quinta-feira, 10 de julho de 2014

BIBLIOLOGIA

BIBLIOLOGIA



                                                                 BIBLIOLOGIA
                   Artigo escritor pregador: Mauricio Berwald 
   
A biblia sagrada além de ser a palavra de Deus é a mais sublime obra literária já produzida.Somos constrangidos a concordar com esta expressão.Tudo na biblia é singular;estilo,correção,graça e proposta.Sua singularidade, porém, acha-se no fato de a biblia ser a Palavra de Deus.Que outro livro pode fazer semelhante reinvidicação?Embora produzida no contexto histórico e cultural judaico,ninguém haverá de nega-lhe a universalidade.É  o unico livro contemporraneo de toda a humanidade,sua menssagem não se perde com o tempo.
                                 O QUE É A BIBLIA
Em primeiro lugar buscaremos uma definição etimológica da palavra "BIBLIA'.Em seguida,constataremos o que pensam os liberais, os neo-ortodoxos e os teologicamente conservadores acerca das Escrituras.
 1.DEFINIÇÃO ETIMOLÓGICA.Originaria do grego a palavra "biblia'significa livros ou coleção de pequenos livros,Atribui-se a João Crisostomo a disseminação desse vocábulo.
2.POSIÇÃO LITERAL.Os teologos liberais,contaminados incrédulo e pernicioso não reconhecem a biblia como palavra de Deus.Perdendo-se em especulações,asseveram que ela apenas a contêm,infelizmente, muitos desses mestres e doutores tem-se infiltrado em seminarios dantes conservadores e vêm de maneira sutil, desviando os alunos da verdade.
3.NEO-ORTODOXA.Reagindo contra o liberalismo teolpógico,ensinam os neo-ortodoxos que a biblia torna-se a Palavra de Deus á medida que alguém, ao ler,tem um encontro experiemental com o Senhor.Apesar das aparencias, tal posicionamento fere a santissima fé(judas v.20).A biblia não se torna a palavra de Deus ela é a palavra de Deus.Erram aqueles que afirmam:a biblia fechada é um simples livro,aberta,é a boca de Deus falando".Nda mais errado, aberta ou fechada , a biblia é a palavra de Deus inspirada e inerrante.
4.ORTODOXA.Os ortodoxos afirmam que a biblia é a palavra de Deus.Dessa forma colocas a biblia no lugar em que tem de estar;como a nossa supprema e inquestionavel árbitaria em matéria de fé e pratica.Se a biblia o diz,é a nossa obrigação obedece-la sem quaisquer questionamentos.Ela é soberano.

                         A INSPIRAÇÃO DIVINA DA BIBLIA 
As palavras das Escrituras devem ser consideradas palavra do Espirito Santo".Como não concordar com Henry,basta ler a biblia para sentir, logo em suas palavras iniciais, a presença do Espirito Santo.
1.DEFINIÇÃO ETIMOLÓGICA.A palavra "inspiração" vem do grego de dois vocabulos gregos :"theos" Deus, e "pneustos, sopro.Literalemente significa:aquilo queé dado pelo sopro de Deus. 

2.DEFINIÇÃO TEOLÓGICA."Ação sobrenatural do Espirito Santo sobre os escritores sagrados,que os levou a produzir,de maneira inerrante,infalivel,unica e sobrenatural,a Palavra de Deus.

INSPIRAÇÃO VERBAL E PLENARIA DA BIBLIA.Doutrina que assegura ser a biblia em sua totalidade, produto da inspiração divina.Plenaria;todos os livros da biblia,sem qualquer exceção,foram igualmente inspirados por Deus.VERBAL:o Espirito Santo guiou os autores, não somente quanto as idéias ,mas também quanto ás palavras dos ministérios e concerto do Altissimo.A inspiração plenaria e verbal,todavia, não elimnou a participação dos autores humanos na produção da  biblia.Pelo contrario:foram eles usados de acordo com seus traços personais,experienciase estilos literarios.(2PD1.21).

A INSPIRAÇÃO DA BIBLIA É UNICA.Além da biblia,nenhum outro livro foi produzido de igual forma, a Palavra de Deus é obra prima por excelecia da raça humana.


                                    A INERRANCIA DA BIBLIA

A melhor maneira de se comprrender uma doutrina é buscar´lhe uma definição adequada.Sua conceituação a partir dai,torna-se mais facil e não pecará pela falta de clareza e objetividadde.Vejamos de que forma haremos de definir a doutrina da inerrancia biblica.

DEFINIÇÃO ETIMOLÓGICA.A palavra inerrancia vem do vocabulo latino inerrantia e significa literalmente ,qualidade daquilo que não tem erro.

DEFINIÇÃO TEOLÓGICA.A inerrancia biblica é a doutrina segundo a qual as Sagradas Escrituras não contem  quaisquer erros por serem a inspirada,infalivel e completa a Palavra de Deus(SL119.140).A biblia é inerrante tanto nas informações que nos transmitem como nos proósitos que expóe e nas reinvidicações que apresentam.Sua inerrancia é plena e absoluta.Insenta de erros doutrinarios,culturais e cientificos,inspiranos confiança plena em seu conteúdo(SL19.7).

                                A INFABILIDADE DA BIBLIA

Ao tratar da infabilidade da Palavra de Deus,ousadamente expressou-se  Cari F.Henry "há apenas uma unica coisa realmente inevitavel:é necessario que as Escrituras se cumpram"o que isso significa?simplesmente que a biblia é infalivel.

1.O QUE É INFABILIDADE? É  a qualidade ou virtude do que é infalivel, é algo que jamais poderá falhar.

2.DEFINIÇÃO TEOLÓGICA.Doutrina que ensina ser a biblia infalivel em tudo o que diz.Eis porque a Palavra de Deus pode ser assim considerada:1.Suas promessas são rigirosamente observadas. 2.Suas profecias cumprem-se de forma detalhadas e clara (haja vista as setenta semanas de Daniel.3.O plano de salvação é executado apesar das oposição satanica.Nenhuma de suas palavras jamais caiu,nem cairá,por terra.

3.A BIBLIA DÁ TESTEMUNHO DE SUA INFABILIDADE.Leia com atenção as seguintes passagens (DT 18.22,DN 9.2, MT 1.22,MC 13.31,AT 1.3).

    A SUPREMACIA DA BIBLIA EM MATÉRIA DE FÁ E PRATICA

A autoridade da biblia não provem da capacidade de seus autores humanos,mas do carater de seu Autor'.Foi o que afirmou J.Blanchard.Ora se a autoridade da biblia é absoluta, como haveremos de questionar?Vejamos, em primeiro lugar o que á a autoridade.

1.DEFINIÇÃO ETIMOLÓGICA.Oriunda do vocabulo latino "autoritatem",esta palavra significa:direito absoluto e inquestionavel de se fazer obedecer, de dar ordens,de estabelecer decreto e,de acordo com estes,tomar decisões e agir a fim de que cada decreto seja rigorosamente observado.

2.DEFINIÇÃO TEOLÓGICA.Poder absoluto e inquestionavel reinvindicado,demonstrando e sustentando pela biblia em matéria de fé e prática.Tal autoridade advem-lhe do fato de ser inspirada,inerrante Palavra de Deus.

3.TESTEMUNHO A RESPEITO DE SUA AUTORIDADE.Ler as seguintes passagens:IS 8.20,30.21,1COR 14.37. 

                FALSOS CONCEITOS SOBRE INSPIRAÇÃO DA BIBLIA

A travez do seculos os homens impios tem procurado desmistificar e desvirtuar o ensino claro da inspiração verbal e ´plenaria da biblia,criando teorias e conceitos falsos sobre a mesma analizaremos algumas:
1.Teoria da inspiração parcial.Afirmam que somente algumas ´partes da biblia são inspiradas,e outras não.A biblia cont~em a Palavra de Deus.Com está premissa sutil,desvirtuam totalmente o sentido inspirativo da biblia.
2.Teoria da inspiração natural.Afirmam que os escritores dos livros sagrados eram superdotados de intelectualidade,eram"genios".Logo as escrituras foram de uma mente racional e prodigiosa.
3.Teoria do ditado verbal.Afirmam que as Escrituras foram ditadas palavra por palavra.
4.Teoria da inspiração das idéias.Afirmam que Deus inspirou as idéias.As palavras usadas ficaram na inteira responssabilidade dos escritores.

