(O centro, o meio de qualquer coisa: A parte mais íntima de um ser; a essência, o íntimo, a alma) do indivíduo (cf. 1 Ts 5.23),
7. O peso da pacificação. Aquele que tem o coração purifica­do de segundas intenções age sem­pre com espírito pacífico. É a séti­ma bem-aventurança (v.9). Paz é ausência de guerra, conflitos e toda sorte de conturbações. Na Bíblia o termo paz abrange também o sen­tido de harmonia. Ora, o pecado é a fonte de todas as mazelas e hosti­lidade entre os homens. Isto significa que o exercício da pacificação é uma qualidade de quem já remo­veu de seu coração, mediante o san­gue de Jesus, a causa de seus males pessoais (ver Rm 5.1) e pode, por isso mesmo, contribuir para que outros a removam de suas vidas.
8. A graça de ser perseguido pela causa do Senhor. Por último, há também uma bem-aventurança para os que são per­seguidos por serem fiéis ao Senhor (vv.9,10). O compromisso com o evangelho não admite outra opção (ver Mt 6.24). Não há como ser amigo do mundo e, ao mesmo tem­po, agradar a Deus. Portanto, a possibilidade de o crente ser hostilizado por causa de sua fé é algo perfeitamente previsível na economia divina.
Mas qual é a grande felicidade - a bem-aventurança -quanto a essas nossas condições referidas por Cristo que nos opõem ao modo de pensar e de agir do mundo?
Nas palavras do escritor francês François Mauriac (como citado por Philip Yancey, O Jesus que eu nun¬ca conheci), ela é o resultado de aceitarmos "a condição para um amor mais elevado - para a posse acima de todas as outras posses: a de Deus. Sim, isso é o que está em jogo, e nada menos".

Bibliografia Do Couto



                        Consolo aos que Choram (Mt 5:4)

Nosso quinhão está lançado num vale de lágrimas, e o filho de Deus passa, diariamente, por muitas experiências dessa natureza. Entretanto, nosso Senhor prometeu: "Bem-aventura­dos os que choram, porque serão consolados." Ao voltar-nos para as páginas da Bíblia, encontramos repetidas referências àqueles sobre os quais as cargas da vida pesam tanto que dão vazão às lágrimas.
Há lágrimas de privação. No capítulo onze do Evangelho de João, a morte retirou Lázaro do círculo domésticoem Betânia. Maria e Marta perderam a companhia do irmão amado. A cami­nho do túmulo, Jesus encontrou-se com Maria, chorosa, e com os demais pranteadores. Ele ficou profundamente comovido e também chorou.
No Salmo 42:1-3 ouvimos o clamor do coração do salmista: "Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face de Deus? As minhas lágrimas têm sido o meu alimento dia e noite, enquanto me dizem continuamente: O teu Deus, onde está?" O salmista foi reduzido às lágrimas. Abandonado dos homens, perseguido por adversários, clama a Deus em sua solidão.
Paulo escreveu a Timóteo, seu filho na fé: "Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura, porque sem cessar me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia. Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria" (2 Tm 1:3-4). Na segunda carta do apóstolo a seu discípulo, Timóteo derrama lágrimas de derrota e desânimo. Eis um homem que fora fiel na pregação da palavra de Deus. Levantaram-se ondas de oposi­ção à verdade que ele apresentava; desânimo e desespero apoderaram-se dele, e Timóteo derramou lágrimas de desalento.
No capítulo 9 de Jeremias, o profeta a quem Deus comissio­nara para apresentar uma mensagem de juízo a Israel verteu lágrimas. "Oxalá a minha cabeça se tornasse em águas, e os meus olhos em fonte de lágrimas! Então choraria de dia e de noite os mortos da filha do meu povo" (Jr 9:1). Deus lhe havia revelado o horrendo juízo vindouro que destruiria Jerusa­lém e levaria Israel ao cativeiro. Sentindo o peso da gravidade de sua mensagem e dos sofrimentos do povo, ele não pôde refrear as lágrimas.
Verificamos o mesmo na experiência do apóstolo Paulo, no livro de Atos. Falando aos presbíteros efésios, dos quais ele pensava estar-se despedindo para sempre, Paulo disse: "Portanto, vigiai, lembrando-vos de que por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar-vos, com lágrimas, a cada um" (20:31). O apóstolo sabia que viriam falsos mestres e, como lobos vorazes, destruiriam o rebanho. As lágrimas de Jeremias e as de Paulo eram de ansiedade, de cuidado e de preocupação por aqueles aos quais haviam sido enviados para transmitir a verdade de Deus. Tão grande era a responsabilidade da mensa­gem que, por causa de sua gravidade, os mensageiros sentiram o coração partido.
Em Marcos, capítulo 9, as lágrimas desciam pela face de um pai. O relato começa no versículo 14. O pai trouxera aos discípulos o filho endemoninhado enquanto nosso Senhor estava no monte da transfiguração. Os discípulos não consegui­ram libertar o rapaz de sua possessão demoníaca, e, quando o Senhor voltou para junto deles, o pai aproximou-se de Jesus e pediu ajuda. O Mestre lhe disse: "Se podes! Tudo é possível ao que crê. E imediatamente o pai do menino exclamou com lágrimas: Eu creio, ajuda-me na minha falta de fé" (vv. 23-24). Tal era o peso que este pai sentia pelo filho que pleiteou sincera­mente com Cristo; as lágrimas eram sinal de sua sinceridade.
O Salmo 126:5-6 exemplifica tal fato: "Os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão. Quem sai andando e chorando enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes." De nada aproveita apresentar o evangelho de modo descuida­do, indiferente, a quem se acha perdido. Mas quando as lágrimas revelam ansiedade ou sinceridade, o salmista garante que a semente regada com essas lágrimas frutificará.
As lágrimas podem ser uma expressão de desejo. Lemos que após terem os filhos de Israel vivido pela fé e visto Deus suprir-lhes o pão de cada dia durante dois anos, "O populacho, que estava no meio deles, veio a ter grande desejo das comidas dos egípcios; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar, e também disseram: Quem nos dará carne a comer? Lembramos-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos. Agora, porém, seca-se a nossa alma, e nenhuma coisa vemos senão este maná" (Nm 11:4-6). O povo chorou, mas as lágrimas expressavam desejo de coisas que satisfaziam à carne.
As lágrimas podem ser um sinal de devoção. Lc 7:37-39 conta de uma mulher que entrou na casa do fariseu onde Jesus se encontrava, levando um vaso de alabastro com ungüento. Chorando aos seus pés, começou a lavá-los com as lágrimas e enxugá-los com os cabelos. Beijou-lhe os pés e ungiu-os com ungüento. Admirado o fariseu de que Cristo recebesse a adoração desta pecadora, Jesus disse que era porque muito lhe fora perdoado. O perdão que ela havia recebido gerou uma devoção que se expressava não apenas na dádiva do ungüento, mas também no precioso dom das lágrimas. Essas eram lágri­mas de devoção.
Quando nosso Senhor contemplou Jerusalém, diz Lc 19:41 que ele chorou. Tais lágrimas se deviam à necessidade espiritual daqueles aos quais ele amava.
Essas passagens mostram que há muitos motivos que produ­zem lágrimas. Na maioria dos casos, as lágrimas não indicam fraqueza; são, antes, prova de um profundo sentimento que deleita o coração de Deus. Quando alguém—seja qual for a causa—descobre que as lágrimas são o seu quinhão(A parte de um todo que cabe a cada um dos indivíduos pelos quais se divide; partilha, cota.), conta com a promessa de Deus: "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados." Não houve lágrimas tão quentes como as de Pedro. No capítulo 22 de Lucas, nosso Senhor pre­disse que antes de cantar o galo, Pedro o negaria três vezes. Após a negação, "voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro, e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dis­sera: Hoje três vezes me negarás, antes de cantar o galo. Então Pedro, saindo dali, chorou amargamente" (vv. 61-62). Não há tristeza mais profunda ao filho de Deus que ofender Aquele que o amou até à morte. Não há tristeza igual à do amor ofendido,
Entretanto, mesmo os que injuriaram o amor de Deus, come­tendo pecado, recebem a promessa: "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados." No capítulo 15 da primeira carta de Paulo aos Coríntios, lemos o que parece ser apenas uma observação ligeira; mas quão cheia de significado! No relato das aparições de Cristo no dia de sua ressurreição, Paulo escreveu que Jesus apareceu a Pedro. A última vez que Pedro vira o Senhor vivo, ele sentira o olhar convincente do Mestre. Esse olhar ardera no coração de Pedro, e ele chorou. Só houve consolo depois que o Senhor lhe apareceu no dia da ressur­reição; aí ele encontrou o consolo dos que choram.
Pense na experiência de Davi, no Salmo 32:3-5: "Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim; e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te o meu pecado e a minha iniqüidade não mais ocultei. Disse: Confessarei ao Senhor as minhas transgres­sões; e tu perdoaste a iniqüidade do meu pecado.”
As palavras de confissão de Davi encontram-se no Salmo 51:

Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões. Lava-me completamente da minha iniqüidade, e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim... .Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabalável. Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação, e sustenta-me com um espírito voluntário (vv. 1-3, 10-12).

Depois de feita a confissão, no Salmo 32 Davi clamou: "Bem-aventurado aquele cuja iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniqüidade, e em cujo espírito não há dolo" (vv. 1-2). Davi havia vertido lágrimas de solidão, rejeição, frustração e derrota. Nada, porém, lhe havia trazido tanto peso ao coração como o havia vertido lágrimas de solidão, rejeição, frustração e derrota, mas ele verificou que "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados".
Pense na experiência de Maria Madalena, registrada no capítulo 20 do Evangelho de João. Após a crucificação de nosso Senhor, em busca de consolo ela se dirigiu ao jardim onde o corpo de Jesus fora colocado. Entretanto, "permanecia junto à entrada do túmulo, chorando" (v. 11). Jesus lhe perguntou: "Mulher, por que choras? a quem procuras? Ela, supondo ser ele o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, lhe disse... Rabôni!" (vv. 15-16). As lágrimas se foram, e a alegria desfez a tristeza. Maria descobriu que "Bem-aventura­dos os que choram, porque serão consolados". Maria encon­trou consolo na presença do Senhor Jesus, e ele apagou o que lhe provocara lágrimas. Ela descobriu que ele é o "Deus de toda consolação".
Pense na experiência de Daniel, registrada no capítulo 9 de sua profecia. Daniel era um profeta de coração partido, curvado sob o peso do pecado de Israel. Na primeira parte deste capítu­lo, Daniel orou a Deus, confessando em nome da nação, como se ele houvesse cometido pessoalmente cada pecado que le­vou o povo a ser expulso da terra: "Voltei o meu rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza. Orei ao Senhor meu Deus, confessei, e disse: Ah! Senhor! Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos; temos pecado e cometido iniqüidade" (Dn 9:3-5). Eis aí um homem de coração partido pela condição espiritual do seu povo, que ele admitia como sua própria, e orou á Deus:

Ó Senhor, a nós pertence o corar de vergonha, aos nossos reis, aos nossos príncipes, e a nossos pais, porque temos pecado contra ti. Ao Senhor, nosso Deus, pertence a misericórdia, e o perdão; pois nos temos rebelado contra ele, e não obedecemos à voz do Senhor, nosso Deus, para andarmos nas suas leis, que nos deu por intermédio de seus servos, os profetas. Sim, todo o Israel transgrediu a tua lei...Agora, pois, ó Deus nosso, ouve a oração do teu servo, e as suas súplicas, e sobre o teu santuário assolado faze resplandecer o teu rosto, por amor do Senhor. Inclina, ó Deus meu, os teus ouvidos, e ouve; abre os teus olhos, e olha para a nossa desolação, e para a cidade que é chamada pelo teu nome, porque não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias. Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende-nos e age; não te retardes, por amor de ti mesmo, ó Deus meu; porque a tua cidade e o teu povo são chamados pelo teu nome (w. 8-11, 17-19).

Chorando, o profeta de coração partido orou ao seu Deus. Ouvida a oração de Daniel, Deus enviou a Gabriel, que servia na sua presença, como portador de uma mensagem de consolo ao profeta. Daniel chorou e o Senhor o consolou.
Nosso Senhor fez uma promessa de consolo aos que choram. Quando arcamos sob o peso de alguma coisa que nos provoca lágrimas, nossa reação natural é queixar-nos, lamentar, questionar a sabedoria e benevolência de Deus, achar que ele não tem o direito de fazer-nos o que fez. O conceito bíblico de prantear é reconhecer uma necessidade, e então apresentá-la ao Deus de toda consolação. Quando alguém, em desespero, opressão, solidão, privação, desânimo, ansiedade, sinceridade, desejo, devoção, apresenta sua necessidade a Deus, ele ordena aos an­jos dos céus que lhe sequem as lágrimas dos olhos.
Deus enviou Isaías a Israel para proclamar uma mensagem: "Consolai, consolai o meu povo" (Is 40:1). O consolo para aquela nação sitiada encontrava-se em uma Pessoa que viria para enxugar-lhe as lágrimas. O Senhor Jesus veio à nação de Israel na plenitude do tempo de Deus. Em Mateus 11:28-29 ele convida: "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecar­regados, e eu vos aliviarei."
Este mesmo Cristo exerce hoje um ministério junto aos filhos de Deus. João escreveu: "Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhe enxugará dos olhos toda lágrima" (Ap 7:16, 17). Outra vez, em Apocalipse 21:4-5: "E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. E aquele que está assenta­do no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas." O quadro confortador que João nos deu de nosso relacionamento eterno com Jesus Cristo é que ele removerá de tal modo a causa que já não haverá lágrimas a correr-nos pela face.
Em Mateus 5:3 nosso Senhor disse que nossa esperança para o futuro pode ser nossa bem-aventurada experiência hoje. Quando ele andou entre os homens, foi homem de dores, que sabe o que é padecer. Ele foi "tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado", é o que lemos em Hebreus 4:15. Porque foi tentado como nós, ele é um sumo sacerdote misericordioso e fiel. Ele compreende nossas lágri­mas. Convida-nos a vir a ele com a promessa: "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados,"

Bibliografia Pentecost



        Bem-aventurados os Mansos (Mt 5.5)