Temos visto que a biblia foi escrita debaixo de uma influencia poderosa que o Espirito Santo exerceu sobre os escritores sagrados com intuito de revelar a Deus e Seu plano de salvação,vindo a se tornar a infalivel palavra de Deus,digna de toda confiança.Aceite que a biblia exatamente o que parece ser,indenpendente de qualquer teoria da inspiração, ou de qualquer teoria como os livros da biblia chegaram a sua forma atual,ou de quanto os textos possam ter sofrido passando pelas mãos dos redatores e copistas, ou o que´e histórico e o que possa ser poético.Aceite os livros como temas na biblia,como unidades,e estude-os a fim de conhecer o seu conteudo.Voc~e verá que há uma unidade de penssamento indicando que uma Mente unica inspirou a escrita de todas os livros que a biblia revela a marca do SEU autor, que é em toda sentido a Palavra de Deus. 


Ortodoxia: a Bíblia é a Palavra de Deus




                      TEORIAS DA INSPIRAÇÃO DA BIBLIA

Por cerca de 18 séculos de história da igreja, prevaleceu a opinião ortodoxa da inspiração divina. Os pais da igreja, em geral, com raras manifestações menos importantes em contrário, ensinaram firmemente que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita. Teólogos ortodoxos ao longo dos séculos vêm ensinando, todos de comum acordo, que a Bíblia foi inspirada verbalmente, i.e., é o registro escrito por inspiração de Deus. No entanto, tem havido tentativas de procurar explicação para o fato de o registro escrito ser a Palavra de Deus ao mesmo tempo que o Livro obviamente foi composto por autores humanos, dotados de estilos pessoais diferentes uns dos outros; essas tentativas conduziram os estudiosos ortodoxos a duas opiniões divergentes. Alguns abraçaram a idéia do “ditado verbal”, afirmando que os autores humanos da Bíblia registraram apenas o que Deus lhes havia ditado, palavra por palavra. De outro lado, estão os estudiosos que preferiam a teoria do “conceito inspirado”, segundo a qual Deus só concedeu aos autores pensamentos inspirados, e os autores tiveram liberdade de revesti-los com palavras próprias.

Ditado verbal.

 Na obra de John R. Rice, Our God-breathed book — the Bible [Nosso livro soprado por Deus — a Bíblia),[1] encontramos uma apresentação clara e bem ordenada do ditado verbal. O autor descarta a idéia de que o ditado verbal seja mecânico, sustentando que Deus ditou sua Palavra mediante a personalidade do autor humano. É que Deus, por sua atuação especial e providência, foi quem formou as personalidades sobre as quais posteriormente o Espírito Santo haveria de soprar seu ditado palavra por palavra. Assim, argumenta Rice, Deus havia preparado de antemão os estilos particulares que ele próprio desejava, a fim de produzir as palavras exatas, ao usar estilos e vocabulários predeterminados, encontráveis nos diferentes autores humanos.

.O resultado final, então, foi um ditado palavra por palavra da parte de Deus, as Escrituras Sagradas.

Conceitos inspirados.

 Em sua Systematic theology [Teologia sistemática], A. H. Strong apresenta uma visão que vem sendo denominada inspiração conceitual.[2] Deus teria inspirado apenas os conceitos, não as expressões literárias particulares com que cada autor concebeu seus textos. Deus teria dado seus pensamentos aos profetas, que tiveram toda a liberdade de exprimi-los em seus termos humanos. Dessa maneira, Strong esperava evitar quaisquer implicações mecanicistas derivadas do ditado verbal e ainda preservar a origem divina das Escrituras. Deus concedeu a inspiração conceitual, e os homens de Deus forneceram a expressão verbal característica de seus estilos próprios.



            Modernismo: a Bíblia contêm a Palavra de Deus




Ao surgir o idealismo germânico e a crítica da Bíblia (v. cap. 14), surgiu também uma nova visão evoluída da inspiração bíblica, a par do modernismo ou liberalismo teológico. Opondo-se à opinião ortodoxa tradicional de que a Bíblia é a Palavra de Deus, os modernistas ensinam que a Bíblia meramente contém a Palavra de Deus. Certas partes dela são divinas, expressam a verdade, mas outras são obviamente humanas e apresentam erros. Tais autores acham que a Bíblia foi vítima de sua época, exatamente como acontece a quaisquer outros livros. Afirmam que ela teria incorporado muito das lendas, dos mitos e das falsas crenças relacionadas à ciência. Sustentam então que, pelo fato de esses elementos não terem sido inspirados por Deus, devem ser rejeitados pelos homens iluminados de hoje; tais erros seriam resquícios de uma mentalidade primitiva indigna de fazer parte do credo cristão. Só as verdades divinas, entremeadas nessa mistura de ignorância antiga e erro grosseiro, é que de facto teriam sido inspiradas por Deus

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Conceito da iluminação.



 Defendem alguns estudiosos que as “partes inspiradas” da Bíblia resultam de uma espécie de iluminação divina, Mediante a qual Deus teria concedido uma profunda percepção religiosa a alguns homens piedosos. Tais percepções teriam sido usufruídas com diferentes gradações de compreensão, tendo sido registradas com mistura de idéias religiosas errôneas e crendices da ciência, comuns naqueles dias. Daí resultaria um livro, a Bíblia, que expressa vários graus de inspiração, dependendo da profundidade da iluminação religiosa experimentada por qualquer dos autores.



O conceito da intuição.



 Na outra extremidade da visão modernista estão os estudiosos que negam totalmente a existência de algum elemento divinos na composição da Bíblia. Para eles a Bíblia não passa de um caderno de rascunho em que os judeus registravam suas lendas, histórias, poemas etc., sem nenhum valor histórico.[3] O que alguns denominam inspiração divina não seria outra coisa senão intensa intuição humana. Dentro desse folclore judaico a que se deu o nome de Bíblia, encontram-se alguns exemplos significativos de elevada moral e de gênio religioso. Todavia, essas percepções espirituais são puramente naturalistas. Em absolutamente nada, passam de intuição humana; não existiria inspiração sobrenatural, tampouco iluminação.



           Neo-Ortodoxia: a Bíblia torna-se a Palavra de Deus




No início do século xx, a reviravolta nos acontecimentos mundiais e a influência do pai dinamarquês do existencialismo, Soren Kierkegaard, deram origem a uma nova reforma na teologia européia. Muitos estudiosos começaram a voltar-se de novo para as Escrituras, a fim de ouvir nelas a voz de Deus. Sem abrir mão de suas opiniões críticas a respeito da Bíblia, começaram a levar a Bíblia a sério, por ser a fonte da revelação de Deus aos homens. Criando um novo tipo de ortodoxia, afirmavam que Deus fala aos homens mediante a Bíblia; as Escriturastornam-se a Palavra de Deus num encontro pessoal entre Deus e o homem.

À semelhança das outras teorias a respeito da inspiração da Bíblia, a neo-ortodoxia desenvolveu duas correntes.Na extremidade mais importante estavam os demitizadores, que negam todo e qualquer conteúdo religioso importante, factual ou histórico, nas páginas da Bíblia, e crêem apenas na preocupação religiosa existencial sobre a qual medram os mitos. Na outra extremidade, os pensadores de tendência mais evangélica tentam preservar a maior parte dos dados factuais e históricos das Escrituras, mas sustentam que a Bíblia de modo algum é revelação de Deus. Antes, Deus se revela na Bíblia nos encontros pessoais; não, porém, de maneira proposicional.

Visão demitizante. Rudolf Bultmann e Shubert Ogden são representantes característicos da visão demitizante. Ambos diferem entre si, uma vez que Ogden não vê nenhum cerne histórico que dê consistência aos mitos da Bíblia, embora Bultmann consiga enxergar isso. Ambos concordam em que a Bíblia foi escrita em linguagem mitológica, a da época de seus autores, época já passada e obsoleta. A tarefa do cristão moderno é demitizar a Bíblia, ou seja, despi-la de seus trajes lendários, mitológicos, e descobrir o conhecimento existencial a ela subjacente. Afirma Bultmann que, a partir do momento que a Bíblia é despida desses mitos religiosos, a pessoa encontra a verdadeira mensagem do amor sacrificial de Deus em Cristo. Não é necessário que a pessoa se prenda a uma revelação objetiva, histórica e proposicional, a fim de experimentar essa verdade pessoal e subjetiva. Daí decorre que a Bíblia torna-se a revelação de Deus aos homens, mediante uma interpretação adequada (i.e., demitizada), quando a pessoa depara com o amor absoluto, exposto no mito do amoraltruísta de Deus em Cristo. Por isso, a Bíblia em si mesma não é revelação alguma; é apenas uma expressão primitiva, mitológica, mediante a qual Deus se revela pessoalmente, desde que demitizado da maneira correta.



Encontro pessoal.



 A outra corrente da neo-ortodoxia, representada por Karl Barth e Emil Brunner, nutre uma visão mais ortodoxa das Escrituras. Barth reconhece que existem algumas imperfeições no registro escrito (até mesmo nos autógrafos) e, no entanto, afirma que a Bíblia é a fonte da revelação de Deus.[4] Afirma ele que Deus nos fala mediante a Bíblia-que ela é o veículo de sua revelação. Assim como um cão ouve a voz de seu dono, gravada de modo imperfeito na gravação de uma fita ou disco, assim também o cristão pode ouvir a voz de Deus que ressoa nas Escrituras. Afirma Brunner que a revelação de Deus não é proposicional (i.e., feita por meio de palavras).[5] Assim, a Bíblia, como se nos apresenta deixa de ser uma revelação de Deus, passando a ser mero registro da revelação pessoal de Deus aos homens de Deus em eras passadas.

Todavia, sempre que o homem moderno se encontra com Deus, mediante as Escrituras Sagradas, a Bíblia torna-se a Palavra de Deus para nós. Em contraposição à visão ortodoxa, para os teólogos neo-ortodoxos a Bíblia não seria um registro inspirado. Antes, é um registro imperfeito, que apesar dessa mesma imperfeição, constitui o testemunho singular da revelação de Deus. Quando Deus surge no registro escrito, de maneira pessoal, a fim de falar ao leitor, a Bíblia nesse momentotorna-se a Palavra de Deus para esse leitor.



                O ensino bíblico a respeito da inspiração


Muitas objeções têm sido levantadas contra as várias teorias da inspiração, as quais partem de diferentes concepções, tendo variados graus de legitimidade, dependentemente do ângulo de observação da pessoa que as formula. Visto que o objetivo deste estudo é levar o leitor a compreender o caráter da Bíblia, o critério analítico que escolhemos visa a avaliar todas essas teorias, levando em consideração o que as Escrituras revelam a respeito de sua própria inspiração. Comecemos com o que a Bíblia ensina formalmente sobre essa questão e, depois, examinemos o que se acha logicamente implícito nesse ensino.



         O que a própria Bíblia ensina a respeito de sua inspiração


No capítulo anterior examinamos de modo genérico o ensino de dois grandes textos do Novo Testamento a respeito da inspiração (2Tm 3.16 e 2Pe 1.21). A Bíblia declara ser um livro dotado de autoridade divina, resultante de um processo pelo qual homens movidos pelo Espírito Santo escreveram textos inspirados (soprados) por Deus. Vamos agora examinar em minúcias o que significa essa declaração.



A inspiração é verbal.



 Independentemente de outras afirmações que possam ser formuladas a respeito da Bíblia, fica bem claro que esse livro reivindica para si mesmo esta qualidade: a inspiração verbal. O texto clássico de 2Timóteo 3.16 declara que as graphã, i.e., os textos, é que são inspiradas. “Moisés escreveu todas as palavras do Senhor…” (Êx 24.4). O Senhor ordenou a Isaías que escrevesse num livro a mensagem eterna de Deus (Is 30.8). Davi confessou: “O Espírito do Senhor fala por mim, e a sua palavra está na minha boca” (2Sm 23.2). Era apalavra do Senhor que chegava aos profetas nos tempos do Antigo Testamento. Jeremias recebeu esta ordem: “… não te esqueças de nenhuma palavra” (Jr 26.2).

No Novo Testamento, Jesus e seus apóstolos ressaltaram a revelação registrada ao usar repetidamente a expressão “está escrito” (v. Mt 4.4,7; Lc 24.27,44). O apóstolo Paulo testemunhou: “… falamos, não com palavrasde sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina…” (1Co 2.13). João nos adverte quanto a não “tirar quaisquer palavras do livro desta profecia” (Ap 22.19). As Escrituras (i.e., os escritos) do Antigo Testamento são continuamente mencionadas como Palavra de Deus. No célebre sermão da montanha, Jesus declarou que não só as palavras, mas até mesmo os pequeninos sinais diacríticos de uma palavra hebraica vieram de Deus: “Em verdade vos digo que até que a terra e o céu passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mt 5.18). Portanto, o que quer que se diga como teoria a respeito da inspiração das Escrituras, fica bem claro que a Bíblia reivindica para si mesma toda a autoridade verbal ou escrita. Diz a Bíblia que suas palavras vieram da parte de Deus.



A inspiração é plena. 

A Bíblia reivindica a inspiração divina de todas as suas partes. É inspiração plena, total, absoluta. “Toda Escritura é divinamente inspirada…” (2Tm 3.16). Nenhuma parte das Escrituras deixou de receber total autoridade doutrinária. A Escritura toda (i.e., o Antigo Testamento integralmente), escreveu Paulo, “édivinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça” (2Tm 3.16). E foi além, ao escrever: “… tudo o que outrora foi escrito, para o nosso ensino foi escrito” (Rm 15.4). Jesus e todos os autores do Novo Testamento exemplificam amplamente sua crença firme na inspiração integral e completa do Antigo Testamento, citando trechos de todas as Escrituras que eram para eles de autoridade, até mesmo os que apresentam ensinos fortemente polêmicos. A criação de Adão e de Eva, a destruição do mundo pelo dilúvio, o milagre de Jonas e o grande peixe e muitos outros acontecimentos são mencionados por Jesus deixando bem clara a autoridade deles (v. cap. 3). Todo trecho das Sagradas Escrituras reivindica total e completa autoridade. A inspiração da Bíblia é plena.

É claro que a inspiração plena estende-se apenas aos ensinos dos autógrafos, como já afirmamos (cap. 1). Todavia, tudo quanto a Bíblia ensina, quer no Antigo, quer no Novo Testamento, é integralmente dotado de autoridade divina. Nenhum ensino das Escrituras deixou de ter origem divina. O próprio Deus inspirou as palavras usadas para exprimir os ensinos proféticos. Repitamos: a inspiração é plena, a saber, completa e integral, abrangendo todas as partes da Bíblia.



A inspiração atribui autoridade.



Fica, pois, saliente o fato de que a inspiração concede autoridade indiscutível ao texto ou documento escrito. Disse Jesus: “… a Escritura não pode ser anulada…” (Jo 10.35). Em numerosas ocasiões o Senhor recorreu à Palavra de Deus escrita, que ele considerava árbitro definitivo em questões de fé e de prática. O Senhor recorreu às Escrituras como a autoridade para ele purificar o templo (Mc 11.17), para pôr em cheque a tradição dos fariseus (Mt 15.3,4) e para resolver divergências doutrinárias (Mt 22.29). Até mesmo Satanás foi repreendido por Cristo mediante a autoridade da Palavra escrita de Deus: “Está escrito [...] Está escrito [...] Está escrito…”. Jesus contra-atacou as tentações de Satanás com a Palavra de Deus escrita (Mt 4.4,7,10).