O mundo não vê com os olhos de Deus, nem pensa como Deus. O que é precioso à vista de Deus, muitas vezes é despre­zível para o mundo. Talvez não haja lugar onde se vê isto com maior clareza do que em Mateus 5:5: "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra."
O que nosso Senhor considera como a base de bênçãos, o mundo despreza por completo. O mundo considera a mansi­dão como qualidade de alguém que seja efeminado, retraído, fraco, um maria-vai-com-as-outras—enfim, um covarde. Cha­mar alguém de manso é tratá-lo com desdém. Nosso Senhor, porém, disse: "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra." É evidente que o conceito do nosso Senhor de mansidão difere por completo do conceito do mundo.
Para se ter uma idéia do que a Bíblia considera mansidão, veja-se a vida de Moisés. No capítulo 12 de Números, o Espírito de Deus testifica que "Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra" (v. 3). Quando a Palavra de Deus retrata um homem manso, ela apresenta-nos alguém a quem jamais atribuiríamos o caráter de mansidão; mas Deus encontrou a mansidão exemplificada na vida de Moisés a quem associamos com um homem intrépido, ousado. No capítulo 5 de Êxodo, Moisés, que outrora fugira da presença de faraó, retorna para apresentar-se ante o poderosíssimo monar­ca. Em Êxodo 5:1, "foram Moisés e Arão e disseram a Faraó: Assim diz o Senhor Deus de Israel: Deixa ir o meu povo". Moisés não temia estar diante de Faraó, nem tinha medo de dar ordens àquele que governava a nação. Ele se dirigiu a Faraó não com um pedido mas com uma ordem. Que santa ousadia e quão piedosa a intrepidez deste homem!
Através do livro de Êxodo, juízo após juízo caiu sobre Faraó; sobre seu povo e sobre sua terra. Moisés não teve medo de assumir a responsabilidade por tudo isso. Lemos em Êxodo 11:3: "E o Senhor fez que o seu povo encontre favor da parte dos egípcios; também o homem Moisés era mui famoso na terra do Egito, aos olhos dos oficiais de Faraó, e aos olhos do povo." Por causa da intrepidez com que invocou o juízo de Deus sobre Faraó e sobre a terra, Moisés conquistou respeito aos olhos dos egípcios, maior do que o respeito à autoridade do próprio Faraó.
O capítulo 32 de Êxodo revela outra faceta do caráter de Moisés. Deus o levara à montanha e lhe revelara a lei que ele devia transmitir aos filhos de Israel. Quando, porém, ele desceu do monte, encontrou-os adorando um ídolo. "Logo que se aproximou do arraial, viu ele o bezerro e as danças; então, acendendo-se-lhe a ira, arrojou das mãos as tábuas e quebrou-as ao pé do monte; e pegando no bezerro, que tinham feito, queimou-o no fogo, e o reduziu a pó que espalhou sobre a água e deu de beber aos filhos de Israel" (Êxodo 32:19-20).
Eis aí um arroubo(Arrebatamento que extasia; êxtase, enlevo, encanto, arroubamento) de indignação justa, que raramente associa­mos com um homem manso ou tímido, contra a adoração ímpia que surgira no arraial. Moisés era homem intrépido, quer na presença de Deus, quer na de Faraó; recebeu grande autoridade e a exerceu, muito embora ela trouxesse contra ele a ira do monarca. Ele era um homem que podia assumir responsa­bilidade e fielmente levá-la a cabo; um homem cuja alma podia arder de raiva quando o nome de seu Deus era contestado e sua lei desobedecida.
O mundo jamais teria chamado a Moisés de homem manso, mas Deus o chamou de o homem mais manso que havia sobre a terra. O capítulo 3 de Êxodo revela o que caracterizava Moisés como homem manso, no relato em que Deus o chama da sarça ardente. Ali no deserto Deus revela-lhe sua glória mediante um arbusto usado como tabernáculo no qual habita provisoriamen­te. Deus disse a Moisés: "O clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo a opressão com que os egípcios os es­tão oprimindo. Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito" (vv. 9-10). Esta foi a incumbência que Deus deu a Moisés.
Observe a resposta de Moisés—uma faceta de seu caráter que levou Deus a chamá-lo de homem manso. "Então disse Moisés a Deus: Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel?" (v. 11). Quem sou eu? Ele sentiu sua insuficiência para tal responsabilidade. Não se achava capaz de fazer o que Deus lhe ordenava. Sem rodeios, ele disse: "Senhor, não posso." Eis aí o primeiro elemento revelador daquilo em que Deus se deleitava. Moisés não confiava em si mesmo, não con­fiava na carne.
Moisés disse de si o que mais tarde também Paulo veio a dizer de si mesmo: "Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne. Bem que eu poderia confiar também na carne. Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais" (Fp 3:3-4). Paulo disse, porém, que aquilo em que ele podia confiar fora-lhe revelado como inútil, e verificara que em si mesmo não havia nada que o recomendas­se a Deus. Concluiu que em sua carne não habitava bem algum (Rm 7:18). Paulo e Moisés tinham isto em comum: não podiam confiar na carne, e não confiavam mesmo.
O segundo elemento que levou Deus a chamar Moisés de o homem mais manso da terra, encontra-se no quarto capítulo de Êxodo. Depois de Moisés pedir a Deus que enviasse alguém com ele, de modo que não fosse sozinho, "Tomou, pois, Moisés a sua mulher e a seus filhos; fé-los montar num jumento, e voltou para a terra do Egito. Moisés levava na mão a vara de Deus" (v. 20). A vara de Deus era sua força na fraqueza, seu apoio ao confessar que não podia confiar em suas próprias forças. Aquele que dissera "Senhor, não posso", disse: "Senhor, posso", e partiu, dependendo de Deus para fazer o que lhe fora ordenado.
E mais: "Então se foram Moisés e Arão, e ajuntaram todos os anciãos dos filhos de Israel; Arão falou todas as palavras que o Senhor tinha dito a Moisés, e fez os sinais à vista do povo. E o povo creu; e, tendo ouvido que o Senhor havia visitado os filhos de Israel e lhe vira a aflição, inclinaram-se, e o adoraram" (4:29-31). Moisés dirigiu-se aos anciãos de Israel a fim de apresentar-se como o libertador enquanto se apoiava na vara de Deus.
Encontramos uma contraparte disto na vida de Paulo. Depois de haver dito "não confiamos na carne" (Fp 3:3), acrescentou: "Tudo posso naquele que me fortalece" (Fp 4:13). Aos galatas ele escreveu: "Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim" (Gl 2:19, 20).
A fé era para Paulo o que a vara de Deus era para Moisés. Como Moisés se dirigiu a Faraó com a vara de Deus na mão, assim Paulo aceitou pela fé o ministério que lhe foi designado, sem confiar na carne, mas inteiramente em Deus. Conclui-se que a mansidão de Moisés não era brandura de caráter, nem; suavidade de disposição; era depositar inteira confiança em Deus e não confiar em si mesmo.
Quando nosso Senhor se dirigiu à multidão congregada diante dele desejosa de conhecer o tipo de justiça necessária para se entrar no seu reino, e o tipo de caráter que dava ao indivíduo o direito de receber a bênção divina, ele disse, em realidade: "Vocês precisam tornar-se como Moisés, não con­fiando na carne, mas depositando total confiança em Deus. Então Deus cumprirá suas promessas e lhes dará por herança o reino que seu Filho estabelecerá na terra."
A Bíblia dá-nos outro exemplo de mansidão. Paulo disse: "E eu mesmo, Paulo, vos rogo, pela mansidão e benignidade de Cristo" (2 Co 10:1). Como Moisés foi, no Antigo Testa­mento, o exemplo de completa dependência de Deus, assim no Novo Testamento Jesus Cristo é o exemplo de mansidão, de total dependência de Deus. Pedro falou disto ao retratar com palavras o Senhor Jesus, acusado de crimes capitais, compare­cendo perante um juiz ímpio num julgamento de sua vida. Disse ele: "Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca, pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente" (1 Pe 2:21-23).
Um Cristo acovardado é inconcebível. Ele permaneceu deste­mido diante das multidões que procuravam apedrejá-lo. Sua in­dignação justa contra a profanação do templo de Deus foi tal que ele fez um azorrague(açoite, Flagelo, castigo, suplício) de cordas e expulsou os cambistas e os que compravam e vendiam, como se o templo de Deus lhes pertencesse. Foi ele que anunciou sem temor o juízo de Deus sobre uma nação culpada. Entretanto, ele foi o mais manso de todos os que andaram pela terra. Sua mansidão não era brandura de disposição; ela se manifestava por sua total submissão à vontade de Deus.
Acompanhe-o ao Getsêmani quando a sombra da cruz cai sobre ele e ele prevê a separação de Deus para tornar-se em sacrifício pelos pecadores. Demonstrou sua mansidão ao suar gotas de sangue, e ao dizer ao Pai: "Não se faça a minha vontade, e, sim, a tua" (Lc 22:42). Em Hebreus 10:7 está registrado: "Eis aqui estou... para fazer, ó Deus, a tua vontade." A benignidade e mansidão de Cristo não eram sinal de timidez, nem de covardia, mas de completa dependência do Pai.
Foi este princípio de submissão que Cristo acentuou ao dizer aos que se apegavam à sua palavra e procuravam entrada no seu reino: "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra." "Bem-aventurados os submissos, porque herdarão a ter­ra." Não é por mero acaso que esses versículos descritivos da mansidão de Cristo (1 Pe 2:21-23) foram colocados no meio do extenso tratamento que Pedro dá à submissão. Os ho­mens vivem em quatro distintas esferas da vida. A esfera civil; a esfera do emprego e dos negócios; a esfera do lar; e a esfera da Igreja. Pedro ordenou submissão à autoridade instituída por Deus em cada uma dessas esferas: "Sujeitai-vos a toda institui­ção humana por causa do Senhor; quer seja ao rei, como sobe­rano; quer às autoridades como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores, como para louvor dos que praticam o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos" (1 Pe 2:13-15). Paulo deixou muito claro no capítulo 13 de sua carta aos romanos que Deus ordenou o governo humano e atribuiu responsabilidades específicas para preservação da lei e da ordem, e para manutenção de uma atmosfera em que a justiça possa florescer, de modo que os homens vivam sem medo. Para esse fim, Deus deu ao governo a responsabilidade de castigar os transgressores da lei. A Bíblia ordena ao filho de Deus que se submeta ao governo quando este exerce as res­ponsabilidades que Deus lhe atribuiu.
Em segundo lugar, Pedro escreveu: "Servos, sede submissos, com todo o temor aos vossos senhores, não somente aos bons e cordatos, mas também aos perversos; porque isto é grato" (1 Pe 2:l8, 19). Tratando do campo dos negócios ou do emprego, Pedro disse que o empregado deve estar sujeito ao empregador, porque a este cabe a responsabilidade de refrear a ilegalidade e manter a lei e a ordem nesse campo.
Em terceiro lugar, Pedro escreveu: "Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vossos próprios maridos" (1 Pe 3:1). Deus instituiu ordem no lar. O marido deve ser o cabeça; a esposa e os filhos devem estar-lhe sujeitos. O marido recebeu autoridade, como representante de Cristo, de manter a lei e a ordem no lar. Ordena-se aos crentes que se sujeitem à autorida­de no lar.
A quarta esfera está no capítulo 5, onde depois de descrever a obra e as responsabilidades dos presbíteros, Pedro ordena: "Rogo igualmente aos jovens: Sede submissos aos que são mais velhos" (v. 5). A ilegalidade pode irromper numa assembléia de crentes com a mesma facilidade com que irrompe na sociedade, nos negócios ou no lar. Os membros da igreja têm a responsabilidade de submeter-se à autoridade dos presbíteros; trata-se de uma ordenação divina.
O sinal de um homem manso é reconhecer ele a autoridade divinamente instituída e submeter-se a todas as suas manifestações. Ele está sujeito à autoridade governamental; à autoridade do empregador; à autoridade do lar; e à autoridade da assembléia de crentes. A ilegalidade ou rebelião contra qualquer autoridade de instituição divina é ilegalidade contra Deus. O indivíduo ilegal não é manso, porque a mansidão significa submis­são a Deus e confiança nele.
A idéia da carta de Pedro era que aqueles que haviam teste­munhado a submissão de Cristo pudessem manifestar a mesma submissão em qualquer área da vida e assim receber a bênção de Deus. A ilegalidade jamais pode produzir frutos de justiça em nenhuma área da vida. A submissão a Deus trará bênçãos em abundância.
"Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra."


Bibliografia Pentecost


Fome e Sede de Justiça (Mt 5.6)

Por que é que alguns cristãos continuam bebês espirituais enquanto outros avançam na direção da maturidade? Às vezes pensamos que se deve a diferenças de personalidade, pois alguns parecem mais religiosos do que outros e mais desejosos das coisas do espírito. Às vezes achamos que a diferença reside na salvação do homem ou em sua experiência com Cristo, pois alguns se chafurdaram no pecado e foram retirados de suas profundezas, e alcançaram maturidade espiritual devido a essa grande transformação. Pensam outros que por causa de treinamento cedo—criados num lar cristão e aprendendo de Cristo desde os primeiros anos—os homens se tornam mais espirituais.
Voltando-nos, porém, para a Bem-aventurança de Mateus 5.6 entendemos o segredo do gigante espiritual. Nosso Senhor disse: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos." Ele declarou que o segredo do crescimento espiritual está no apetite espiritual. Os que comem pouco, pouco crescerão; os que comem muito, muito crescerão. Os que têm apetite voraz pela Palavra de Deus e pela Pessoa de Jesus Cristo; que satisfazem esse apetite alimentando-se da Palavra e comungando com o Senhor, esses crescerão em maturidade espiritual; tornam-se gigantes espirituais.
Um médico pode dizer muito sobre o progresso de seus pacientes conhecendo quanto e o que comem. O desenvolvi­mento físico relaciona-se com o apetite físico. Não é menos verdadeiro no campo espiritual. O crescimento, o desenvolvi­mento e a saúde espirituais estão inseparavelmente unidos ao apetite espiritual.
Este princípio acha-se exemplificado no testemunho de alguns gigantes espirituais cuja vida está registrada na Palavra de Deus; eles nos contam os segredos de seus corações. Examinemos primeiro a experiência de Moisés. Ele fora chamado ao monte Sinai onde Deus lhe fez a maior revelação de si mesmo; a nenhum homem, desde a queda de Adão, o Senhor se revelara assim. Deus revelou sua santidade a Moisés para que ele a comunicasse aos filhos de Israel. Depois de algum tempo passado no monte, onde ele havia contemplado a glória de Deus, em obediência à ordem divina Moisés erigiu o tabernácu-lo. Terminada a obra, Moisés entrou no tabernáculo, e na presença de Deus. Ali ele fez um pedido que revela o profundo anseio de seu coração: "Agora, pois, se achei graça aos teus olhos, rogo-te que me faças saber neste momento o teu caminho, para que eu te conheça" (Êxodo 33:13). E mais adiante: "Rogo-te que me mostres a tua glória" (v. 18). Tudo o que Deus havia revelado de si mesmo a Moisés, em vez de satisfazer-lhe, criou nele uma profunda fome de conhecer mais da Pessoa que o levara a tal relacionamento. Ele não proferiu uma oração de ações de graça: "Louvo-te e te dou graças pelo que me revelaste"; sua oração expressava o anseio do coração: "Rogo-te que me faças saber neste momento o teu caminho, para que eu te conheça... Rogo-te que me mostres a tua glória."
Em resposta ao pedido de Moisés, Deus o coloca numa fenda da penha. Para que Moisés não fosse consumido pelo brilho da glória divina, o Senhor interpôs sua mão entre sua glória e Moisés. Protegido pela mão de Deus, o anseio de Moisés foi satisfeito: a glória de Deus foi-lhe revelada. Essa revelação veio em resposta à fome, ao anseio do coração de Moisés de saber mais. "Rogo-te que me faças saber neste momento o teu caminho, para que eu te conheça... Rogo-te que me mostres a tua glória."
Davi andou em tão íntima comunhão com Deus que pôde escrever os salmos que têm servido de consolo aos santos sofredores através dos séculos, e os têm guiado em sua adoração até aos nossos dias. Ele se havia aprofundado nas coisas do coração de Deus, de sorte que podia dizer: "O Senhor é o meu pastor: nada me faltará" (Salmo 23:1). Ele testificou da proximidade de Deus enquanto percorria os caminhos da vida. Entretanto, no Salmo 42, Davi falou do anseio de seu coração: "Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo" (vv. 1, 2). Como a corça, perseguida por inimigos naturais, levada ao ponto da exaustão, sente em cada fibra de seu organismo a necessidade de água refrescante, assim, disse Davi, "A minha alma tem sede de Deus". De novo, no salmo 63, ele declarou a mesma verdade: "Ó Deus, tu és o meu Deus forte, eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, numa terra árida, exausta, sem água. Assim eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória" (vv. 1 -2). O salmista aprofundou-se no coração de Deus; não porque fosse naturalmente religioso, nem por causa de alguma circunstância em sua vida. Ele aprofundou-se no conhecimento de Deus, e na experiência com ele, porque o Senhor lhe satisfazia a fome do coração.
No capítulo 3 da carta aos Filipenses, Paulo relembra as grandes bênçãos que encontrou ao conhecer a Jesus, bênçãos que suplantavam tudo o que se podia conhecer no Judaísmo; Muito embora Paulo se lembrasse de um ministério no qual levou a luz de Cristo ao império romano, ele clamou: "Para o conhecer e o poder da sua ressurreição e a comunhão dos seus sofrimentos" (v. 10). Para o conhecer. Paulo não estava satisfeito com o resultado de seu ministério, e o fruto dos seus esforços não lhe dava satisfação. Seu coração não se satisfazia com a atividade; sua felicidade estava na comunhão com uma Pessoa. Uma das tragédias de nosso tempo é que os homens se perdem em atividades e se satisfazem mantendo-se ocupados, Paulo disse que não era a atividade do ministério que a satisfazia, mas a comunhão com uma Pessoa. O anseio de seu coração era que ele pudesse aprofundar-se mais e mais nas coisas de Deus.
Era esta a preocupação de Pedro, ao escrever às ovelhas do seu rebanho espiritual: "Desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que por ele vos seja dado crescimento" (1 Pedro 2:2). Em sua segunda carta, ele ordenou: "Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (3:18). Pedro colocou sobre os filhos de Deus a responsabilidade de passar da infância e imaturidade espiritual para a maturidade e vida adulta. Mas Pedro disse que o crescimento depende do apetite. "Desejai ardentemente... o genuíno leite espiritual, para que por ele vos seja dado crescimento." A Palavra de Deus devia ser para a alma o que o alimento é para o corpo. Como a perda de apetite indica um grave problema físico, assim a perda do apetite espiritual indica um sério problema no campo espiritual.
O autor da carta aos Hebreus escreveu a um grupo de crentes salvos havia muito tempo. Tinham enfrentado sofrimentos por amor a Cristo e estavam fundamentados na Palavra de Deus ao ponto de se qualificarem como mestres. Mas, segundo Hebreus 5:11-14, negligenciaram a Palavra e o conhecimento da verda­de de Cristo que outrora possuíram, e regrediram à infância ou, como preferem alguns, à senilidade espiritual. Qualquer filho de Deus que negligencia a Palavra divina defronta-se com esse perigo. Nenhuma situação preocupa tanto o coração do pastor como verificar o desenvolvimento do retrocesso espiritual na vida de alguém.
Imagine os que vieram a conhecer a Jesus Cristo como Salvador pessoal mediante o ministério da Palavra, os quais demonstraram a autenticidade de sua salvação por meio daquilo que parecia uma fome insaciável da Palavra de Deus. O desejo de alimentar-se deste Pão vivo trazia-os com fidelidade e expectação a todos os cultos. Pediam ao pastor que lhes recomendasse livros para estudo. Com freqüência o telefone do pastor tocava cedo de manhã ou tarde da noite, porque alguém encontrara na Palavra algo que não conseguira entender; e o recurso era telefonar ao pastor pedindo que lhes explicasse o texto. Davam prova de que estavam crescendo nas coisas do Senhor.
Algum tempo depois os telefonemas começaram a diminuir; as reuniões de oração já não se realizavam. Oh, sim, estavam na igreja domingo de manhã e de noite, mas o apetite perdera o vigor. Logo mais, um só culto por semana lhes dá tudo aquilo que sentem necessitar; mais tarde se satisfazem com um comparecimento esporádico. Têm apetites que necessitam ser satisfeitos, mas não o estão sendo pela Palavra. Abrem os ouvidos e os olhos ao que não é alimento e permitem que isto lhes entre na vida. Dão a si mesmos aquilo que nunca pode satisfazer. Enterram-se em tantas atividades e deixam fora Jesus Cristo e a Palavra de Deus. Estabelece-se o retrocesso espiritual. A perda do apetite espiritual é sintoma da gravíssima situação que um filho de Deus pode enfrentar.
"Bem-aventurados os que têm fome e sede de Justiça, porque serão fartos." Se o Espírito o convenceu, diante de Deus, de que seu apetite perdeu a força, ou, possivelmente, o apetite se foi, com base na autoridade da Palavra dizemos-lhe que não pode haver e não haverá crescimento espiritual, desenvolvi­mento, alegria em sua experiência cristã, poder em sua vida enquanto você não voltar à Palavra de Deus e à Pessoa de Jesus Cristo, e cultivar de novo aquele apetite que se embotou ou perdeu.