Algumas vezes, Jesus declarou o seguinte: “… era necessário que se cumprisse tudo o que de mim estava escritona lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44). Todavia, é em outra declaração de Jesus que encontramos apoio ainda mais forte do Senhor à autoridade inquestionável das Escrituras: “É mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da lei” (Lc 16.17). A Palavra de Deus não pode ser anulada. Provém de Deus e está envolta na autoridade divina que o próprio Deus lhe concedeu.



            Implicações da doutrina bíblica da Inspiração




Há certos fatos que, embora não formalmente apresentados na doutrina da inspiração, acham-se implícitos. Vamos tratar aqui de três deles: a igualdade entre o Antigo e o Novo Testamento, a variedade da expressão literária e a inerrância do texto.



A inspiração diz respeito igualmente ao Antigo e ao Novo Testamento.



 A maioria das passagens citadas acima a respeito da natureza plena da inspiração refere-se diretamente ao Antigo Testamento. Com base em que, então, podem aplicar-se (por extensão) ao Novo Testamento? A resposta a essa pergunta é que o Novo Testamento, à semelhança do Antigo, reivindica a virtude de ser Escritura Sagrada, escrito profético, e toda a Escritura e todos os escritos proféticos devem ser considerados inspirados por Deus.

De acordo com 2Timóteo 3.16, toda a Escritura é inspirada. Ainda que a referência explícita, aqui, refira-se ao Antigo Testamento, é verdade que o Novo Testamento também deve ser considerado Escritura Sagrada. Pedro, por exemplo, classifica as cartas de Paulo como parte das “outras Escrituras” do Antigo Testamento (2Pe 3.16). Em 1Timóteo 5.16, Paulo cita o evangelho de Lucas (10.7), referindo-se a ele como “Escritura”. Tal fato é mais significativo ainda quando consideramos que nem Lucas, nem Paulo fizeram parte do grupo dos doze apóstolos. Visto que as cartas de Paulo e os escritos de Lucas (Lucas e Atos; v. At 1.1, Lc 1.1-4) foram classificados como Escritura Sagrada, por implicação direta o resto do Novo Testamento, escrito pelos apóstolos, também é considerado Escritura Sagrada. Em suma, se “toda Escritura é divinamente inspirada” e o Novo Testamento é considerado Escritura, decorre disso claramente que o Novo Testamento é encarado com a mesma autoridade do Antigo. Na verdade, é exatamente assim que os cristãos, desde o tempo dos apóstolos, têm considerado o Novo Testamento. Eles o consideravam com a mesma autoridade do Antigo Testamento.

Além disso, de acordo com 2Pedro 1.20,21, todas as mensagens escritas de natureza profética foram dadas ou inspiradas por Deus. E, visto que o Novo Testamento reivindica a natureza de mensagem profética, segue-se que ele também reclama autoridade igual à dos escritos proféticos do Antigo Testamento. João, por exemplo, refere-se ao livro do Apocalipse da seguinte forma: “palavras da profecia deste livro” (Ap 22.18). Paulo afirmou que a igreja estava edificada sobre o alicerce dos apóstolos e profetas do Novo Testamento (Ef 2.20; 3.5). Visto que o Novo Testamento, à semelhança do Antigo, é um texto dos profetas de Deus, ele possui por essa razão a mesma autoridade dos textos inspirados do Antigo Testamento.



       A inspiração abarca uma variedade de fontes e de gêneros literários.



 O fato de a inspiração ser verbal, ou escrita, não exclui o uso de documentos literários e de gêneros literários diferentes entre si. As Escrituras Sagradas não foram ditadas palavra por palavra, no sentido comum que se atribui ao verbo ditar. Na verdade, há certos trechos menores da Bíblia, como, por exemplo, os Dez Mandamentos, que Deus outorgou diretamente ao homem (v. Dt 4.10), mas em parte alguma está escrito ou fica implícito que a Bíblia é resultante de um ditado palavra por palavra. Os autores das Sagradas Escrituras eram escritores e compositores, não meros secretários, amanuenses ou estenógrafos.

Há vários fatores que contribuíram para a formação das Escrituras Sagradas e dão forte apoio a essa afirmativa. Em primeiro lugar, existe uma diferença marcante de vocabulário e de estilo de um escritor para outro. Comparem-se as poderosas expressões literárias de Isaías com os tons lamurientos de Jeremias. Compare-se a construção literária de suma complexidade, encontrada em Hebreus, com o estilo simples de João. Distinguimos facilmente a linguagem técnica de Lucas, o médico amado, da linguagem de Tiago, formada de imagens pastorais.

Em segundo lugar, a Bíblia faz uso de documentos não-bíblicos, como o Livro de Jasar (Js 10.13; 2Sm 1.18), o livro de Enoque (Jd 14) e até o poeta Epimênedes (At 17.28). Somos informados de que muitos dos provérbios de Salomão haviam sido editados pelos homens de Ezequias (Pv 25.1). Lucas reconhece o uso de muitas fontes escritas sobre a vida de Jesus, na composição de seu próprio evangelho (Lc 1.1-4).

Em terceiro lugar, os autores bíblicos empregavam vasta variedade de gêneros literários; tal fato não caracteriza um ditado monótono em que as palavras são pronunciadas uma após a outra, segundo o mesmo padrão. Grande parte das Escrituras é formada de poesia (e.g., Jó, Salmos, Provérbios). Os evangelhos contêm muitas parábolas. Jesus empregava a sátira (v. Mt 19.24), Paulo usava alegorias (Gl 4) e até hipérboles (Cl 1.23), ao passo que Tiago gostava de usar metáforas e símiles.

Por fim, a Bíblia usa a linguagem simples do senso comum, do dia-a-dia, que salienta a ocorrência de um acontecimento, não a linguagem de fundamento científico. Isso não significa que os autores usassem linguagem anticientífica ou negadora da ciência, e sim linguagem popular para descrever fenômenos científicos. Não é mais anticientífico afirmar que o sol permaneceu parado (Js 10.12) do que dizer que o sol nasceu ou subiu (Js 1.15). Dizer que a rainha de Sabá veio “dos confins da terra” ou que as pessoas no Pentecostes vieram “de todas as nações debaixo do céu” não é dizer coisas com exatidão científica. Os autores usaram formas comuns, gramaticais de expressar seu pensamento sobre os assuntos.

Por isso, o que quer que fique implícito na doutrina dos escritos inspirados, os dados das Escrituras mostram com clareza que elas incluem o emprego de grande variedade de fontes literárias e de estilos de expressão. Nem todas as mensagens vieram diretamente de Deus, mediante ditado. Tampouco foram expressas de modo uniforme e literal. É preciso que se entenda a inspiração da perspectiva histórica e gramatical. A inspiração não pode ser entendida como um ditado uniforme, ainda que divino, que exclua os recursos, a personalidade e as variadas formas humanas de expressão.



                      Inspiração pressupõe inerrância.



Bíblia não só é inspirada; é também, por causa de sua inspiração, inerrante, i.e., não contém erro. Tudo quanto Deus declara é verdade isenta de erro. Com efeito, as Escrituras afirmam ser a declaração (aliás, as próprias palavras) de Deus. Nada do que a Bíblia ensina contém erro, visto que a inerrância é conseqüência lógica da inspiração divina. Deus não pode mentir (Hb 6.18); sua Palavra é a verdade (Jo 17.17). Por isso, seja qual for o assunto sobre o qual a Bíblia diga alguma coisa, ela só dirá a verdade. Não existem erros históricos nem científicos nos ensinos das Escrituras. Tudo quanto a Bíblia ensina vem de Deus e, por isso, não tem a mácula do erro.

Não é possível refugir às implicações da inerrância factual com a declaração de que a Bíblia nada tem para dizer a respeito de assuntos factuais ou históricos. Grande parte da Bíblia apresenta-se como história. Bastam as tediosas genealogias para atestar essa realidade. Alguns dos maiores ensinos da Bíblia, como a criação, o nascimento virginal de Cristo, a crucificação e a ressurreição corpórea, claramente pressupõem matérias factuais. Não existem meios de “espiritualizar” a natureza factual e histórica dessas verdades bíblicas, sem praticar violência terrível contra a análise honesta do texto, da perspectiva cultural e gramatical.