Ouça de novo o grito do coração dos gigantes: "Rogo-te que me faças saber neste momento o teu "caminho, para que eu te Conheça." "Como a corça suspira pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma." "Para o conhecer." "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos."


       Bem-aventurados os Misericordiosos (Mt 5.7)

O homem regozija-se em sua própria independência e gosta de sentir que não há situação na vida que ele não possa controlar. Orgulha-se de contar aos outros que é alguém que se fez por si. O homem deseja uma religião na qual se eleve e se faça aceitável a Deus. A despeito de o apóstolo ensinar no capítulo 2 de Efésios que é pela graça e não pelas obras que Deus aceita as pessoas, elas se apegam ao engano de que podem operar sua própria salvação. Recorrem a uma passagem bíblica como Mateus 5:7, "Bem-aventurados os misericordio­sos, porque alcançarão misericórdia", e se convencem de que o modo de conquistar amigos e influenciar pessoas é serem amáveis com elas e elas, em retribuição, também serão amáveis.
"Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia." Uma leitura casual deste versículo indicaria que o modo de dar-se bem com as pessoas é ser-lhes amável; e o modo de beneficiar-se delas é conferir-lhes algum benefício.
Certa vez um pregador de rádio enviou um livrete. Ele alegava haver descoberto o segredo da "bênção do dízimo". Era muito simples: se lhe enviasse um donativo, ele prometia que em retribuição, receberia um donativo maior. Citava vários exemplos de viúvas que lhe haviam enviado todos os seus bens materiais e receberam de volta posses maiores. Concluía dizendo que na semana anterior alguém lhe enviara mil dólares, e agora esse alguém estava dirigindo um Cadillac. Baseava seu raciocínio na premissa de que sempre recebere­mos mais do que aquilo que damos. Mas este conceito firma-se numa tremenda concepção errônea do coração humano. Este não é tão naturalmente bondoso, gracioso e amável que de maneira automática responda a qualquer bondade com bonda­de. O coração natural é egoísta, tende a considerar o indivíduo bondoso como um mole, alguém que pode ser explorado com facilidade.
Não há melhor exemplo de demonstração de misericórdia do que o próprio Senhor Jesus. O relato de sua peregrinação terrena é o de uma pessoa misericordiosa. Lucas registra: "Ao pôr do sol, todos os que tinham enfermos de diferentes moléstias, lhos traziam; e ele os curava, impondo as mãos sobre cada um" (4:40). Cristo mostrou misericórdia aos enfermos. Certa vez ele deteve um cortejo fúnebre em que uma mãe acompanhava o filho morto ao cemitério, tocou o esquife(caixão) e restaurou o jovem à vida e à sua mãe viúva. Ele mostrou misericórdia em momentos de tristeza e de morte. João registra, no capítulo 8 de seu Evangelho, o caso de uma mulher levada a Cristo por ter sido apanhada em adultério. Os líderes do grupo pediram-lhe que se pusesse no lugar de juiz e a condenasse ao apedrejamento. Jesus levantou-se e disse: "Aquele que dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro que lhe atire pedra" (v. 7). Os acusadores foram-se retirando, e o Senhor disse à mulher: "Nem eu tampouco te condeno; vai, e não peques mais" (v. 11). Era misericórdia para com a pecadora.
Numa ocasião os pais trouxeram os filhinhos ao Senhor para que lhes impusesse as mãos e os abençoasse. Os discípulos, irritados com a interrupção, procuraram afastar os pais. Jesus, porém, disse: "Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus. E, tendo-lhes imposto as mãos, retirou-se dali" (Mt 19:13-15). Ele mostrou misericórdia aos fracos, aos desamparados, aos pequeninos.
Noutra ocasião estava Jesus à mesa na casa de Levi (Mateus), cobrador de impostos. Muitos cobradores de impostos e pecadores também estavam sentados com Jesus e seus discípulos. "Os escribas dos fariseus, vendo-o comer em companhia dos pecadores epublicanos [cobradores de impostos], perguntavam aos discípulos dele: Por que come e bebe ele com os publicanos e pecadores? Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e, sim, os doentes; não vim chamar justos, e sim, pecadores" (Mc 2:16-17). Ele mostrou misericórdia aos parias, aos rejeitados da sociedade, aos inaceitáveis.
Do princípio ao fim, a vida de nosso Senhor foi de misericór­dia. Se a misericórdia trouxesse consigo seu próprio galardão; não teria havido cruz; mas o Misericordioso não obteve misericórdia e foi rejeitado e crucificado.
Dois sistemas impiedosos uniram-se para levar Jesus à cruz. Primeiro foi o poder imperial de Roma, que ao tempo de nosso Senhor escravizava sessenta milhões de pessoas e as sujeitava a um sistema de governo totalitário. A despeito de o governador romano que presidiu ao julgamento de Jesus, por seis vezes o ter declarado inocente, ainda assim o condenou à morte. O inclemente poder de Roma não reagiu favoravelmente à miseri­córdia de Jesus Cristo.
O fanatismo de um sistema religioso implacável que não tolerava a crítica, nem a rebelião, nem a competição, uniu-se a Roma. Havendo Jesus dito aos dirigentes, "se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus" (Mt 5:20), eles o perseguiram e procura­ram matá-lo, juntando-se à impiedosa Roma, e sem misericór­dia exigiram a morte do Misericordioso. Nem sempre a miseri­córdia recebe recompensa.
Que era, pois, que nosso Senhor tinha em mente ao dizer: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão mise­ricórdia"?Precisamos reconhecer, de início, que a misericórdia não pertence naturalmente ao homem. Não se trata de caracte­rística natural do coração humano. Podemos procurar, mas em vão, uma manifestação de misericórdia oriunda de homens naturais. A misericórdia pertence a Deus. Nosso Senhor ensinou isto em Lucas 6:36: "Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai." A misericórdia do homem é uma característica adquirida, proveniente de um Pai misericordioso que manifesta sua própria vida, sua própria natureza e seu próprio caráter em seus filhos. Disse o salmista: "A ti também, Senhor, pertence a misericórdia" (Sl 62:12, Ed. Rev. Cor.).O Salmo 136 repete vinte e seis vezes que a misericórdia do Senhor dura para sempre. Tão impressionado estava o salmista com as misericórdias vindas de um Deus misericordioso que vinte e seis vezes ele enalteceu esse Deus que é misericordioso e fonte de toda misericórdia. Misericórdia é a graça amorável de Deus em ação. Misericórdia é a resposta de Deus à miséria, à necessidade daquele a quem Deus ama. Deus não ama porque o objeto de sua afeição lhe seja amável e atraente; ele ama porque amar é inerente à sua natureza.
Em nos amando, Deus não nos trata segundo nossos pecados nem nos retribui segundo nossas iniqüidades (Sl 103:10). Ele não nos trata consoante ao que somos; trata-nos graciosamente, a despeito do que somos.
Amor e graça combinam-se no que a Bíblia chama de "misericórdia de Deus". O salmista reconhece que se Deus observar nossas iniqüidades, não subsistiremos. Devido à nossa pecaminosidade, não somos aceitáveis diante dele. Mas Deus, pela graça, põe de lado o que merecemos a fim de dar-nos o que nunca poderíamos merecer. O salmista continua no Salmo 103: "Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem" (v. 11). Se pudéssemos medir a distância entre a presença de Deus e o homem pecaminoso, poderíamos medir a misericórdia de Deus. Ela não tem limites. Porém o salmista ressaltou que à misericórdia não se origina no coração humano e se encaminha para Deus; ela se origina em Deus e é derramada sobre os homens.
Certamente Shakespeare captou esta verdade ao dizer atra­vés de Pórcia, em O Mercador de Veneza: "A qualidade da misericórdia não é coagida." Isto é, ela não é forçada; não é arrancada de uma pessoa, mas "Goteja como a chuva branda que cai do céu".
A misericórdia não é forçada, não é merecida, ao vir de Deus sobre o homem. Era isso que o salmista tinha em mente ao dizer que a misericórdia vem de Deus que está no céu sobre os que O temem. "Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões" (Sl 103:1,2). Eis o grande ato de misericórdia de Deus para com os pecadores. Reconhecen­do que os homens estavam separados dele, Deus fez separação entre o homem e seus pecados de sorte que ele, homem, não precisasse viver separado de Deus. Enquanto o pecador levar seu próprio pecado, está separado de Deus. Removido o pecado, já não existe a separação. Assim como é infinita a distância entre o Oriente e o Ocidente, assim Deus, por misericórdia, removeu nossos pecados.
"Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem" (Sl 103:13). Está no coração do pai amar o filho e dele cuidar. O coração de nosso Pai transborda de amor, de gracioso interesse por seus filhos. O salmista mostrou, assim, que a misericórdia se origina em Deus; ele a derrama sobre nós; nós a recebemos não pelo que somos, mas em virtude do que Deus é. Não é recompensa por aquilo que somos; é expressão do interesse amoroso e gracioso de Deus pelos objetos de sua afeição. Não buscamos a misericór­dia dos homens em resposta a nossas atitudes ou ações para com eles, porque eles não têm capacidade de ser misericordio­sos. A misericórdia provém de Deus.
Que tinha nosso Senhor em mente ao dizer "Bem-aventura­dos os misericordiosos"? Misericordioso significa "cheio de mise­ricórdia". Assim como uma pessoa graciosa é aquela cheia de graça, a pessoa misericordiosa é aquela que está cheia da fonte de misericórdia, que está cheia de Deus. Misericordioso é o homem cheio de amor, que ama com o amor de Deus. É o homem em cuja vida a cruz realizou uma obra transformadora conformando-o a Jesus Cristo. Aquilo que não constitui caracte­rística natural de sua vida passa a ser o caráter e padrão dela.
O capítulo 10 do Evangelho de Lucas deixa muito claro o que Deus espera do homem justo. Nessa passagem, Jesus foi inquirido por um advogado. Advogado, em Israel, era alguém especializado na interpretação da lei mosaica; era também intérprete das tradições rabínicas que se desenvolveram em torno da lei de Moisés. Um desses aproximou-se de Cristo e disse, em realidade: "Conheço o que Moisés diz acerca da entrada no reino. Conheço as justiças que os fariseus dizem necessárias para que alguém seja aceitável diante de Deus. Pois bem que é que o Senhor diz?"
Ele pôs Cristo à prova quanto à sua interpretação do modelo de justiça que Deus exige dos que andam em comunhão com ele. Em termos mais simples, a pergunta era: "Quão bom deve ser o homem para agradar a Deus?" Nosso Senhor não deu resposta direta à pergunta; em vez disso, perguntou ao advoga­do o que era que a lei dizia e, no seu entender, qual era o padrão de justiça e conduta de Deus. O advogado conhecia a lei mosaica, porque citou o que Deus espera da pessoa justa, respondendo que a exigência de Deus é: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento" (v. 27). Quando o indivíduo é assim controlado pelo amor divino, não haverá pecado contra Deus. A segunda exigência que se faz ao justo és:"Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19:18). Quem age em amor para com o próximo não será culpado de crime algum contra o próximo, porque o amor a Deus e o amor ao próximo lhe controlarão a vida, e essa vida justa agrada a Deus.
O advogado condenou-se pelo próprio resumo que fez da lei; ele não havia agradado a Deus. Não havia amado a Deus nem ao próximo. A condenação busca uma justificativa, uma escusa, de modo que ele apelou para a ignorância. Suas palavras foram, com efeito: "O único motivo por que não tenho vivido uma vida justa é que não sei quem é meu próximo. Ora, se isso me fosse esclarecido, eu seria justo."
Jesus contou a parábola do Bom Samaritano tendo em mira dois pontos: primeiro, mostrar a este advogado quem era seu próximo;segundo, mostrar em resumo o que constitui justiça aos olhos de Deus. A história é bem conhecida. Um homem ia de Jerusalém para Jerico e foi assaltado por ladrões que o surraram impiedosamente, roubaram-lhe tudo o que possuía, abandonaram-no à beira da estrada para aí morrer, e seguiram o seu caminho com o fruto do roubo. Por acaso passava um sacerdote pela mesma estrada. Este viu o homem, portanto não o ignorava. Percebeu-lhe a necessidade, portanto sabia o que devia fazer; mas passou de largo, deixando de reconhecer sua obrigação à luz de seu conhecimento. Logo depois veio um levita; viu o homem; não o ignorava, pois. Reconheceu-lhe também a necessidade, e sabia qual era sua responsabilidade no caso; mas não estava disposto a assumir nenhuma obrigação; passou de largo. Depois destes veio um homem desprezado, um pária(Homem excluído da sociedade) para os judeus, um samaritano. Este viu a necessidade, reconheceu sua responsabilidade em face do que conhecia; derramou óleo nos ferimentos para suavizá-los, e vinho para desinfetá-los; transportou o ferido até a um ponto de pouso, e assumiu as despesas do tratamento até que ele recuperasse a saúde.
Então nosso Senhor voltou-se para o advogado e perguntou-lhe: "Qual destes três te parece ter sido o próximo?"
Só havia uma alternativa, e o advogado teve de confessar: "O samaritano que socorreu o necessitado."
Primeiro nosso Senhor definiu quem é o próximo. Meu próximo nem sempre é aquele que mora no mesmo quarteirão onde resido.Meu próximo é qualquer pessoa que esteja em necessidade, cuja necessidade conheço e tenho capacidade de atender. A justiça exige uma reação amorosa, graciosa de minha parte para com essa necessidade; caso contrário, não estou cumprindo minha obrigação para com Deus nem para com o próximo.
Nosso Senhor concluiu esta conversa com o advogado, dizendo: "Vai, e procede tu de igual modo." Que é que Deus espera de uma pessoa justa? Misericórdia: interesse amoroso, gracioso, por alguém cuja necessidade atraiu minha atenção, necessidade que estou em condições de atender. Misericórdia é manifestação de justiça.
Quando nosso Senhor disse "Bem-aventurados os misericor­diosos", estava dizendo que o homem que buscou a Jesus Cristo pela fé e recebeu sua amorável graça, sua misericórdia, conformar-se-á à misericórdia de Jesus Cristo de maneira que a misericórdia de Deus possa fluir continuamente através de sua vida diária. A justiça diante de Deus traz sua bênção sobre nossa vida. A demonstração de misericórdia porque recebemos misericórdia revela a vida de Cristo, a obra da cruz em nossa vida, e permite que Deus escancare as janelas dos céus e derrame bênçãos sobre nós. O homem que vive segundo o amor de Deus revelado na cruz terá a vida inundada pelo amor de Deus. Deus, a fonte de misericórdia, tem feito com que suas misericórdias me inundem a vida através da cruz. Sua justiça sé manifestará por intermédio de minha vida em interesse amoroso e gracioso. À medida que a justiça divina se aperfeiçoa em mim, as bênçãos de Deus podem cobrir-me. Misericórdia é a manifestação da justiça de Cristo na vida do filho de Deus, que abre a vida para suas bênçãos. "Bem-aventurados os misericor­diosos, porque alcançarão misericórdia."