A Bíblia não é um compêndio de Ciências, mas, quando trata de assuntos científicos em seu ensino, o faz sem cometer erro. A Bíblia não é um compêndio de História, mas, sempre que a história secular se cruza com a história sagrada em suas páginas, a Bíblia faz referência a ela sem cometer erro. Se a Bíblia não fosse inerrante e não estivesse certa nas questões factuais, empíricas, comprováveis, de que maneira seria possível confiar nela em questões espirituais, não sujeitas a testes? Como disse Jesus a Nicodemos: “Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?” (Jo 3.12)
notas.

[1] Murfreesboro, Sword of tht Lord, 1969

[2] Grand Rapids, Revell, 1907

[3] Henrik W. van Loon, Story of the Bible, Garden City, Garden City, 1941, p. 227

[4] Doctrine of the Word of God, Naperville, Allenson, 1956, v. 1 (Church dogmatics), p.592-5.

[5] Theology of crisis New York, Scribner, 1929, p, 41

Extraído do livro  Introdução Bíblica, Norman L. Geisler & William E. Nix





   O Antigo Testamento na qualidade de texto profético




O profeta era o porta-voz de Deus. As funções do profeta ficam esclarecidas nas várias menções que a ele se fazem. O profeta era chamado homem de Deus (1Rs 12.22), o que revela ser ele escolhido por Deus; era chamado servo do Senhor (1Rs 14.18), o que mostra sua ocupação; mensageiro do Senhor (Is 42.19), o que assinala sua missão a serviço de Deus; vidente (Is 30.10), o que revela a fonte apocalíptica de sua verdade; homem do Espírito (Os 9.7), o que demonstra quem o levava a falar; atalaia (Ez 3.17), o que manifesta sua prontidão em realizar a obra de Deus. Acima de todas as designações, entretanto, sobressai a de “profeta”, ou seja, o porta-voz de Deus.

Em razão do próprio chamado, o profeta era alguém que se sentia como Amos — “Falou o Senhor Deus, quem não profetizará?” (Am 3.8)— ou como outro profeta, que disse: “… eu não poderia desobedecer à ordem do Senhor meu Deus, para fazer coisa pequena ou grande” (Nm 22.18). Assim como Arão havia sido profeta ou porta-voz de Moisés (Êx 7.1), pois deveria falar “todas as palavras que o Senhor havia dito a Moisés” (Êx 4.30), assim também os profetas de Deus deveriam falar somente aquilo que o Senhor lhes ordenasse. Assim dissera Deus aos profetas: “Porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18.18). Além disso: “Nada acrescentareis ao que vos ordeno, e nada diminuireis” (Dt 4.2). Em suma, profeta era aquele que dava a saber o que Deus lhe havia revelado.

Os falsos profetas eram identificados graças às suas profecias falsas e pela falta de confirmação miraculosa. Assim declara o livro de Deuteronômio: “Quando o tal profeta falar em nome do Senhor, e o que disse não acontecer nem se realizar, essa palavra não procede do Senhor” (Dt 18.22). Sempre que se punha em dúvida um profeta ou se exigia sua confirmação, Deus deixava claro, por meio de milagres, a quem havia chamado. A terra se fendeu e tragou a Core e aos demais que contestaram a vocação de Moisés (Nm 26.10). Elias foi exaltado sobre os profetas de Baal, quando estes pereceram no fogo caído do céu (1Rs 18.38). Até mesmo os magos do Egito reconheceram os milagres divinos realizados por meio de Moisés, quando disseram: “… Isto é o dedo de Deus…” (Êx 8.19).

Sempre ficou bem claro na função do profeta de Deus que o que dizia era palavra da parte de Deus. Veremos, pois, que as passagens do Antigo Testamento eram consideradas declarações proféticas. Há várias maneiras de comprovarmos tal enunciado.

As declarações proféticas eram escritas. Muitas declarações proféticas eram transmitidas oralmente, mas interessa-nos aqui o fato de que muitas delas eram registradas, sendo esses registros considerados declarações do próprio Deus. Não há a menor dúvida de que as palavras escritas de Moisés fossem consideradas dotadas de autoridade divina. “Não se aparte da tua boca o livro desta lei” (Js l.8) foi a exortação aos filhos de Israel.

Josué, sucessor de Moisés, também “escreveu estas palavras no livro da lei de Deus” (Js 24.26).    Quando o rei queimou a primeira mensagem escrita que Jeremias lhe enviara, o Senhor ordenou ao seu profeta: “Toma ainda outro rolo, e escreve nele todas as palavras que estavam no primeiro rolo” (Jr 36.28). O profeta Isaías recebeu esta ordem: “Toma um grande rolo, e escreve nele” (Is 8.1). De modo semelhante, Habacuque recebeu esta ordem da parte de Deus: “Escreve a visão, e torna-a bem legível sobre tábuas, para que aquele que a ler, corra com ela” (Hc 2:2).

Os profetas posteriores usavam os escritos dos profetas que os antecederam considerando-os Palavra de Deus escrita. Daniel ficou sabendo que o exílio babilônico de seu povo estava chegando ao fim ao ler a profecia de Jeremias. Assim escreveu o profeta Daniel: “Eu, Daniel, entendi pelos livros que o número de anos, de que falou o Senhor ao profeta Jeremias…” (Dn 9.2).

Os escritores do Antigo Testamento eram profetas. Todos os autores tradicionais do Antigo Testamento são denominados profetas, seja como título, seja como função. Nem todos eram profetas por ter estudado para isso, mas todos possuíam o dom da profecia. Assim confessou Amos: “… Eu não era profeta, nem filho de profeta [...]. Mas o Senhor [...] me disse: Vai, profetiza ao meu povo Israel” (Am 7.14,15). Davi, a quem se atribui a criação de quase metade dos salmos, exercia a função de rei. No entanto, assim testificou esse rei: “O Espírito do Senhor fala por mim, e a sua palavra está na minha boca” (2Sm 23.2). O Novo Testamento acertadamente o denomina profeta (At 2.30). De modo semelhante, o rei Salomão, autor dos livros de Cântico dos Cânticos, Provérbios e Eclesiastes, teve visões da parte do Senhor (1Rs 11.9). De acordo com Números 12.6, as visões eram um meio de Deus mostrar ao povo quem eram seus profetas. Embora Daniel fosse estadista, o próprio Senhor Jesus o denominou profeta (Mt 24.15).

Moisés, o grande legislador e libertador de Israel, é denominado profeta (Dt 18.15; Os 12.13). Josué, sucessor de Moisés, era considerado profeta de Deus (Dt 34:9). Samuel, Nata e Gade foram profetas que escreveram (1Cr 29.29), da mesma forma que Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores.

Manteve-se um registro oficial dos escritos proféticos. Comprovadamente não há registros de escritos não-proféticos conservados a par da compilação sagrada, que teve início com a lei de Moisés. Parece que houve continuidade de profetas, e cada um acrescentava seu próprio livro aos escritos proféticos anteriores. Moisés guardou seus livros ao lado da arca.

A respeito de Josué está escrito que acrescentou seu livro à compilação existente (Js 24.26). Seguindo-lhe os passos, Samuel acrescentou suas palavras à compilação profética, pois a seu respeito está escrito: “E escreveu-O num livro, e o pôs perante o Senhor” (1Sm 10.25).

Samuel fundou uma escola de profetas (1Sm 19.20), cujos alunos mais tarde se chamariam “filhos dos profetas” (2Rs 2.3). Existem inúmeros testemunhos nos livros dás Crônicas segundo os quais os profetas guardavam com cuidado as histórias. A história de Davi havia sido escrita pelos profetas Samuel, Nata e Gade (1Cr 29.29). A história de Salomão foi registrada por Natã, Aías e Ido (2Cr 9.29). O mesmo aconteceu no caso das histórias de Roboão, de Josafá, de Ezequias, de Manasses e de outros reis (v. 2Cr 9.29; 12.15; 13.22; 20.34; 33.19; 35.27).