Bibliografia Pentecost


           Bem-aventurados os Misericordiosos (Mt 5.7)

O homem regozija-se em sua própria independência e gosta de sentir que não há situação na vida que ele não possa controlar. Orgulha-se de contar aos outros que é alguém que se fez por si. O homem deseja uma religião na qual se eleve e se faça aceitável a Deus. A despeito de o apóstolo ensinar no capítulo 2 de Efésios que é pela graça e não pelas obras que Deus aceita as pessoas, elas se apegam ao engano de que podem operar sua própria salvação. Recorrem a uma passagem bíblica como Mateus 5:7, "Bem-aventurados os misericordio­sos, porque alcançarão misericórdia", e se convencem de que o modo de conquistar amigos e influenciar pessoas é serem amáveis com elas e elas, em retribuição, também serão amáveis.
"Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia." Uma leitura casual deste versículo indicaria que o modo de dar-se bem com as pessoas é ser-lhes amável; e o modo de beneficiar-se delas é conferir-lhes algum benefício.
Certa vez um pregador de rádio enviou um livrete. Ele alegava haver descoberto o segredo da "bênção do dízimo". Era muito simples: se lhe enviasse um donativo, ele prometia que em retribuição, receberia um donativo maior. Citava vários exemplos de viúvas que lhe haviam enviado todos os seus bens materiais e receberam de volta posses maiores. Concluía dizendo que na semana anterior alguém lhe enviara mil dólares, e agora esse alguém estava dirigindo um Cadillac. Baseava seu raciocínio na premissa de que sempre recebere­mos mais do que aquilo que damos. Mas este conceito firma-se numa tremenda concepção errônea do coração humano. Este não é tão naturalmente bondoso, gracioso e amável que de maneira automática responda a qualquer bondade com bonda­de. O coração natural é egoísta, tende a considerar o indivíduo bondoso como um mole, alguém que pode ser explorado com facilidade.
Não há melhor exemplo de demonstração de misericórdia do que o próprio Senhor Jesus. O relato de sua peregrinação terrena é o de uma pessoa misericordiosa. Lucas registra: "Ao pôr do sol, todos os que tinham enfermos de diferentes moléstias, lhos traziam; e ele os curava, impondo as mãos sobre cada um" (4:40). Cristo mostrou misericórdia aos enfermos. Certa vez ele deteve um cortejo fúnebre em que uma mãe acompanhava o filho morto ao cemitério, tocou o esquife(caixão) e restaurou o jovem à vida e à sua mãe viúva. Ele mostrou misericórdia em momentos de tristeza e de morte. João registra, no capítulo 8 de seu Evangelho, o caso de uma mulher levada a Cristo por ter sido apanhada em adultério. Os líderes do grupo pediram-lhe que se pusesse no lugar de juiz e a condenasse ao apedrejamento. Jesus levantou-se e disse: "Aquele que dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro que lhe atire pedra" (v. 7). Os acusadores foram-se retirando, e o Senhor disse à mulher: "Nem eu tampouco te condeno; vai, e não peques mais" (v. 11). Era misericórdia para com a pecadora.
Numa ocasião os pais trouxeram os filhinhos ao Senhor para que lhes impusesse as mãos e os abençoasse. Os discípulos, irritados com a interrupção, procuraram afastar os pais. Jesus, porém, disse: "Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus. E, tendo-lhes imposto as mãos, retirou-se dali" (Mt 19:13-15). Ele mostrou misericórdia aos fracos, aos desamparados, aos pequeninos.
Noutra ocasião estava Jesus à mesa na casa de Levi (Mateus), cobrador de impostos. Muitos cobradores de impostos e pecadores também estavam sentados com Jesus e seus discípulos. "Os escribas dos fariseus, vendo-o comer em companhia dos pecadores epublicanos [cobradores de impostos], perguntavam aos discípulos dele: Por que come e bebe ele com os publicanos e pecadores? Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e, sim, os doentes; não vim chamar justos, e sim, pecadores" (Mc 2:16-17). Ele mostrou misericórdia aos parias, aos rejeitados da sociedade, aos inaceitáveis.
Do princípio ao fim, a vida de nosso Senhor foi de misericór­dia. Se a misericórdia trouxesse consigo seu próprio galardão; não teria havido cruz; mas o Misericordioso não obteve misericórdia e foi rejeitado e crucificado.
Dois sistemas impiedosos uniram-se para levar Jesus à cruz. Primeiro foi o poder imperial de Roma, que ao tempo de nosso Senhor escravizava sessenta milhões de pessoas e as sujeitava a um sistema de governo totalitário. A despeito de o governador romano que presidiu ao julgamento de Jesus, por seis vezes o ter declarado inocente, ainda assim o condenou à morte. O inclemente poder de Roma não reagiu favoravelmente à miseri­córdia de Jesus Cristo.
O fanatismo de um sistema religioso implacável que não tolerava a crítica, nem a rebelião, nem a competição, uniu-se a Roma. Havendo Jesus dito aos dirigentes, "se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus" (Mt 5:20), eles o perseguiram e procura­ram matá-lo, juntando-se à impiedosa Roma, e sem misericór­dia exigiram a morte do Misericordioso. Nem sempre a miseri­córdia recebe recompensa.
Que era, pois, que nosso Senhor tinha em mente ao dizer: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão mise­ricórdia"?Precisamos reconhecer, de início, que a misericórdia não pertence naturalmente ao homem. Não se trata de caracte­rística natural do coração humano. Podemos procurar, mas em vão, uma manifestação de misericórdia oriunda de homens naturais. A misericórdia pertence a Deus. Nosso Senhor ensinou isto em Lucas 6:36: "Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai." A misericórdia do homem é uma característica adquirida, proveniente de um Pai misericordioso que manifesta sua própria vida, sua própria natureza e seu próprio caráter em seus filhos. Disse o salmista: "A ti também, Senhor, pertence a misericórdia" (Sl 62:12, Ed. Rev. Cor.).O Salmo 136 repete vinte e seis vezes que a misericórdia do Senhor dura para sempre. Tão impressionado estava o salmista com as misericórdias vindas de um Deus misericordioso que vinte e seis vezes ele enalteceu esse Deus que é misericordioso e fonte de toda misericórdia. Misericórdia é a graça amorável de Deus em ação. Misericórdia é a resposta de Deus à miséria, à necessidade daquele a quem Deus ama. Deus não ama porque o objeto de sua afeição lhe seja amável e atraente; ele ama porque amar é inerente à sua natureza.
Em nos amando, Deus não nos trata segundo nossos pecados nem nos retribui segundo nossas iniqüidades (Sl 103:10). Ele não nos trata consoante ao que somos; trata-nos graciosamente, a despeito do que somos.
Amor e graça combinam-se no que a Bíblia chama de "misericórdia de Deus". O salmista reconhece que se Deus observar nossas iniqüidades, não subsistiremos. Devido à nossa pecaminosidade, não somos aceitáveis diante dele. Mas Deus, pela graça, põe de lado o que merecemos a fim de dar-nos o que nunca poderíamos merecer. O salmista continua no Salmo 103: "Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem" (v. 11). Se pudéssemos medir a distância entre a presença de Deus e o homem pecaminoso, poderíamos medir a misericórdia de Deus. Ela não tem limites. Porém o salmista ressaltou que à misericórdia não se origina no coração humano e se encaminha para Deus; ela se origina em Deus e é derramada sobre os homens.
Certamente Shakespeare captou esta verdade ao dizer atra­vés de Pórcia, em O Mercador de Veneza: "A qualidade da misericórdia não é coagida." Isto é, ela não é forçada; não é arrancada de uma pessoa, mas "Goteja como a chuva branda que cai do céu".
A misericórdia não é forçada, não é merecida, ao vir de Deus sobre o homem. Era isso que o salmista tinha em mente ao dizer que a misericórdia vem de Deus que está no céu sobre os que O temem. "Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões" (Sl 103:1,2). Eis o grande ato de misericórdia de Deus para com os pecadores. Reconhecen­do que os homens estavam separados dele, Deus fez separação entre o homem e seus pecados de sorte que ele, homem, não precisasse viver separado de Deus. Enquanto o pecador levar seu próprio pecado, está separado de Deus. Removido o pecado, já não existe a separação. Assim como é infinita a distância entre o Oriente e o Ocidente, assim Deus, por misericórdia, removeu nossos pecados.
"Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem" (Sl 103:13). Está no coração do pai amar o filho e dele cuidar. O coração de nosso Pai transborda de amor, de gracioso interesse por seus filhos. O salmista mostrou, assim, que a misericórdia se origina em Deus; ele a derrama sobre nós; nós a recebemos não pelo que somos, mas em virtude do que Deus é. Não é recompensa por aquilo que somos; é expressão do interesse amoroso e gracioso de Deus pelos objetos de sua afeição. Não buscamos a misericór­dia dos homens em resposta a nossas atitudes ou ações para com eles, porque eles não têm capacidade de ser misericordio­sos. A misericórdia provém de Deus.
Que tinha nosso Senhor em mente ao dizer "Bem-aventura­dos os misericordiosos"? Misericordioso significa "cheio de mise­ricórdia". Assim como uma pessoa graciosa é aquela cheia de graça, a pessoa misericordiosa é aquela que está cheia da fonte de misericórdia, que está cheia de Deus. Misericordioso é o homem cheio de amor, que ama com o amor de Deus. É o homem em cuja vida a cruz realizou uma obra transformadora conformando-o a Jesus Cristo. Aquilo que não constitui caracte­rística natural de sua vida passa a ser o caráter e padrão dela.
O capítulo 10 do Evangelho de Lucas deixa muito claro o que Deus espera do homem justo. Nessa passagem, Jesus foi inquirido por um advogado. Advogado, em Israel, era alguém especializado na interpretação da lei mosaica; era também intérprete das tradições rabínicas que se desenvolveram em torno da lei de Moisés. Um desses aproximou-se de Cristo e disse, em realidade: "Conheço o que Moisés diz acerca da entrada no reino. Conheço as justiças que os fariseus dizem necessárias para que alguém seja aceitável diante de Deus. Pois bem que é que o Senhor diz?"
Ele pôs Cristo à prova quanto à sua interpretação do modelo de justiça que Deus exige dos que andam em comunhão com ele. Em termos mais simples, a pergunta era: "Quão bom deve ser o homem para agradar a Deus?" Nosso Senhor não deu resposta direta à pergunta; em vez disso, perguntou ao advoga­do o que era que a lei dizia e, no seu entender, qual era o padrão de justiça e conduta de Deus. O advogado conhecia a lei mosaica, porque citou o que Deus espera da pessoa justa, respondendo que a exigência de Deus é: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento" (v. 27). Quando o indivíduo é assim controlado pelo amor divino, não haverá pecado contra Deus. A segunda exigência que se faz ao justo és:"Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19:18). Quem age em amor para com o próximo não será culpado de crime algum contra o próximo, porque o amor a Deus e o amor ao próximo lhe controlarão a vida, e essa vida justa agrada a Deus.
O advogado condenou-se pelo próprio resumo que fez da lei; ele não havia agradado a Deus. Não havia amado a Deus nem ao próximo. A condenação busca uma justificativa, uma escusa, de modo que ele apelou para a ignorância. Suas palavras foram, com efeito: "O único motivo por que não tenho vivido uma vida justa é que não sei quem é meu próximo. Ora, se isso me fosse esclarecido, eu seria justo."
Jesus contou a parábola do Bom Samaritano tendo em mira dois pontos: primeiro, mostrar a este advogado quem era seu próximo;segundo, mostrar em resumo o que constitui justiça aos olhos de Deus. A história é bem conhecida. Um homem ia de Jerusalém para Jerico e foi assaltado por ladrões que o surraram impiedosamente, roubaram-lhe tudo o que possuía, abandonaram-no à beira da estrada para aí morrer, e seguiram o seu caminho com o fruto do roubo. Por acaso passava um sacerdote pela mesma estrada. Este viu o homem, portanto não o ignorava. Percebeu-lhe a necessidade, portanto sabia o que devia fazer; mas passou de largo, deixando de reconhecer sua obrigação à luz de seu conhecimento. Logo depois veio um levita; viu o homem; não o ignorava, pois. Reconheceu-lhe também a necessidade, e sabia qual era sua responsabilidade no caso; mas não estava disposto a assumir nenhuma obrigação; passou de largo. Depois destes veio um homem desprezado, um pária(Homem excluído da sociedade) para os judeus, um samaritano. Este viu a necessidade, reconheceu sua responsabilidade em face do que conhecia; derramou óleo nos ferimentos para suavizá-los, e vinho para desinfetá-los; transportou o ferido até a um ponto de pouso, e assumiu as despesas do tratamento até que ele recuperasse a saúde.
Então nosso Senhor voltou-se para o advogado e perguntou-lhe: "Qual destes três te parece ter sido o próximo?"
Só havia uma alternativa, e o advogado teve de confessar: "O samaritano que socorreu o necessitado."
Primeiro nosso Senhor definiu quem é o próximo. Meu próximo nem sempre é aquele que mora no mesmo quarteirão onde resido.Meu próximo é qualquer pessoa que esteja em necessidade, cuja necessidade conheço e tenho capacidade de atender. A justiça exige uma reação amorosa, graciosa de minha parte para com essa necessidade; caso contrário, não estou cumprindo minha obrigação para com Deus nem para com o próximo.
Nosso Senhor concluiu esta conversa com o advogado, dizendo: "Vai, e procede tu de igual modo." Que é que Deus espera de uma pessoa justa? Misericórdia: interesse amoroso, gracioso, por alguém cuja necessidade atraiu minha atenção, necessidade que estou em condições de atender. Misericórdia é manifestação de justiça.
Quando nosso Senhor disse "Bem-aventurados os misericor­diosos", estava dizendo que o homem que buscou a Jesus Cristo pela fé e recebeu sua amorável graça, sua misericórdia, conformar-se-á à misericórdia de Jesus Cristo de maneira que a misericórdia de Deus possa fluir continuamente através de sua vida diária. A justiça diante de Deus traz sua bênção sobre nossa vida. A demonstração de misericórdia porque recebemos misericórdia revela a vida de Cristo, a obra da cruz em nossa vida, e permite que Deus escancare as janelas dos céus e derrame bênçãos sobre nós. O homem que vive segundo o amor de Deus revelado na cruz terá a vida inundada pelo amor de Deus. Deus, a fonte de misericórdia, tem feito com que suas misericórdias me inundem a vida através da cruz. Sua justiça sé manifestará por intermédio de minha vida em interesse amoroso e gracioso. À medida que a justiça divina se aperfeiçoa em mim, as bênçãos de Deus podem cobrir-me. Misericórdia é a manifestação da justiça de Cristo na vida do filho de Deus, que abre a vida para suas bênçãos. "Bem-aventurados os misericor­diosos, porque alcançarão misericórdia."

Bibliografia Pentecost


Bem-aventurados os Pacificadores (Mt 5.9)

Ao celebrarmos anualmente o nascimento daquele cujo nome é Príncipe da Paz, estamos cônscios(Que sabe bem o que faz ou o que deve fazer; ciente, consciente) de que "Para os perversos, diz o meu Deus, não há paz" (Is 57:21).
Em Mateus 5:9 nosso Senhor descreveu as bênçãos que ele trazia aos homens: "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus." Parece, neste versículo, que aquilo que as Escrituras diziam que o Senhor faria—trazer paz aos homens—ele nos havia confiado, como se fosse nossa responsabilidade estabelecer a paz na terra. Esta bem-aventurança tem sido muito mal utilizada e mal interpretada.
A paz pertence a Deus e não ao homem cheio de pecados, porque os pecadores vivem em estado de alienação(Falta de consciência dos problemas políticos e sociais), tanto de Deus como uns dos outros. Quem vive em tal estado, não pode sentir paz, porque paz é a perfeita harmonia e tranqüilidade que pertence a Deus. Deus é um Deus de paz. Paulo ora: "E o Deus da paz seja com todos vós" (Rm 15:33).
Ele não é apenas o Deus, fonte da paz, mas também um Deus em perfeita paz consigo mesmo, um Deus que se caracteriza por perfeita harmonia e tranqüilidade. Esta paz pertence a ele porque ele é Um. Em Gaiatas 3:20, o apóstolo afirma a verdade: "Deus é um." Visto que Deus é Um, não pode haver desunião, desarmonia, conflito dentro de si próprio. O homem, porém, está separado de Deus pelo pecado, e essa separação entre a criatura e o Criador, entre o homem e Deus, impossibilita ao homem ter paz. Ele não pode estar em paz consigo mesmo. Não pode estar em paz com Deus. É impossível haver paz enquanto o homem não se reconciliar com Deus, enquanto não se unir de novo com o Deus de quem ele se alienou mediante o pecado. A realidade desta alienação está muito clara em Romanos 5:10: "Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida." Esta inimizade surgiu porque, "por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, e assim também a morte passou a todos os homens porque todos pecaram" (Rm 5:12). Adão pecou, e temos tomado parte em seu pecado. Sendo pecadores, estamos separados de Deus e não pode haver paz até que acabe essa inimizade, inexista a separação e os homens sejam levados a ter harmonia com Deus.
Portanto, a primeira e grande paz a ser proporcionada e estabelecida é aquela entre o pecador e Deus. Quando Cristo disse "Bem-aventurados os pacificadores", não estava proporcionando uma recompensa especial para os diplomatas pacien­tes. Falava dos que estão em paz com Deus, dos que trazem uma mensagem de paz aos homens para que estes entrem em harmonia com Deus de quem se afastaram. Bem-aventurados os que anunciam aos pecadores a realidade da vinda do Salvador. Os anjos que anunciaram o nascimento do Salvador foram essencialmente pacificadores ao proclamar: "Hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor" (Lc 2.11)
Para ressaltar esta verdade, nosso Senhor falou de um pastor que tinha sob seus cuidados cem ovelhas. Ao cair da noite, conduzindo o rebanho ao redil, verificou que uma das ovelhas se perdera nos montes. "Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar a que se extraviou? E, se porventura a encontra, em verdade vos digo que maior prazer sentirá por causa desta, do que pelas noventa e nove, que não se extraviaram" (Mt 18:12-13).
Em seus ensinos, o Senhor com freqüência usa ovelhas para representar os perdidos. As ovelhas estão entre os menos inteligentes dos animais. Se se perdem, jamais encontram o caminho de volta ao redil; se se afastam do pasto, jamais o encontram; e se o fiel pastor não as conduz às águas, morrem de sede. Precisam de alguém que lhes mostre o caminho.
Num texto paralelo, nosso Senhor diz que, quando o perdido é achado, há alegria no céu, porque este perdido foi restaurado ao seu devido lugar. Na parábola, nosso Senhor acentuou que o homem está alienado(Ato ou efeito de alienar(-se); alheação. 2. Cessão de bens.  3. Transporte, enlevo, arrebatamento. 4. Psiq Alienação mental (q. v.). 5. Filos. Processo ligado essencialmente à ação, à consciência e à situação dos homens, e pelo qual se oculta ou se falsifica essa ligação de modo que apareça o processo (e seus produtos) como indiferente, independente ou superior aos homens, seus criadores. 6. Filos.  Estado, condição ou produto de alienação. 7. Hist. Filos. Segundo Hegel (hegelianismo), processo essencial à consciência e pelo qual ao observador ingênuo o mundo parece constituído de coisas independentes umas das outras, e indiferentes à consciência - independência e indiferença serão negadas pelo conhecimento filosófico. 8. Hist. Filos. Segundo Marx (marxismo), situação resultante dos fatores materiais dominantes da sociedade, e por ele caracterizada sobretudo no sistema capitalista, em que o trabalho do homem se processa de modo que produza coisas que imediatamente são separadas dos interesses e do alcance de quem as produziu, para se transformarem, indistintamente, em mercadorias.) de Deus; que jamais encontrará o caminho de volta a Deus sem alguém que lho mostre. O ho­mem jamais chegará ao conhecimento da salvação sem que alguém lha proclame. Jamais ele passará da alienação de Deus à paz com o Criador se não houver um pacificador. Reconhecendo a condição de perdidos de seus contemporâneos, muito embora religiosos, o Senhor disse: "Bem-aventurados os pacifi­cadores, porque serão chamados filhos de Deus." Bem-aventurados os que, como o Filho do homem, foram buscar e salvar os perdidos, levá-los do deserto para a segurança do redil.
Vemos em Colossenses 1:20 que Jesus Cristo veio a este mundo fazer a paz pelo sangue da sua cruz. O único meio de o homem ter paz com Deus é pelo sangue da cruz. Se os homens só podem chegar-se a Deus por esse meio, é preciso que sejam informados dele.
É significativo que Paulo, logo no início de todas as suas epístolas, se refira ao fato de que Deus é um Deus de paz; que a paz vem de Deus Pai e de Deus Filho. Nenhuma das cartas de Paulo deixa de mencionar essa verdade nas palavras introdutórias. Paulo impressionava-se com a realidade de que Deus, que está em perfeita paz consigo mesmo, tenha proporcionado aos homens que se separaram dele a oportunidade de ter paz com ele. Paulo reconhecia que o Deus de paz o havia indicado para ser pacificador. Enquanto viajava em todas as direções pelo Império Romano, via-se como pacificador da parte de Deus, que tinha vindo para contar aos homens que Cristo estabelecera um caminho de paz pelo sangue da sua cruz, mediante a qual podiam ter paz com Deus.
Descobrimos, em 2 Coríntios 5:18-20, que Deus nos nomeou pacificadores seus:

Ora, tudo provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo [trouxe-nos à paz consigo mesmo] por meio de Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação [de sermos pacificadores], a saber, que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo [trazendo o mundo à paz], não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação [a responsabilidade de sermos pacificadores]. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis [que tenhais paz] com Deus.

Três vezes nesses versículos Paulo ressalta que nós, que fomos levados à paz com Deus, fomos feitos pacificadores. Devemos levar os homens separados de Deus a saber como ter paz com ele e como sentir essa paz. Para ser pacificador, o homem precisa conhecer apenas uma verdade fundamental: Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou ao terceiro dia para que possamos ter paz com Deus. O pacificador deve conhecer essa verdade e então comunicá-la aos que se encon­tram alienados de Deus.
O homem não está separado apenas de Deus, mas também do próprio homem; o crente pode estar separado de outro crente. Esse não é o propósito de Deus. Em Efésios 4:3 Paulo escreveu que devemos "preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz". É plano de Deus que os que têm paz com ele vivam em paz, uns com os outros numa assembléia de crentes. Os crentes têm a obrigação de preservar a paz que Deus proporcionou mediante o sangue da cruz. Onde há contenda, ciúme e discórdia, não se usufrui o benefício da paz divina. É impossível ao homem ter paz com Deus sem sentir o resultado dessa paz em sua vida de modo que viva na unidade do Espírito no vínculo da paz.
Depois de nosso Senhor ter falado da obra do pacificador (Mt 18:12-14)—levar os perdidos a ter paz com Deus—re­feriu-se ao dever do pacificador em preservar a unidade na comunhão de crentes. Aqui nosso Senhor expôs certos princípios a serem observados onde houver desentendimento entre os crentes. Disse ele: "Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só" (Mt 18:15). Não se trata de confissão pela parte culpada a alguém que a pessoa tenha ofendido. O passo deve ser dado pelo ofendido. Não deve este aguardar a contrição e confissão do ofensor e permanecer no estado de separação até que o culpado veja o erro de seu proceder. Jesus disse: Se teu irmão pecou contra ti, vai falar com ele sobre a sua falta, entre ti e ele só. O ofendido deve dirigir-se ao ofensor e, em particular, mostrar-lhe a ofensa, não só evitando escândalo na congregação, como também o envolvimento de outros membros no problema. Essa é a primeira providência a ser tomada. Aquele que vê ou conhece a ofensa de um irmão e vai procurá-lo em particular, é pacificador, porque procura restabe­lecer a paz que foi perturbada pela ação do ofensor. Nosso Senhor disse: "Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão." A paz foi restabelecida e já não há ruptura na vida da congregação
Se a procura particular do irmão não promove a paz, ó problema não se encerra aí. O ofendido deve dar o segundo passo (v. 16): "Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça." Aqui, a pessoa que sabe do erro ou daquilo que rompe a unidade do Espírito no vínculo da paz, deve tomar duas ou três testemunhas para que haja restauração. Estas três são pacificadoras, e para elas há promessa da bênção divina.
Se o ofensor não lhes der ouvidos, "dize-o à igreja"; desse modo, o peso da igreja toda recai sobre aquele que perturbou a paz do corpo. Se o homem não for restaurado à paz quando toda a congregação se torna pacificadora, esse tal deve ser excluído dela. Deve ser tratado como pagão (gentio) e publicano. Vê quão importante é, aos olhos de Deus, que se preserve a unidade do corpo?
Por que a preservação da paz da igreja é tão importante? Nosso Senhor diz: "Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que porventura pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos céus. Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles" (Mt 18:19-20). Jesus disse com essas palavras que a resposta à oração é condicional à unidade entre o solicitante e Deus, o solicitado. Se não estivermos em paz com Deus, não podere­mos orar confiante em que nossa oração será respondida. Se não estivermos em unidade com nosso irmão, não poderemos estar em unidade com Deus. A ruptura da unidade entre os crentes provoca ruptura da unidade entre o crente e Deus.
Esta mesma verdade é acentuada em 1 Pedro 3, onde o apóstolo fala do relacionamento entre marido e mulher. Pedro insiste em que deve existir no lar um relacionamento correto entre marido e mulher, para que se não interrompam as suas orações. Onde não houver união perfeita entre marido e mulher não haverá resposta à oração. Isto nos leva a um princípio vital e importante: a oração respondida depende não só de estar o indivíduo em paz com Deus, mas também de estar em paz com os irmãos em Cristo. Se nosso relacionamento vertical não for correto, não o será também nosso relacionamento horizontal; a recíproca também é verdadeira.
A eficácia da oração, quer individual, quer da igreja, depende da preservação da paz. Foi por isso que nosso Senhor disser "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus." Nenhuma palavra da Bíblia dá-nos a indicação de que o homem há de trazer paz à terra. As espadas não se converterão em relhas de arados nem as lanças em podadeiras enquanto o Príncipe da Paz, o Senhor Jesus Cristo, não vier à terra e subjugá-la à sua autoridade. Ele não nos transferiu a responsabilidade de fazer a paz entre as nações; deu-nos, porém, a responsabilidade de dizer aos homens alienados de Deus que podem ter paz com ele mediante o sangue da cruz; deu-nos a solene responsabilidade de preservar a unidade do corpo no vínculo da paz.
Podemos ser pacificadores e receber a bênção que Deus nos prometeu, levando aos homens a mensagem que Cristo morreu e procurando manter a unidade do corpo no vínculo da paz. "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus."

Bibliografia Pentecost]


Perseguidos por Causa da Justiça (Mt 5.10-12)