Na época do exílio babilônico, no século VI a.C, Daniel se referiu à compilação de escritos proféticos dando-lhe o nome de “livros” (Dn 9.2). De acordo com Ezequiel (13.9), havia um registro oficial dos verdadeiros profetas de Deus. Todo aquele que transmitisse profecias falsas era excluído do rol oficial. Só os verdadeiros profetas de Deus eram oficialmente reconhecidos, e só os escritos desses profetas eram guardados ao lado dos escritos inspirados. Desde os tempos mais remotos de que temos registro, todos os 39 livros do Antigo Testamento já compunham esse acervo de escritos proféticos. Voltaremos a esse assunto posteriormente (v. caps. 7 e 8).



Reivindicações específicas do Antigo Testamento a favor de sua inspiração


A inspiração do Antigo Testamento não se baseia meramente numa análise genérica dessa parte da Bíblia como escrito profético. Há numerosas reivindicações, nas páginas de cada livro, especificamente sobre sua origem divina. Examinemos tais reivindicações de acordo com a divisão aceita atualmente dos livros do Antigo Testamento em lei, profetas e escritos.

A inspiração da lei de Moisés. De acordo com Êxodo 20.1: “Então falou Deus todas estas palavras…”. Essa afirmativa de que Deus falou algo a Moisés se repete dezenas de vezes em Levítico (e.g., 1.1; 8.9; 11.1). O livro de Números registra incontáveis vezes:”… o Senhor falou a Moisés…” (e.g., 1.1; 2.1; 4.1). Deuteronômio acrescenta:”… falou Moisés aos filhos de Israel, conforme tudo o que o Senhor lhe ordenara a respeito deles…” (1.3).

O resto do Antigo Testamento declara em uníssono que os livros de Moisés foram outorgados pelo próprio Deus. Josué impôs imediatamente os livros da lei ao povo de Israel (1.8). Juízes refere-se aos escritos de Moisés como “mandamentos do Senhor” (3.4). Samuel reconheceu que Deus havia nomeado a Moisés líder do povo (1Sm 12.6,8). Nas Crônicas, os registros mosaicos são tidos por “livro da lei do Senhor, dada por intermédio de Moisés” (2Cr 34:14). Daniel diz que a maldição escrita na lei de Moisés é “o juramento que está escrito na lei de Moisés, servo de Deus [...]. Ele confirmou a sua palavra, que falou contra nós…” (Dn 9.11,12). Até mesmo em Esdras e em Neemias existe o reconhecimento da lei de Deus dada a Moisés (Ed 6.18; Ne 13.1). O consenso unânime do Antigo Testamento é que os livros de Moisés foram outorgados pelo próprio Deus.

A inspiração dos profetas. Segundo a atual divisão do Antigo Testamento, feita pelos judeus, os livros dos profetas abrangem os antigos profetas (Josué, Juizes, Samuel e Reis) e os profetas posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores). Também esses vindicam autoridade divina. “Josué escreveu estas palavras no livro da lei de Deus” (Js 24.26). Deus falou aos homens em Juizes (1.1,2; 6.25) e em Samuel (3.11), que falou e escreveu a todo Israel (4.1, cf. 1Cr 29.29). Os profetas posteriores trazem inúmeras vindicações de inspiração divina. A célebre expressão “assim diz o Senhor”, com que encetam suas mensagens, ocorre centenas de vezes. De Isaías até Malaquias, o leitor é literalmente bombardeado por expressões revelador as da autoridade divina.

Sob o aspecto cronológico, o Antigo Testamento se encerra nessa seção, conhecida por profetas, não havendo testemunhos posteriores no Antigo Testamento sobre a inspiração dessa parte da Bíblia. No entanto, há referências dentro dos profetas a outros autores proféticos que escreveram seus livros em época anterior. Daniel considerou o livro de Jeremias inspirado (Dn 9.2). Esdras reconheceu a autoridade divina de Jeremias (Ed 1.1), bem como a de Ageu e a de Zacarias (Ed 5.1). Numa passagem de grande importância, Zacarias refere-se à inspiração divina de Moisés e dos profetas que o precederam, dizendo que seus escritos eram “palavras que o Senhor dos exércitos enviara pelo seu Espírito mediante os profetas que nos precederam” (7.12). Esses versículos eliminam toda dúvida quanto ao fato de os livros que estão na seção das Escrituras judaicas conhecida como profetas apresentarem ou não a vindicação de inspiração divina.

A inspiração dos escritos. É provável que o Antigo Testamento originariamente tivesse apenas duas divisões básicas: a lei e os profetas (v. Cap. 7). Esta última seção seria dividida posteriormente em profetas e escritos. Talvez essa divisão ocorresse com base na posição oficial do autor:

era ele profeta por ocupação ou simplesmente pelo dom divino? Os que fossem profetas pelo dom se enquadrariam na categoria de escritos. Salmos, o primeiro livro dessa coleção, fora escrito em grande parte por Davi, que dizia que seus salmos lhe haviam sido ditados — letra por letra— pelo Espírito (2Sm 23.2). Cântico dos Cânticos, Provérbios e Eclesiastes tradicionalmente são atribuídos a Salomão; seriam o registro da sabedoria que lhe fora concedida por Deus (v. 1Rs 3.9,10). Provérbios contém vindicações específicas de autoridade divina. Eclesiastes (12.13) e Jó (cap. 38) encerram-se com uma declaração de serem ensino autorizado. O livro de Daniel baseia-se numa série de visões e sonhos oriundos da parte de Deus (Dn 2.19; 8.1 etc).

Vários livros deixam de apresentar vindicação de inspiração divina: Rute, Ester, Cântico dos Cânticos, Lamentações, Esdras-Neemias e Crônicas. Se o livro de Rute foi escrito por Samuel, como parte de Juizes, fica sob a vindicação genérica de escrito profético. De semelhante modo, Lamentações, livro escrito por Jeremias, é profético. Já vimos que Cântico dos Cânticos é obra derivada da sabedoria concedida por Deus a Salomão. A tradição judaica atribui Crônicas, Esdras e Neemias a Esdras, o sacerdote, e a Neemias, que atuou com autoridade profética na repatriação de Israel, remindo essa nação do cativeiro babilônico (cf. Esdras 10 e Neemias 13). Não se menciona quem escreveu o livro de Ester, talvez para que se preservasse seu anonimato naquele ambiente pagão e hostil. A visão do livro de Ester é notadamente judaica; esse livro serve de autoridade escrita para a celebração da festa judaica do Purim. Tal fato significa vindicação implícita de autoridade divina.

Em suma, então, quase todos os livros do Antigo Testamento oferecem alguma vindicação de inspiração divina. Às vezes se trata de autoridade implícita, mas em geral há uma declaração explícita do tipo “assim diz o Senhor”. Do início ao fim, a doutrina da inspiração do Antigo Testamento está solidamente instalada em numerosos trechos, os quais sustentam sua origem divina.



Apoio do Novo Testamento à vindicação de inspiração feita pelo Antigo Testamento


Vemos três formas de abordagem ao examinarmos o ensino do Novo Testamento a respeito da inspiração do Antigo Testamento. Há as passagens que se referem à autoridade divina do Antigo Testamento como um todo,genericamente. Há as referências à inspiração de determinadas partes ou seções do Antigo Testamento. Finalmente, há citações de livros específicos do cânon judaico.



Referências do Novo Testamento à inspiração do Antigo Testamento


O Novo Testamento reconhece a inspiração do Antigo Testamento de muitas maneiras. Às vezes, o Novo Testamento usa expressões como “Escrituras”, “Palavra de Deus”, “a lei”, “os profetas”, “a lei e os profetas” e “oráculos de Deus”.

Escrituras é, de longe, o termo mais comum usado no Novo Testamento em referência ao Antigo. De acordo com Paulo, “Toda Escritura [Antigo Testamento] é inspirada por Deus” (2Tm 3.16). Disse Jesus: “A Escritura não pode ser anulada” (Jo 10.35). Com freqüência o Novo Testamento emprega o plural, Escrituras, para referir-se à coleção de escritos judaicos dotados de autoridade divina. Respondeu Jesus aos fariseus: “Nunca lestes nasEscrituras?” (Mt 21.42) e “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mt 22.29). O apóstolo Paulo “discutiu com eles sobre as Escrituras” (At 17.2), e os crentes de Beréia examinavam “cada dia nasEscrituras” (At 17.11). Nessas e em muitas outras referências, o Novo Testamento reconhece que o Antigo Testamento como um todo são escritos inspirados por Deus.

Palavra de Deus é expressão que aparece menos comumente, mas talvez seja a alusão mais forte à inspiração divina do Antigo Testamento. Em Marcos 7.13, Jesus acusou os fariseus de invalidar “a palavra de Deus”, e empregou a expressão como sinônimo de “Escrituras”. Há numerosas referências à “Palavra de Deus”, embora nem todas identifiquem com clareza o Antigo Testamento. Paulo argumentou assim: “Não que a palavra de Deus haja falhado” (Rm 9.6). Em outra passagem ele se refere à sua recusa em falsificar a palavra de Deus (2Co 4.2). O autor de Hebreus declara que “a palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb 4.12). A declaração do apóstolo Pedro — “Dele [i.e., de Cristo] dão testemunho todos os profetas” (At 10.43) — dificilmente se limitaria a algo que não fosse o Antigo Testamento como um todo, à vista de Lucas 24.27,44. Os textos que com máxima clareza identificam todo o Antigo Testamento como Palavra de Deus não deixam dúvida quanto à realidade de sua inspiração divina.

Lei em geral é palavra que se refere ao Antigo Testamento como forma abreviada de “lei de Moisés”. A leirepresenta apenas os cinco primeiros livros das Escrituras judaicas. No entanto, em certos casos, a palavra leise aplica a todo o Antigo Testamento. João 10.34 provavelmente é um desses casos mais significativos. Visto que a citação é extraída de Salmos 82.6, fica bem claro que não se refere à lei de Moisés. A palavra “lei” é usada aqui em relação a “Escrituras” e a “Palavra de Deus”, mostrando que a referência se faz a todo o Antigo Testamento. Em João 12.34, as pessoas mencionam “a lei”, ainda que em outro texto Jesus faça referência a “sua [deles] lei” (Jo 15.25), e, em Atos, Paulo a identifique como “a lei dos judeus” (At 25.8). Paulo introduziu uma citação do Antigo Testamento com a seguinte frase: “Está escrito na lei” (1Co 14.21). Em seu famoso sermão do monte, Jesus empregou o termo lei como sinônimo de “lei e profetas”, expressão que, como vemos, refere-se claramente aos documentos inspirados por Deus, a que se dá o nome de Antigo Testamento (Mt 5.18).

A lei e os profetas, ou “Moisés e os profetas”, é o segundo título mais comumente atribuído às Escrituras judaicas. É designação que ocorre dezenas de vezes no Novo Testamento. Jesus a usou duas vezes em seu famoso sermão (Mt 5.17; 7.12), afirmando ter vindo à terra a fim de cumprir “a lei e os profetas”, os quais jamais haveriam de passar. Lucas 16.16 apresenta “a lei e os profetas” como a revelação divina até a época de João Batista. Em sua defesa perante Félix, Paulo declarou ser “a lei e os profetas” todo o conselho de Deus que ele, como judeu devoto, havia praticado desde sua juventude (At 24.14). Eram “a lei e os profetas” que eram lidos nas sinagogas (At 13.15), de que a Regra de Ouro, ou o maior dos mandamentos, é a súmula moral (Mt 7.12).

Os profetas vez por outra se referia a todo o Antigo Testamento. Visto ser o Antigo Testamento enunciação profética, não é de surpreender que seja chamado, às vezes, “os profetas”. O fato de o Antigo Testamento ser chamado às vezes “Escrituras dos profetas” mostra que se tem em mente um grupo de livros (Mt 26.56). Na verdade, o título “profetas” é usado em paralelo com a expressão “a lei e os profetas” (Lc 24.25,27), referindo-se claramente a todo o Antigo Testamento.

Oráculos de Deus sem dúvida é expressão que tenciona comunicar essa idéia. Aparece duas vezes e refere-se às Escrituras do Antigo Testamento. Disse Paulo a respeito dos judeus: “As palavras de Deus lhe foram confiadas”, isto é, aos judeus (Rm 3.2). Noutra passagem, declara-se a necessidade de alguém “ensinar os princípios elementares dos oráculos de Deus” (Hb 5.12). Portanto, a palavra escrita do Antigo Testamento é a Palavra de Deus.

Está escrito é expressão que se encontra mais de noventa vezes no Novo Testamento. A maior parte das ocorrências dessa expressão introduz citações específicas, mas algumas têm aplicação genérica ao Antigo Testamento como um todo. Eis alguns exemplos desta última aplicação: “Por que, pois, está escrito que o Filho do homem deve sofrer muito e ser rejeitado?” (Mc 9.12; cf. 14.21). Temos aqui um resumo do ensino genérico sobre a morte de Cristo no Antigo Testamento, em vez de uma citação veterotestamentária específica. Lucas 18.31 é uma referência mais definitiva ainda: “E se cumprirá no Filho do homem tudo o que os profetasescreveram”. Há outros textos ainda, como “Pois dias de vingança são estes, para que se cumpram todas as coisas que estão escritas” (Lc 21.22), que dão apoio à tese segundo a qual os escritos do Antigo Testamento como um todo eram considerados inspirados por Deus. Prediziam tudo a respeito de Cristo e era inevitável que se cumprissem.

Para que se cumprissem as Escrituras é expressão encontrada com muita freqüência no Novo Testamento em referência ao Antigo Testamento como um todo. Jesus disse “que era necessário que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito” na Lei, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24.44). Em outra ocasião, disse o Senhor: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruí-los, mas para cumpri-los” (Mt 5.17). Essa fórmula mais de trinta vezes introduz uma citação específica do Antigo Testamento ou uma referência a essa parte da Bíblia. Sempre se referem à natureza profética das Escrituras, outorgadas que foram por Deus, e, necessariamente, devem ser cumpridas.



Referências do Novo Testamento a seções específicas do Antigo Testamento


O segundo indício no Novo Testamento de que o Antigo Testamento era considerado inspirado por Deus são as referências à autoridade de certos trechos das Escrituras hebraicas (e.g., a lei, os profetas e os escritos).

A lei e os profetas, como mostramos acima, referem-se a uma divisão do Antigo Testamento em duas partes. Essa referência ocorre dezenas de vezes no Novo Testamento. Indica todos os escritos inspirados, desde Moisés até Jesus (Lc 16.16), considerados Palavra eterna de Deus (Mt 5.18). Além das referências às duas partes em conjunto, há outras que tratam da lei e dos profetas de modo separado.

A lei em geral designa os primeiros cinco livros do Antigo Testamento, como ocorre em Mateus 12.5. Às vezes a expressão é “a lei de Moisés” (At 13.39; Hb 12,5). Em outras passagens esses livros são chamados simplesmente, “Moisés” (2Cor 3.15), “os livros de Moisés” (Mc 12.26) ou “os livros da lei” (Gl 3.10). Em cada caso recorre-se à autoridade divina do ensino mosaico. O Pentateuco como um todo era consideradoproveniente de Deus.

Os profetas em geral identifica a segunda metade do Antigo Testamento (v. Jo 1.45; Lc 18.31). Empregam-se também as expressões “as escrituras dos profetas” (Mt 26.56) e “o livro dos profetas” (At 7.42). Nem sempre fica claro que esses títulos se referem apenas aos livros escritos após o ministério de Moisés, embora às vezes isso esteja muito bem especificado, como revela a separação dos dois títulos. No que concerne ao títuloprofetas, exatamente o fato de significar porta-vozes de Deus revela a inspiração divina dos livros que levam essa designação (2Pe 1.20,21).