Certo jovem, a fim de obter recursos para suas despesas no segundo ano de seu curso universitário, planejou passar as férias de verão num acampamento madeireiro. Ele provinha de um lar cristão com um passado muito marcante. Conhecendo a vida depravada de muitos dos que viviam em tais acampamentos, os pais procuraram preparar este jovem cristão para enfrentar a oposição e perseguição que pudessem surgir. Não tiveram notícias do filho durante o verão, por isso, em seu retorno ao lar, quiseram saber qual a atitude dos homens para com a sua fé. O jovem pareceu surpreso com tal indagação. "Ora, não me deram nem um bocadinho de trabalho o tempo todo. Na verdade, nem descobriram que eu era cristão", disse o filho.
O desejo de autopreservação é um dos principais impulsos de nossa vida. Muitos de nós, em face da oposição ou da perseguição, somos tentados a ocultar aquilo que possa acarre­tá-las. Nosso Senhor previu isto nas Bem-aventuranças, ao dizer.- "Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós.  Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós" (Mateus 5:10-12).
Nosso Senhor, no curso das Bem-aventuranças, pronunciou a bênção de Deus sobre os humildes, sobre os penitentes, sobre os submissos, sobre os que têm paixão pela santidade, sobre os benignos, sobre os justos e sobre os que promovem a reconci­liação dos alienados de Deus. Porém nosso Senhor reservou uma bênção dupla para os perseguidos. Examinemos essa característica da justiça que traz a bênção dupla de Deus, essa disposição de colocar-se ao lado de Jesus Cristo em face da perseguição e da oposição.
O Senhor falava a uma nação pecadora que recebera uma revelação da santidade de Deus por via da lei de Moisés, mas se afastara das exigências dessa revelação. Mediante a adesão ao farisaísmo, a justiça que a lei exigia foi frustrada, criando-se um sistema que escusava a impiedade e a ilegalidade.
João Batista precedeu o ministério do Senhor Jesus Cristo exercendo uma obra de condenação: "Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?" (Mt 3:7). Ele havia advertido que o Senhor Jesus Cristo, que ele apresentara, era um Juiz. "A sua pá ele a tem na mão, e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível" (v. 12).
Com voz de trovão, João denunciara o pecado. Ele havia trazido à luz a hipocrisia do povo e a impiedade da nação. Pregara sobre o pecado e o juízo de sorte que pudesse revelar o Justo que traria justiça aos que o buscassem pela fé. Os que aceitaram a mensagem de João identificaram-se com ele e com outros que haviam recebido a sua mensagem; concordaram com João no julgamento do pecado, e confessaram a necessidade de justiça de um Redentor.
Os que recebiam a mensagem de João ficavam separados da nação. Por isso o povo os desprezava. Eles, por serem batizados com o batismo de João, diziam, com efeito, que suas necessidades não podiam ser satisfeitas pelo Judaísmo. Não encontrariam justiça que os satisfizesse ou que satisfizesse a Deus naquele sistema complicado. Saíam porque haviam encontrado algo superior; aquilo que eles deixavam, odiava-os e os marginalizava. Alguns sofreram até martírio nas mãos do sistema religioso por o haverem deixado em troca de algo de maior valor.
Tendo nosso Senhor falado aos que estavam preocupados com a questão da justiça e descrito as características do homem justo, concluiu dizendo que o justo deve apartar-se da injustiça, do sistema ímpio, e deve estar disposto a suportar a persegui­ção da parte dos ímpios, se necessário for.
No capítulo 15 de João, na véspera de sua crucificação, nosso Senhor tratou de uma situação semelhante, ao falar aos discípu­los que haviam deixado seus interesses econômicos por causa dele. Haviam deixado o sistema religioso em que foram criados por causa da justiça que ele apresentava. Haviam deixado a família, o farisaísmo; separaram-se para ele.
Enquanto estava com eles, Jesus os sustinha. Na perseguição, servia-lhes de defesa. Na necessidade, era para eles a fonte de suprimento. Nele encontravam tudo o de que necessitavam. Mas ele devia ser retirado, e ficariam sozinhos. Nosso Senhor os retratou como um pequeno bando indefeso, perseguido por um adversário superpoderoso que procuraria destruí-los. Ten­tou prepará-los para a oposição que enfrentariam. Assim em João 15:18 ele estendeu-se um pouco sobre o ódio do mundo contra o crente. Não havia dúvida na mente de nosso Senhor quanto a esse fato. Ele estava certo disto, porque o mundo é ímpio e pecaminoso.
Como uma luz brilhante é dolorosa aos olhos, assim a luz da santidade de Deus é dolorosa ao pecador, e ele procura esconder-se dela. O crente, posto no mundo como luz, traz dor ao mundo. Não pode haver outra reação contra ele senão a de rejeição, perseguição, amargura e ódio. Por isso nosso Senhor disse: "Se o mundo vos odeia [e o texto original implica que certamente odiará], sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim" (Jo 15:18).
Então nosso Senhor passou a citar alguns motivos pelos quais o mundo odiaria os crentes. O ódio é compreensível e, à luz da situação do mundo, é perfeitamente natural, lógico, e deve acontecer. O amor do crente ao mundo é tão anormal quanto o amor do mundo ao crente. O primeiro motivo que Cristo apresenta é: "Se vós fósseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário dele vos escolhi, por isso o mundo vos odeia" (Jo 15:19). Quando disse "Se vós fósseis do mundo", estava dizendo: "Se extraísseis do mundo vossos padrões de vida; se modelásseis vossa conduta segundo os padrões do mundo; se recebêsseis inspira­ção  do  mundo",  o  mundo vos  aprovaria,  porque  haveria unidade entre vós e o mundo. Se vossa vida girasse em torno do mundo, serieis aprovados. Visto como a vossa vida tem um novo padrão, um novo alvo, um novo centro, o mundo não entende. O mundo não pode entender o cristão; portanto, fica confuso pelo que se passa na mente e no coração do filho de Deus. Aquilo que confunde que eles não podem entender ou explicar, rejeitam. O mundo se lembra do que éreis outrora; como era vosso costume fazer o que eles faziam, ir aonde eles iam, conduzir vossa vida como eles conduziam a deles; como tínheis na vida os mesmos alvos que eles. Eles estavam perfeitamente à vontade porque vos entendiam; mas agora mudastes, e alterou-se por completo o rumo da vossa vida. Não podem entender a mudança. Ela os confunde, deixa-os perplexos; portanto vos rejeitam.
Deixando o sistema do mundo e aceitando o padrão da palavra de Deus, dizemos ao mundo: "encontrei em Cristo algo superior a tudo quanto tens." Não há necessidade de empregar palavras, pois a própria rejeição das coisas da velha vida e aceitação da nova com seus alvos e padrões, é testemunho silencioso de que encontramos algo superior. O mundo interpreta esta atitude como complexo de superioridade de nossa parte, daí o ódio que nos tem. Não aceita que haja algo de maior valor em conhecer a Jesus Cristo e que Cristo seja superior ao deus deste mundo. Entende mal e interpreta mal. O fato de a pessoa deixá-los é um testemunho do alto valor; daquilo que a leva a abandoná-los. O indivíduo saiu do seio do mundo. Não podendo entender porque ele fez isso, o mundo o odeia.
O segundo motivo que Cristo apresenta encontra-se no versículo 20: "Não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa." Jesus Cristo deixou fisicamente este mundo há quase 2.000 anos, mas os resultados de sua vinda ao mundo são tão reais como se ele tivesse partido ontem. O ódio que o mundo lhe votou no dia de sua crucificação é tão forte hoje como naquele tempo. O mundo não se contentou nem abriu mão de seu ódio a Cristo em 2.000 anos de amargura. Uma vez que Jesus Cristo não está presente em pessoa, o mundo descarrega sua ira sobre os que se identificam com ele; e, odiando aos de Cristo, o mundo continua a odiá-lo.
O ódio do mundo contra o crente não chega a ser tão grande quanto o ódio contra Jesus Cristo. Enquanto o mundo não for, afinal, julgado pela volta de Jesus Cristo, o grande Juiz, continua­rá a odiá-lo e aos que o seguem. Por isso o Senhor disse: "Tudo isto, porém, vos farão por causa do meu nome" (v. 21).
O terceiro motivo do ódio do mundo está na última parte do versículo 21: "Não conhecem aquele que me enviou." O mundo odeia a Deus e a Jesus Cristo porque realmente não os conhece. Conhece a Deus como Juiz. Conhece-o como alguém que o convence de pecado, mas não o conhece na realidade. Devido à sua ignorância, odeia-o.
O último motivo está no versículo 22: "Se eu não viera, nem lhes houvera falado, pecado não teriam; mas agora não têm desculpa do seu pecado." Esta é a raiz de todo o problema. Jesus Cristo veio ao mundo como luz, e a luz dissipa as trevas, A luz expulsa as trevas quando os homens que nelas vivem sé aproximam dela.
Antes da vinda de Jesus Cristo ao mundo, os homens jamais haviam visto demonstração de santidade e justiça. Os homens olhavam uns para os outros e viam o pecado; nunca tinham visto alguém que fosse absolutamente santo e justo. Portanto; desculpavam-se, porque todos se pareciam. Mas quando Cristo veio, ele revelou o que é a santidade e o que a santidade de Deus exige. Os homens já não podiam desculpar-se do seu pecado alegando nunca terem visto demonstração da santida­de. Em vez de amar àquele que revelou o que é a justiça, e em vez de voltar-se para ele, por fé, a fim de receberem a justiça divina, rastejaram para as trevas, porque amaram mais a estas do que à luz, e odiaram àquele que os convenceu do pecado.
Em João 16:7-8, Jesus disse que o Consolador, isto é, o Espírito Santo, viria, e quando viesse, convenceria o mundo do pecado, da justiça e do juízo. O Espírito Santo opera por intermédio dos filhos de Deus, e a vida justa, piedosa, santa, santificada do filho de Deus convence o mundano de sua impiedade, de sua injustiça, de sua falta de santidade. A vida transformada do filho de Deus mostra aos filhos do mundo que Cristo veio trazer justiça e ela está disponível. O crente se torna, pois, o instrumento que o Espírito Santo usa para inquietar os homens por causa de seu pecado e impiedade. Os filhos do mundo odeiam ao instrumento que revela sua impiedade.
Quando nosso Senhor, descrevendo as características do homem justo, disse "Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça", e "Bem-aventurados sois quando, por minha" causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós", realmente estava dizendo que quando o homem é transformado pela fé em Jesus Cristo, o mundo não pode deixar de odiá-lo. O mundo jamais o aprovará, nem o recomendará, nem moldará sua conduta de acordo com ele. O mundo o odiará, o injuriará, o perseguirá. Injuriar significa amontoar abusos sobre a pessoa. Perseguir significa atacar, talvez até fisicamente. O mundo dirá mentiras contra o crente, "por minha causa... mentindo, disserem todo mal contra vós".
Em João 16:2, nosso Senhor falou de algumas ações dos que rejeitam a verdade de Deus contra os que o recebem: "Eles vos expulsarão das sinagogas; mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus." Os seguidores de Cristo podem esperar perseguição física, até mesmo a morte. Foi sobre isso que nosso Senhor pronunciou uma bênção dupla.
Visto como vivemos no que se chama uma nação cristã, após 2.000 mil anos de pregação do evangelho de Jesus Cristo, enganamo-nos ao pensar que a atitude do mundo para com o crente tenha mudado. Essa é uma mentira diabólica. Não houve mudança alguma. Temos, de certo modo, nos iludido pensando que podemos mudar a atitude do mundo para com Cristo e para com os cristãos. Temos tentado viver perante o mundo com a idéia de mudar-lhe o modo de pensar. Estamos tentando fazer o impossível. Seria como querer chegar à lua, usando para a decolagem apenas nossos dois pés.
Se quisermos escapar à perseguição do mundo e evitar a sua animosidade, é muito simples: aprovemos seus padrões, sua justiça; aceitemos sua ética. Vivamos como vivem os filhos do mundo, e não seremos perseguidos. Se quisermos evitar a perseguição do mundo, aprovemos sua religião. Não digamos a ninguém que fora de Cristo está perdido. Permitamos que o mundo creia haver muitos caminhos que levam a Deus. Negue­mos a verdade bíblica de que só Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida. Elogiemos a sua religiosidade, sua freqüência à igreja, e sua contribuição para as instituições beneficentes. Podemos escapar à perseguição do mundo se não nos separar­mos dele, se não tomarmos o partido de Cristo. Não deixemos ninguém saber que somos cristãos. Vivamos bem com todos. No escritório, ocultemos o fato de que pertencemos a Jesus Cristo, que acreditamos estarmos salvos, que temos certeza de que eles estão perdidos. Gargalhemos de piadas sujas. Não censuremos o pecado; demos-lhe apoio. Divirtamo-nos quan­do zombarem e blasfemarem de Jesus Cristo. Não os censure­mos quando tomarem em vão o nome de Deus—aceitemo-lo como lugar-comum, como se fosse também nossa maneira de viver
Podemos evitar a perseguição. Não é tão difícil assim. Lembremo-nos, porém, de que nosso Senhor disse: "Porque qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória e na do Pai e dos santos anjos" (Lu 9:26). Ele não disse que negaria os que procurassem a amizade do mundo para evitar a perseguição. O que ele disse foi que se envergonharia do que seus filhos fizeram.
A verdade que nosso Senhor comunicou nesta Bem-aventurança dominou o coração de Pedro, pois ele escreveu que fomos regenerados,
para uma viva esperança mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros, que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para salvação preparada para revelar-se no último tempo. Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que o valor da vossa fé, uma vez confirmado, muito mais precioso do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo (1 Pe 1:3-7).
Aqui estavam crentes dispostos a identificar-se com o Salva­dor, firmes em sua devoção a ele e indesviáveis em sua separação do mundo; muito embora se amontoassem brasas vivas sobre eles, resistiriam com firmeza. Não se identificariam com o mundo para evitar a perseguição. Pedro prometeu que na revelação de Jesus Cristo redundariam em louvor, glória e honra. "Bem-aventurados sois quando... vos perseguirem."
José comprovou esta verdade. Os irmãos o perseguiram por causa da justiça, e ele foi parar numa cisterna seca, no deserto. Deus o tirou dali e o fez primeiro-ministro do Egito. Bem-aven­turados os perseguidos.
Daniel comprovou esta verdade. Por causa da justiça ele foi lançado na cova dos leões. Deus o levantou e o fez primeiro--ministro da Babilônia. "Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem."
Jeremias comprovou esta verdade. Foi lançado numa masmorra coberta de lodo, e a areia movediça o engoliu. Foi perseguido por causa da justiça. Mas Deus o ergueu e honrou-lhe o nome como profeta do Senhor por toda a nação de Israel.
Deus chama os homens à separação para ele; mas nessa separação, ele os separa do mundo, do qual devem esperar o ódio. Duplamente bem-aventurados os que apresentam este fruto de justiça.
Bibliografia           Pentecost

Uma exortação à perseverança (4:12-19).                              

Esta primeira epístola de Pedro é, essencialmente, uma epístola que encoraja os crentes a resistirem galhardamente sob perseguição, permanecendo fiéis a Cristo a despeito de tudo. Quase todas as secções desta epístola dizem respeito a essa questão, embora sejam abordados muitos temas. Contudo, ao examinarmos o texto mais de perto, podemos ver que quase todas as idéias desta epístola são apresentadas contra o pano de fundo do sofrimento. A secção que agora iniciamos é a que se refere ao texto de referencia da nossa lição de numero 11, a mais extensa daquelas que abordam diretamente o problema. Pedro sabia que Nero, o imperador, não permitiria que a igreja continuasse sem passar por tremenda provação. Mas não sabia o apóstolo quão grande seria ela, e nem que ele mesmo e Paulo cairiam pela espada de Nero. No entanto, podia ver claramente o ajuntamento de nuvens negras, e esperava que sua epístola teria o efeito de ajudar os crentes da Ásia Menor a resistirem às chamas, a fim de saírem da prova como ouro purificado, ao invés de serem reduzidos a nada, como mera palha.
«Sumário. Vossa iminente provação não vos deveria surpreender, pois sabeis o quanto Cristo sofreu. Ao compartilhardes de seu sofrimento, regozijai-vos, certos de que tereis a glória futura. Nenhum cristão deve cair em dificuldades por motivo de crimes, como homicídio ou furto; mas se alguém sofre, que sofra como cristão, e assim glorifique a Deus. O juízo que começa, envolverá primeiramente a família de Deus. Quem sabe qual será a sorte dos incrédulos? Nosso dever é claro: praticar a retidão e confiar em nosso Criador». (Hunter, in loc).

Veremos agora o significado dos versículos que falam sobre a exortação à perseverança.

4.12: Amados, não estranheis o ardente provação que vem sobre vós para vos experimentar, como se coisa estranha vos acontecesse;
«...amados...» Os crentes são «amados» de Deus e dos apóstolos, sendo objetos especiais do amor de Deus, sendo dotados de amor fraternal mútuo. E aqui e em I Pe 2:11, o termo é usado como introdução a uma nova secção.
«...não estranheis...» Melhor tradução é «Não vos surpreendais». À palavra é «zenidzo». Pode significar «receber como hóspede», mas também significa «ser surpreendido», «espantar-se». Consideremos os três pontos seguintes:
1. Cristo já demonstrará que os justos devem sofrer, havendo grande abundância de comprovações acerca disso, no A.T.
2. As perseguições já tinham começado; haveriam de ir piorando até as chamas se transformarem em verdadeiro incêndio de floresta.
3. Nero era um imperador ímpio, violento e imprevisível. A igreja não poderia passar por ele sem algum sofrimento e perda. Portanto, o sofrimento dificilmente podia ser reputado uma coisa 'estranha', para quem era crente naquela época.
«...fogo ardente...» No grego é «purosis», uma «queimadura», mas que aqui indica uma «prova de fogo». Os crentes haveriam de passar por um sofrimento: a. destruidor; b. doloroso; c. violento e d. inexorável, como um fogo em galharia seca.
«... a provar-vos...» Esse fogo é testador, provador e purificador, tal como o ouro mais apurado é aquele que passa pelas mais altas temperaturas. Sua finalidade original não era beneficiar aos crentes, mas fatalmente produziria esse efeito. (Ver At 14:22 quanto aos resultados benéficos das tribulações e sofrimentos). «Como o crisol prova a prata, e o forno o ouro, assim o homem é provado...» (Pv 27:21). As chamas seriam ferozes; mas, quanto mais ferozes fossem mais haveriam de refinar aos seguidores de Cristo. Portanto, nada Deus haveria de permitir que acontecesse aos crentes que não visasse seu benefício final.
«...destinado...» No grego é usado o verbo no presente (algo que ocorria ; então), pelo que várias traduções dizem «que vem sobre vós». Talvez se trate do presente usado em lugar do futuro, porque se esperava que a tribulação ocorresse em breve; ou então o presente visa demonstrar que a provação já estava em processo, o que é mais provavelmente correto. Mas por toda está 1 epístola Pedro mostra que esperava que a provação aumentasse.
«...cousa extraordinária...» No grego é «zenos», algo «estranho», «surpreendente», «próprio do estrangeiro». Esse termo é usado como substantivo, com o significado de «estranho», «alienado». A perseguição porém, dificilmente é algo surpreendente para o crente. Por isso é que Paulo disse: «...todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos» (II Tm 3:12).
«A história completa do heroísmo cristão, sob ditadores europeus e asiáticos, no século XX, nunca será totalmente conhecida. A igreja primitiva passou por dez ondas de perseguição, nos três primeiros séculos de sua história. Todos já ouviram falar nas catacumbas, nos leões das arenas e nos cristãos queimados como tochas vivas. Os séculos de martírio não nos devem cegar para o fato que a comunidade fiel do A.T., bem como da longa história da era cristã, teve de passar pela prova ardente. 'Não penseis ser coisa extraordinária'. 'O discípulo não é maior que seu senhor' (Lc 6:40). Os seguidores de Cristo que têm sofrido às mãos de homens mundanos, que os têm odiado e crucificado, dificilmente podem escapar da mesma provação. Havia três cruzes no Calvário. Quanto a duas delas a sociedade proferia juízo contra homens cuja consciência estava tão endurecida que não lhes foi mais permitida a liberdade de viver. Na cruz do meio a sociedade colocou Aquele cuja vida era por demais sensível para os homens tolerá-la. O juízo do mundo contra Cristo revela o caráter pecaminoso do mundo. O espírito do mundo não é amigável para com o espírito de Cristo, e aqueles que estão 'em Cristo' não podem escapar à tensão. Em certas ocasiões a tensão irrompe em atos de violência e antagonismo». (Homrighausen, in loc).
Este versículo pode ser confrontado com I Pe 1:7, onde a «prova da fé» já fora assemelhada ao tratamento dado ao ouro. «Assim como o oleiro ou o ourives ajusta o forno para o vaso de barro ou de ouro, de modo a não ser , quente demais ou frio demais, assim Deus ajusta a provação de acordo com a força do homem e com a graça que lhe confere, não permitindo que seja tentado acima de sua capacidade». (Lange, in loc).
«Deus é retratado como quem controla esse fogo, dirigindo-o para o nobre propósito da purificação. Não pode ser desagradávelaquilo que vem das mãos de um amigo». (Gerhard, in loc).

4:13: mas regozijai-vos por serdes participante das aflições de Cristo; para que também na revelação da sua gloria vos regozijeis o exultei.
«...alegrai-vos...» Não porque o sofrimento não seja motivo de agonia, mas porque nos faz chegar especialmente perto do Senhor, o qual nos estende sua mão de simpatia. (Comparar com Fp 3:10, que diz: «...para, o conhecer... e a comunhão dos seus sofrimentos...»). A idéia de participar dos sofrimentos de Cristo também figura em I Pe 2:21 e Cl 1:24. Não há aqui qualquer pensamento de que os sofrimentos do crente participam da «expiação», que foi efetuada pelos sofrimentos de Cristo. A comunhão dos sofrimentos também é tema que figura em Rm 8:17 e II Co 1:7. Se participarmos dos sofrimentos de Cristo também haveremos de participar de sua glória, obtendo a compensação eterna, conforme esses versículos afirmam.
«É de estranhar quando os crentes não são perseguidos! Quando os cristãos estão seguramente amoldados ao mundo e à sua maneira de viver, não caindo em qualquer dificuldade, bem pode ser isso indicação que degeneraram seu modo de vida, eliminando seu espírito radical, que julga e procura transformar ao mundo. Não mais são os crentes capazes de mostrar quem dentre eles é cristão, quem não o é. Ou talvez o conceito neotestamentário de Cristo foi convenientemente diluído, e até mesmo perdido, mediante a perigosa ignorância da natureza do cristianismo. Cristo não é um adendo útil à vida humana; ele é o centro radical segundo o qual a vida deve ser reconciliada e conformada...» (Homrighausen, in loc).
«...na revelação de sua glória...» Temos aqui alusão à «parousia» ou segundo advento de Cristo. Por toda a parte, no N.T., esse evento é pintado como algo que trará grande glória a Cristo e seus seguidores; e isso é verdade por ser a porta para a glória eterna, aquilo que traz o divino ao humano, o infinito ao finito. O sétimo versículo deste capítulo mostra que Pedro esperava que esse evento ocorresse em breve.
«...vos alegreis exultando...» Pedro nos oferece um quadro elaborado sobre a glória eterna. Trata-se de uma glória exaltada. O vaso da humanidade haverá de ser imerso no oceano da divindade. O vaso não pode conter o oceano, mas o oceano é que o contém. Contudo, o vaso fica cheio até sua capacidade com o oceano. A eternidade, para o crente, é a expansão contínua e infinita do vaso, a fim de ir contendo o oceano em proporções cada vez maiores. Jesus, o Senhor, irá sempre expandindo o espaço de sua habitação, e à medida em que as paredes se alargarem e o teto se elevar, começaremos a compreender o que significa a glória eterna. Em Cristo, o Filho de Deus, somos «filhos de Deus que estão sendo conduzidos à glória». (Ver Hb 2:10).
«Até mesmo agora o crente pode regozijar-se no pensamento que ele é participante dos sofrimentos de seu Senhor; mas a 'exultação' o 'arrebatamento', é algo reservado para a revelação. (Comparar com I Pe 1:6-9). 'Participar dos sofrimentos ' é uma frase que parece subentender que o crente não somente sofre à semelhança de Cristo, mas que seus sofrimentos produzem, guardadas as devidas proporções, os mesmos resultados que produziram em Cristo. O mesmo pensamento... está envolvido em I Pe 3:17 - 4:6». (Bigg, in loc).
«...pois nunca nos devemos olvidar da transição da cruz para a ressurreição». (Calvino, in loc).
«Porque a nossa leve e momentânea tributação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação...» (II Co 4:17).
«Tal crente (o que sofre) pode esperar anelantemente pela recompensa celestial de participar de sua glória, tal como Cristo prometeu por muitas e muitas vezes: Mt 10:38,39; 16:24,25; Lc 9:23,24; Jo 12:26; 14:3; 17:24; Mt 5:12 e Lc 6:22,23». (Lange, in loc).

4:14: Se pelo nome do Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da gloria, o Espírito de Deus.
Essas palavras são um eco do trecho de Mt 5:11: «Bem-aventurados sois quando... vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós...» Talvez Pedro as conhecesse pela tradição oral, por memória, ou talvez devido a algum documento escrito pré-canônico, porque sua epístola foi escrita antes de haver evangelhos escritos, com a única exceção possível do evangelho de Marcos.
«...pelo nome de Cristo...» No livro de Atos vemos que os apóstolos por diversas vezes sofreram «pelo nome» (ver At 5:41; 9:16 e 21:13).
1. Porque eram cristãos, e assim traziam o nome de Cristo;
2. porque a pessoa de Cristo, representada por seu nome, era o tema de suas conversas e o alvo de sua vida diária;
3. porque eles gozavam de identificação mística com Cristo, mediante o Espírito, e assim, naturalmente, os ímpios deste mundo lhes eram hostis.
«... bem-aventurados...» isto é, «felizes», alguém que goza do estado de «bem-estar espiritual». O termo grego é «makarios» («feliz»), que originalmente significa «rico». Era termo usado para indicar o estado «feliz» dos deuses, em contraste com o estado «miserável» dos homens.
«...porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus...» Evidentemente Pedro se referia à «shakinah» ou glória divina do A.T., que representava a presença de Yahweh. Agora Deus desce sobre os discípulos dignos de Cristo, tornando-os sua habitação, e sobre eles derrama o resplendor de sua glória. (Ver Ef 2:20-22). O fato que Deus vem habitar nos crentes tem o propósito de duplicar neles a natureza de Cristo. Ora, essa natureza é gloriosa, pelo que a glória eterna lhes é outorgada assim.
O original grego é aqui um tanto difícil, admitindo duas traduções diferentes, a saber:
1. «O Espírito da glória, sim, o Espírito de Deus», tradução essa que faz com que «glória» e «Deus» se refiram ao Espírito. Por isso explica Bigg (in loc): «Ele é o Espírito que nos capacita a glorificar a Deus mediante o sofrimento. Ele repousa sobre o crente como ashekinah repousava sobre o tabernáculo, dando-lhe uma prelibação(Libar ou gozar com antecipação; provar, antegostar, antegozar)...daquela glória que será plenamente dada quando da revelação».
2. Outros estudiosos pensam que essas palavras significam «O Espírito da Glória e de Deus». Isso nos força a tentar definir a palavra «glória»:
a. Alguns entendem que Cristo é a glória pessoal e revelada de Deus. Nesse caso, o Espírito é retratado como quem revela Cristo ao crente, primeiramente no sofrimento, e então quando de sua revelação,
b. Ou a «glória» pode ter aqui um sentido impessoal, indicando a glória conferida ao crente, o «enchimento divino», a «presença divina». Qualquer dessas duas possibilidades dá um bom sentido. Mas os intérpretes parecem preferir o primeiro caso.
c. A «glória» também poderia indicar a «glorificação» futura do crente, em Cristo, como operação do Espírito Santo.
«...Espírito de Deus...» Variante Textual: As palavras «e de poder» são acrescentadas à palavra «glória» nos mss Aleph, A e em vários outros manuscritos posteriores, como também nos mss latinos a, c, g, k, no Si, no Sai e em alguns dos escritos dos pais da igreja. Entretanto, tais palavras são omitidas dos manuscritos realmente antigos, como P(72|, BK, Psi, 049, 330 e nos escritos de Tertuliano,Efraem, Cirilo e Fulgêncio, pais da igreja. A adição mui provavelmente é um adorno homilético apenas.
«...repousa...» Essa palavra dá a idéia de uma permanência proposital. O Senhor terá encontrado então, nos seres humanos, o seu descanso, pois assim se cumprirá a vontade de Deus relativa à redenção humana. Esse descanso será glorioso, segundo se vê em Is 11:10. No dizer de Mason (in loc): «Expressa o total repouso e a satisfação com que o Espírito da glória repousa sobre os homens que possuem corações de mártires». Notemos que a paciência e as forças para sofrer a perseguição, mantendo a mente na glória que está sendo operada, não surgem naturalmente nos homens. É operação do Espírito Santo, no nível da alma.
A segunda crença: Cremos em muitas doutrinas bíblicas porque elas nos têm sido ensinadas; mas nunca as experimentamos ainda. Quando, mediante a experiência espiritual, aprendemos o que significam, cremos pela segunda vez, dessa vez ao nível da alma. Aqueles que com razão temiam a perseguição e o martírio, ao enfrentarem tal prova, descobriam que, de fato, lhes era dada a força necessária para resistirem. Não precisa o crente de forças para morrer, até que chega o momento decisivo. Naquele momento, ele crê pela segunda vez. Sua alma se satisfaz; o triunfo é obtido.

4:15: Que nenhum de vós, entretanto, padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se entremete em negócios alheios;
A lista é estranha, pois começa pelos piores pecados, como o assassínio e termina com pecados relativamente sem importância, como o de intrometer-se em negócios alheios. Evidentemente Pedro não esperava que crentes chegassem a tornar-se assassinos, sendo então «perseguidos» por isso, e não devido à sua lealdade a Cristo. Provavelmente ele apresenta aqui uma lista representativa de pecados, que poderia causar sofrimentos. Naturalmente, alguns cristãos professam, matam, e até mesmo mestres e membros fiéis da igreja chegam a tornar-se homicidas; mas isso é caso. muito raro.
Pedro coloca o dedo sobre um nervo psicológico. Há pessoas que lançam a culpa de seus sofrimentos por serem leais a Cristo, ao invés de admitirem suas faltas e se arrependerem. Pedro dá a entender que o indivíduo que normalmente é bom e pratica o bem não sofre dano (ver I Pe 3:13); contudo, se vier a sofrer, deve certificar-se que não merece tal castigo, por sua pecaminosidade (ver I Pe 2:20). «Pois, que glória há, se pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência?»
«...assassino...» No grego é «phoneus», «homicida». Essa palavra figura nas listas de vícios, como em Ap 21:8 e 22:15. Está em foco o assassinato literal de alguém, e não o mero «assassínio de caráter». Naturalmente, este também é um pecado muito sério, provocado pela língua caluniadora; e muitos crentes se tornam culpados do mesmo.
«...ladrão...» É possível que certos crentes, que tinham essa mancha de caráter no paganismo, fossem tentados a voltar ocasionalmente a seu antigo vício. Esses certamente criariam problemas para si mesmos, sofrendo legalmente às mãos das autoridades civis. Tais crentes não deveriam ser presunçosos, lançando a culpa do seu sofrimento à sua lealdade a Cristo.
«...malfeitor...» No grego é «kakopoios», cuja raiz verbal é «kakopoieo», «fazer mal», «prejudicar». Trata-se de palavra de sentido bem geral, podendo incluir quaisquer tipos de males praticados; era termo aplicado até mesmo aos «criminosos». Pedro avisa aqui a seus leitores que o estado já estava de vigia, procurando traidores em potencial. Deveriam evitar toda espécie de malfeito, cuidando em obedecer às leis humanas e respeitando os direitos alheios.
«...se intromete em negócio de outrem...» Isso traduz um único terma, grego, «allotrioepiskopos», que tem o sentido simples de «intrometido», pessoa que se mete onde não lhe compete.  Moffatt traduz por «revolucionário» e Julicher por «informante», o que daria a idéia de uma intromissão «política». Nesse caso, Pedro estaria advertindo contra o imiscuir-se(Intrometer-se, ingerir-se: Tomar parte em algo.) na política, contra o aliar-se a algum movimento revolucionários Certamente isso seria fatal para os cristãos primitivos. Porém, o sentido, literal da palavra algumas vezes dá a idéia de «supervisor do que pertence a outros». Portanto, «intrometido» é uma boa tradução. O aviso não parece ser contra o evangelismo por demais zeloso, que ofendia aos pagãos Também não parece indicar «ter profissão ou negócio estranho à profissão cristã»; e nem «cobiçar o dinheiro de outros», significados esses que vários intérpretes têm dado a esse vocábulo grego. Alguns interpretam-no «eclesiasticamente», como se os bispos ou supervisores cristãos que saem de suas províncias e se imiscuem nas províncias de outros, estivessem em foco. Mas dificilmente isso é o que está em foco aqui. Esse vocábulo não tem sido achado fora deste versículo, exceto em obras eclesiásticas posteriores, baseadas no presente texto. Talvez Pedro   tenha cunhado   essa palavra (isto é, Silvano, seu amanuense). Passagens provavelmente paralelas, no N.T., são I Ts 4:11; 5:13; II Ts 3:11, que condenam a maledicência, a intrujice, etc.
«Essa palavra denota aquelas pessoas espiãs e importantes a seus próprios olhos, que imaginam que podem endireitar tudo, e que toda a pessoa com quem se encontram está debaixo de sua jurisdição pessoal. Tais pessoas tendem por tornar o cristianismo impopular entre os incrédulos; e, em caso de perseguição, seriam as primeiras a ser atingidas». (Mason, in loc).

4:16: mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus neste nome.
A mera profissão do cristianismo é vista como um «crime», neste ponto. Por causa disso, alguns eruditos dão a esta epístola uma data tardia, porquanto essa atitude só se tornou «oficial» em cerca de 110 D.C. em diante, conforme sabemos pela correspondência de Plínio com o imperador Trajano. Porém, muito antes de qualquer oposição oficial contra o cristianismo, como se este fosse uma «religião ilícita» (e, portanto, traiçoeira), já era uma desgraça a alguém identificar-se com os «cristãos».
«.. .cristão...» Originalmente, isso era apenas um apelido, que significava «partidário de Cristo». Tornou-se corrente em Antioquia da Síria, pelos meados do primeiro século da era cristã. (Ver At 11:26). Portanto, facilmente poderia ser de uso comum na Ásia Menor quinze anos mais tarde. Assim sendo, nenhuma «data posterior» precisa ser imaginada para esta epístola. Esta palavra figura por três vezes nas páginas do N.T. Pela época de Inácio (início do segundo século), evidentemente essa palavra perdeu sua idéia pejorativa, porquanto seus escritos mostram que era termo comumente usado pelos próprios crentes. O uso que Pedro faz do termo mostra que embora os pagãos o usassem pejorativamente, o título era aceitável pela comunidade cristã, e nenhum crente se sentia envergonhado por ser assim chamado.
«...sofrer...» Palavra geral, que não indica, necessariamente, «sofrer às mãos das autoridades», embora esse sentido também possa ser incluído, porquanto Pedro antecipava um estado de perseguição direta para breve.
«...não se envergonhe disso...» O Senhor crucificado foi desprezado e ridicularizado. Plínio referiu-se ao cristianismo como uma superstição estranha. A crucificação nem ao menos era mencionada na polida sociedade romana; e agora surgia aquele bando de religiosos proclamando um «Senhor crucificado», fazendo dele Salvador divino e universal! Os judeus, por sua parte, simplesmente não podiam ver qualquer valor no conceito do «Messias-Servo Sofredor».
Assim sendo, vemos que houve um «opróbrio» que caiu sobre os aderentes do Senhor Jesus. Algumas vezes escárnios e observações cortantes são mais difíceis de tolerar que as ofensas físicas. Os crentes devem acostumar-se a sofrer de ambos os tipos de ataque.                                                           
As observações ferinas podem chegar ao âmago mesmo da vida da pessoa, pois todos nós anelamos pela aceitação da parte denosso semelhantes. O ridículo cria a solidão, o isolamento, e, algumas vezes, até mesmo o desespero. Mas, nada disso terá valor, contanto que a «shakinah» ou glória de Deus realmente repousa sobre nós—isso nos serve de compensação suficiente.
O próprio Pedro, certa ocasião, se envergonhara de seu Senhor; ficou abalado ante a reprimenda de uma simples criada (ver Mc 14:68). Essa vergonha se tornou pervertida quando ele começou a jurar e a amaldiçoar. Mas, quão diferente estava agora o apóstolo. Não estremecia diante da espada de Nero. À semelhança de Paulo, Pedro não se envergonhava do evangelho de Cristo (ver Rm 1:16).
«...antes, glorifique a Deus com esse nome...» Por toda a parte o N.T. mostra que a glória deve ser dada a Deus por meio de Cristo, porquanto Cristo é o arquétipo de toda a existência humana, o Filho que está sendo duplicado nos filhos de Deus. Assim sendo, é bom que soframos «por seu nome», que pratiquemos o bem em «seu nome», que preguemos a boa mensagem ao mundo perdido «em seu nome», e que sejamos transformados segundo a sua imagem, «por causa do seu nome». Os crentes deveriam usar sua posição e sua reputação de «cristãos» para trazer glória positiva a Deus: mediante a consciência e a paciência debaixo do sofrimento; através das boas obras, que contradizem as zombarias lançadas contra eles. Assim haveriam de exaltar o desprezado nome de Cristo, que alguns pagãos ímpios queriam lançar contra eles. Mediante suas ações, os crentes deveriam retirar o sentido negativo do nome de «cristão». Quando esse nome fosse proferido, deveria dar a idéia de um povo humilde e bom, zeloso de boas obras, altruísta e gentil. Essa «visão» sobre o que quer dizer o «nome de cristão» haveria de ir apagando o sentido negativo que, originalmente, os pagãos lhe tinham conferido. Naturalmente, isso foi exatamente o que aconteceu.
Variante Textual: Ao invés das palavras «sob esse nome» (ou «com esse nome»), os mss KLP e a maioria dos manuscritos minúsculos posteriores, principalmente da tradição bizantina, dizem, «em seu favor», ou que parece referir-se de volta à designação «cristão», ou que pode indicar «em favor de Cristo», «em favor desse homem». Seja como for, essa forma não é a original, pelo que não interesse grandemente o que ela significa. Os mss P(72), Aleph, AB, a maioria das versões e os escritos dos pais da igreja, dizem «nome», que se refere de volta ao nome de «cristão», que servia de marca identificadora doa seguidores do Senhor Jesus.

4:l7: Porque já é tempo que comece o julgamento pala casa de Deus; e se começa por nós, qual será o fim daqueles que desobedecem ao evangelho de Deus?
Duas coisas se destacam nessas palavras concernentes ao julgamento da casa de Deus, a saber:
1. Pedro encarava o juízo como algo que, em parte, purificava, algo de que a igreja precisa, para seu aprimoramento, tal e qual sé dera no caso da nação de Israel. Assim também, no décimo segundo versículo, a prova ardente é a chama da refinação. Isso subentende que a igreja possui impurezas que precisam ser expurgadas. Portanto, a perseguição que surge somente devido à vontade de homens iníquos, também é o açoite de Deus.
2. Além disso, o julgamento que terá lugar na «parousia» ou segundo advento de Cristo, é visto como algo que já tinha tido começo na igreja de Deus, através da perseguição contra os crentes. Assim, pois, é como se Pedro estivesse dizendo: «Se vós, os filhos da família de Deus, tendes de ser sujeitados a tais provações morais, por causa do pecado, quão mais terrível deverá ser a condenação dos adversários de Deus—aquela condenação da qual a sua misericórdia vos salvou!» (Hunter, in loc).
O fato que o julgamento podia ser visto como algo que já tinha começado, na forma de perseguições, mostra-nos que Pedro esperava que a «parousia» ou segunda vinda de Cristo ocorreria para breve, pois esse acontecimento, sem provocar qualquer interrupção, será a continuação do juízo divino.
«...casa de Deus...» Está em foco a igreja cristã, a família composta dos filhos de Deus. A igreja é constituída pela «família» que ocupa a casa; mas também é a própria casa, formada de «pedras vivas». A igreja é o «novo templo» onde Deus manifesta a sua glória. Algumas vezes até a casa de Deus precisa de limpeza, de ser posta em ordem. A perseguição pode preencher essas necessidades. Tal ensino é duro, mas é veraz.
«...qual será o fim...» Pedro queria dizer: «Qual será a natureza do julgamento dos ímpios, se o julgamento dos crentes é tão temível? Certamente será mais temível ainda». Mas o apóstolo não quis dar a entender que não será misturado com a misericórdia, pois nos trechos de I Pe 3:18-20 e 4:6 ele mostra que o juízo será temperado pela misericórdia.
«...não obedecem ao evangelho de Deus...» Consideremos os pontos Seguintes:
1. Não obedecer ao evangelho é, primeiramente, recusar-se a confiar em Cristo; essa é a desobediência primária, porquanto Deus enviou o Salvador para que os homens nele cressem.
2. Porém, as «exigências morais» do evangelho também estão em pauta. O evangelho requer do homem uma revolução moral, uma mudança radical. Isso se reflete na vida diária deles, em seus motivos e em seus alvos na vida. Mas os homens, ao negligenciarem e se oporem ao evangelho, não atendem às suas exigências morais, tornando-se desobedientes ao mesmo. A própria retidão de Deus deve tornar-se a retidão do homem, através da transformação deste segundo a imagem de Cristo (ver Rm 3:21); e sem isso ninguém jamais verá a Deus (ver Hb 12:14). No entanto, os homens se recusam a entregar-se aos cuidados de Cristo, para que na sua imagem sejam transformados—e assim desobedecem ao evangelho.
«...evangelho de Deus...» (Ver Rm 1:1; 15:16; II Co 11:7; I Ts 2:8,9 quanto a outros usos desta expressão). O evangelho são as «boas novas», mediadas por intermédio de Cristo, pelo que normalmente é intitulado «evangelho de Cristo». (Ver Rm 15:19,29; II Co 2:12 e Fp 1:27 quanto a essa expressão. Ver «evangelho de Jesus Cristo», em Mc 1:1; e ver «evangelho da graça de Deus», em At 20:24. O trecho de Rm 1:16 encerra a nota de sumário sobre o «evangelho»). Comparar a mensagem deste versículo com os trechos de Jr 25:15 e ss. e Sf 1 e 2, quanto ao conceito que o «dia do Senhor» virá primeiramente a Jerusalém, e então a outras áreas, em círculos concêntricos cada vez maiores, até abarcar a terra inteira.
Alguns estudiosos viam o juízo à luz da destruição da cidade de Jerusalém, que ocorreu no ano 70 D.C., o que ocorreu pouco depois da presente epístola ter sido escrita. Mas essa interpretação é impossível, pois os judeus não são os únicos que seriam julgados. Antes, todos os homens desobedientes serão julgados; e esse julgamento estava próximo, porquanto já tinha começado pela casa de Deus. Outrossim, o que sucedeu em Jerusalém dificilmente serviu de qualquer ameaça contra os incrédulos (na sua maioria, gentios) que viviam na Ásia Menor. Pode ter havido nisso, entretanto, certo tom profético. O juízo sobrevirá ao mundo, quando da Grande Tribulação, primeiramente atingiria a igreja, na forma de perseguições. Os rabinos ensinavam como uma máxima que quando Deus se prepara para julgar aos ímpios, primeiramente limpa a sua casa. O juízo é uma espada de dois gumes. Primeiramente corta aos retos, e então aos iníquos. Assim também é apresentado o princípio geral no Talmude.

4:18: E se o justo dificilmente se salva, onde comparecerá o ímpio pecador?
Temos aqui uma citação direta extraída de Pv 11:31 (segundo a Septuaginta—tradução do original hebraico do A.T. para o grego, terminada algum tempo antes da era apostólica). A porta é apertada e o caminho é estreito, e não admitem passagem fácil (ver Mt 7:14). Pedro sabia, por experiência pessoal, qual o poder do Maligno, pois ele mesmo teria sido «peneirado» por Satanás, se o próprio Senhor Jesus não tivesse feito intervenção. Contudo, o que é «impossível para os homens é possível para Deus» (ver Lc 18:27); pelo que até mesmo o pior dos pecadores não precisa desesperar-se.                                                                                ,
«Quando ele (Pedro) diz que 'o justo com dificuldade é salvo', alude às dificuldades desta vida, pois nosso curso no mundo é como perigosa viagem marítima, entre muitas tochas, sujeita a muitas tempestades e furacões; e assim ninguém chega ao porto, a não ser que tenha escapado de mil mortes. Nesse ínterim, é certo que seremos guiados pela mão de Deus, não correndo perigo de naufragar enquanto o tivermos como nosso piloto». (Calvino, in loc.).
«...com dificuldade... salvo...» Em que sentido?
1. Por causa das tentações, desastres e perigos que nos esperam no caminho, como também da dificuldade de atingir o porto de descanso, devido a esses percalços. Muitos começam, mas poucos terminam a viagem.
2. Talvez esteja incluída a idéia de «salvo por pouco», ou seja «como que através do fogo», uma salvação mínima, sem grande recompensa, segundo se vê em I Co 3:15; mas a outra idéia é mais central.
3. Não há aqui qualquer indício de que o crente é salvo pelos seus próprios esforços, embora possa deixar de corresponder à graça de Deus, se for conduzido pelas atrações do mundo.
Notemos o contraste dessas palavras com o que se lê em II Pe 1:11: «...desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo». Mas essa entrada ampla só é dada a quem se mostra diligente em fazer «certo seu chamamento e eleição», conforme se lê no versículo anterior. Então é que o crente não fracassará. Essas declarações trazem-nos à mente o problema da «segurança eterna» versus «possibilidade de queda». Mas a «segurança» do crente é absoluta, ou seja, todos aqueles que tiverem confiado em Cristo, embora caiam, serão finalmente trazidos de volta ao Senhor. Essa é a sua promessa.
«...o ímpio...» No grego é «asebes», que significa «homem ímpio», dando a idéia de desprezo a Deus e a tudo quanto lhe pertence. Os perseguidores dos crentes são classificados entre esses.
«...opecador...» O termo grego comum, «amartolos» é aqui usado. Indicava toda a espécie de errados, de malfeitores, de pecadores. O seu sentido básico é «quem erra o alvo»; neste caso, os que erram o alvo da retidão exigida, por Deus. Mas tal vocábulo era freqüentemente usado sem qualquer sentido original. Portanto, estão em foco todos os obreiros da iniqüidade. Estão indicados os adeptos do pecado, dos vícios, o que inclui praticamente todos os homens. Tanto os ímpios como os pecadores «desobedecem ao evangelho de Deus» (ver o décimo sétimo versículo deste capítulo)

4:19: Portanto os que sofrem segundo a vontade de Deus confiem as suas almas ao fiel Criador, praticando o bem.
A viagem só poderá ficar completa e terminar em segurança se o indivíduo entregar sua alma aos cuidados de Cristo, que é a atitude que chamamos de «fé». O castigo de Deus, sofrido parcialmente nas perseguições, não visa afastar-nos dele. Antes, seu propósito é fazer-nos aproximar do Senhor, para nos dedicarmos mais ainda aos interesses do mundo eterno.
«...sofrem segundo a vontade de Deus...», isto é, as perseguições não nos sobrevêm ao acaso, mas antes, tornam-se o fogo purificador do ouro, para que este adquira ainda maior valor; ou o açoite de Deus, em sua casa, leva seus filhos à total obediência. Deus decretou tais sofrimentos. (Ver Hb 12:6 e s. quanto ao tema da necessidade que Deus tem de usar de castigo entre seus filhos. O sexto versículo dessa passagem declara que tudo isso é realizado em «amor», para «benefício» dos «filhos», a fim de que a santidade de Deus possa ser formada neles, e cheguem eles à glória eterna). Assim se sumaria o «motivo dos sofrimentos dos crentes». É medida disciplinadora, e pode ser altamente benéfica quando é sofrida na atitude correta. Nunca sucede por mero acaso; por detrás do sofrimento do crente brilha a «vontade do Pai».
«...encomendem suas almas ao fiel Criador...» Podemos outorgar nossas almas a seu cuidado, porquanto nele se encontra o manancial da vida. Cristo não deu a sua vida sem razão, e certamente não nos deixará sofrer sem razão. Tem um desígnio benigno para tudo isso. Confiemos nele quanto a isso. Visto ele ter-nos dado a vida física, de modo algum nos negará a vida espiritual, que nos capacita entrar na herança eterna. De fato, a criação original teve seu propósito, que foi o de armar o palco para a criação espiritual. Da criação física emergirá a espiritual. A vida se torna «luz», ou seja, «vida iluminada», uma vida de alto nível, uma vida diferente, superior.
O Senhor Jesus nos deixou o exemplo supremo a esse respeito. Nos seus momentos de mais severa tribulação, ao ponto da morte, ele entregou a alma ao Pai, o qual é o Criador. (Ver Lc 23:46).
«...encomendem...» Palavra que significa «entregar como um depósito», para ser guardado em segurança. Trata-se da mesma palavra usada no trecho de Lc 23:46, que acabamos de mencionar. Nos escritos clássicos, era um vocábulo bancário; de outras vezes, indicava um amigo «entregando» a outro algum tesouro, para ser guardado em segurança. «...sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia» (II Tm 1:12).
«...na prática do bem...» Consideremos os pontos seguintes:
1. Essa outorga tem um «sinal» de que é real, de que se busca a vida piedosa. Não basta dizermos com os lábios que a outorga foi feita. A vida diária deve comprovar tal outorga.
2. Outrossim, a vida piedosa é, por si mesma, a outorga presente da alma a Deus, pois disso consiste a «obediência ao evangelho». Um homem não pode viver piedosamente se não tiver entregue sua alma a Cristo. Portanto, a outorga é a garantia de que Deus conservará uma pessoa em segurança.
3. Essa «prática do bem» serve de salvaguarda contra os «desejos carnais» dos ímpios que nos perseguem, e isso é algo desejável (ver Rm 12:17).
4. Também pode ser até mesmo o meio de elevarmos o nome de «Cristo» perante os incrédulos, para que cessem de perseguir-nos (conforme é expressa a esperança, em I Pe 2:13); e também pode tornar-se um meio para a conversão deles (o que talvez esteja subentendido em I Pe 2:15).
«Ainda que nos sobrevenha o pior...» e podeis morrer como mártires, isso será apenas a execução do plano de Deus a vosso respeito. Considerai a vossa vida um depósito: deixai tudo confiadamente em suas mãos, que vos será devolvido no tempo certo: e assim o estareis considerando fiel, como deve ser o Criador». (Mason, in loc).
«Aquele que estiver empregado no trabalho de Deus, gozará da proteção de Deus. A vereda do dever sempre foi e sempre será o caminho da segurança». (Adam Clarke, in-loc).
Este texto ensina-nos que o significado final da vida só pode ser encontrado em Deus. Talvez não soframos, mas temos de enfrentar a morte tão certamente quanto qualquer mártir. Também precisamos entrega nossas almas aos cuidados do Criador benevolente, nosso Pai. Podemos fazer isso agora mesmo, obedecendo ao evangelho, inclusive suas «exigências morais». Aquele que se recusa a isso, não entregou sua alma a Deus. O texto, pois, ensina a suprema necessidade da inquirição espiritual. Somente quando buscamos a sério as realidades espirituais poderemos ter confiança que a alma será protegida e beneficiada por Deus. De outro modo, a declaração do décimo oitavo versículo poderia aplicar-se a nós: «...onde vai comparecer o ímpio, sim, o pecador?» Convém que busquemos a piedade e a fé, por temor de participarmos do destino dos ímpios.
«Ele (Deus) não somente criou originalmente as nossas almas, mas também as recriou em Cristo. E na mesma proporção em que ele é fiel, é de sua bendita vontade terminar em nós a obra iniciada, cumprindo em nós todas as suas promessas. Na qualidade de nosso Criador, ele tem direitos absolutos sobre nós (ver At 4:24). ...Ele é o guardião de nossas almas, em quem devemos confiar acima de tudo (ver Sl 31:6 e Ec 12:7)... Sem sua vontade, nem um cabelo de seus filhos poderá ser danificado». (Lange, m loc).
«Na qualidade de fidelíssimo, ele 'quer' preservar aos crentes; na qualidade de Todo-poderoso, ele 'pode' fazê-lo». (Gerhard, inloc).
A «prática do bem» que garante a proteção do Senhor faz contraste com a «prática do mal», aludido no décimo quinto versículo, contra o que os crentes já tinham sido advertidos, e por causa do que poderiam sofrer às mãos de homens hostis, que desprezavam o nome de «cristão».

Bibliografia        Normam R.   Champlin,   COMENTARIO BIBLICO

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