Os escritos não é termo neotestamentário. Trata-se de designação não-bíblica usada para dividir os escritos proféticos em duas partes: a escrita por profetas profissionais (“os profetas”) e a escrita por outros tipos de profetas (“os escritos”). Existe apenas uma alusão no Novo Testamento a uma possível divisão do Antigo Testamento em três partes. Jesus referiu-se a “tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44). Não ficou claro aqui se o Senhor estava destacando os Salmos, em vista de seu significado messiânico especial, como parte da “lei” e dos “profetas”, a que ele se referiu anteriormente no mesmo capítulo (v. 27), ou o primeiro livro da seção conhecida agora como “escritos”. Seja qual for o caso, a natureza messiânica e profética dessa suposta terceira parte do Antigo Testamento faz que ela se destaque como inspirada por Deus. E, se houver apenas duas seções no cânon do Antigo Testamento (como veremos no cap. 7), o resto das Escrituras inspiradas já foi estudado quando tratamos do designativo “profetas”.



Referências do Novo Testamento a livros específicos do Antigo Testamento


Dos 22 livros do cânon judaico mencionados por Josefo (Contra Ápion, i, 8), cerca de 18 são citados no Novo Testamento como autorizados. Não se encontram menções a Juizes, a Crônicas, a Ester e ao Cântico dos Cânticos, ainda que haja referências a acontecimentos de Juizes (Hb 11.32) e de Crônicas (Mt 23.35; 2Cr 24.20). Pode haver uma alusão a Cântico dos Cânticos 4.15 na referência que Jesus faz a “águas vivas” (Jo 4.10), mas tal citação não seria apoio à autoridade do livro. De maneira semelhante, a provável referência à Festa do Purim, de Ester 9, em João 5.1, ou a similaridade entre Apocalipse 11.10 e Ester 9.22 não poderiam ser consideradas apoio à inspiração de Ester. A autoridade divina investida sobre o livro de Ester é satisfatoriamente atestada de outra forma (v. cap. 8), não, todavia, mediante citações do Novo Testamento.

Quase todos os 18 livros restantes do cânon hebraico são citados com autoridade no Novo Testamento. A criação do homem em Gênesis (1.27) é citada por Jesus em Mateus 19.4,5. O quinto mandamento de Êxodo 20.12 é citado como Escritura em Efésios 6.1. A lei da purificação dos leprosos, registrada em Levítico 14.2-32, é citada em Mateus 8.4. Números é mencionado indiretamente, pois em 1Coríntios há referência a acontecimentos registrados naquele livro, referência essa para admoestação dos cristãos (1Co 10.11). Números 12.7 registra a fidelidade de Moisés, sendo essa passagem mencionada com autoridade em Hebreus 3.5. Deuteronômio é um dos livros mais citados do Antigo Testamento. Jesus o menciona duas vezes em sua tentação (Mt 4.4 e 4.7; cf. Dt 8.3 e 6.16).

Josué recebeu a promessa da parte de Deus: “… não te deixarei, nem te desampararei” (1.5), a qual é citada em Hebreus 13.5. Jesus citou o incidente de 1Samuel 21.1-6, em que Davi comeu os pães da proposição, em apoio à autoridade do Senhor de exercer certas atividades no dia de sábado. A resposta de Deus a Elias, em 1Reis 19.18 é citada em Romanos 11.4. Esdras-Neemias provavelmente são citados em João 6.31 (cf. Ne 9.15), ainda que a provisão de “pão do céu” a Israel por parte de Deus também seja citada em outras passagens (Sl 78.24; 105.40).

A autoridade divina do livro de Jó (5.12) é demonstrada de modo claro por Paulo: “Gomo está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia” (1Co 3.19). O livro de Salmos é outro do Antigo Testamento que se menciona com muita freqüência. Era um dos favoritos de Jesus. Compare Mateus 21.42 — ” A pedra que os edificadores rejeitaram, essa se tornou a pedra angular” — com Salmos 118.22. Pedro citou o salmo 2 em seu sermão do Dia de Pentecostes (At 2.34,35). Hebreus apresenta abundância de referências aos Salmos; o primeiro capítulo cita os salmos 2,104,45 e 102. Provérbios 3.34 — “Ele escarnece dos escarnecedores, mas dá graça aos humildes” — é citado com toda clareza em Tiago 4.6. Não existe citação literal de Eclesiastes, mas algumas passagens contêm doutrinas aparentemente confiáveis. A declaração de Paulo “Tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7) é parecida com a de Eclesiastes 11.1. O desafio para que se evite a luxúria da juventude (2Tm 2.22) reflete Eclesiastes 11.10. Outros exemplos são os seguintes: a morte é determinada por Deus (Hb 9.27; cf. Ec 3.2); o amor ao dinheiro é a fonte do mal (1Tm 6.10; cf. Ec 5.10); não devemos multiplicar palavras vãs em nossas orações (Mt 6.7; cf. Ec 5.2).

Isaías é outro autor do Antigo Testamento muito citado no Novo. João Batista, em Mateus 3.3, apresentou Jesus com a citação de Isaías 40,3. Na sinagoga de sua cidade natal, Jesus leu Isaías 61.1,2: “O Espírito do Senhor está sobre mim” (cf. Lc 4.18,19). Paulo citava Isaías com freqüência (cf. Rm 9.27; At 28.25-28). Jeremias 31.15 é citado em Mateus 2.17,18, e a nova aliança de Jeremias (cap. 31) é citada duas vezes em Hebreus 8.8 e 10.16. Lamentações, apenso a Jeremias na relação dos 22 livros da Bíblia hebraica, é mencionado em Mateus 27.30 (cf. Lm 3.30). Ezequiel é citado em diversas ocasiões no Novo Testamento, ainda que nenhuma citação seja literal. O ensino de Jesus a respeito do novo nascimento (Jo 3.5) pode ter-se originado em Ezequiel 36.25,26. Romanos 6.23 declara: “o salário do pecado é a morte”, o que reflete Ezequiel 18.20: “A alma que pecar, essa morrerá”. O uso que João faz das quatro criaturas viventes (Ap 4.7) reflete com clareza Ezequiel 1.10. Daniel é identificado pelo nome no sermão do monte, pregado por Jesus (Mt 24.15; cf. Dn 9.27; 11.31), e Mateus 21.30 reflete Daniel 7.13. Os doze profetas menores foram agrupados no Antigo Testamento hebraico. Há muitas citações desse grupo de escritos. A famosa expressão de Habacuque “O justo pela sua fé viverá” (Hc 2.4) é mencionada em três ocasiões no Novo Testamento (Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38). Mateus 2.15 cita Oséias 11.1: “Do Egito chamei a meu filho”.

Diante disso, verificamos que só Juízes-Rute, Crônicas, Ester e Cântico dos Cânticos deixam de ser mencionados com clareza no Novo Testamento. No entanto, Juizes apresenta acontecimentos históricos a que a Novo Testamento faz alusão como autênticos (Hb 11.32). E talvez Jesus tinha Crônicas em mente ao fazer referência ao sangue de Zacarias (Mt 23.35). Isso faz que apenas Ester e Cântico dos Cânticos fiquem sem uma referência explícita no Novo Testamento; e isso ocorreu, sem dúvida, porque os autores do Novo Testamento não tiveram oportunidade de mencionar tais livros. Ester é o livro básico da Festa do Purim, e Cântico dos Cânticos era lido na grande Festa da Páscoa, que reflete a estima que a comunidade judaica lhe votava.

O Novo Testamento dá apoio à vindicação de inspiração divina do Antigo Testamento como um todo, de todas as suas partes e de quase cada um de seus livros. Além disso, há referências diretas e repletas de autoridade a muitas das grandes personalidades e dos grandes acontecimentos do Antigo Testamento, dentre os quais a criação de Adão e de Eva (Mt 19.4), o dilúvio do tempo de Noé (Lc 17.27), o chamado miraculoso de Moisés (Lc 20.37), a miraculosa provisão material para Israel no deserto (Jo 3.14; 6.49), os milagres de Elias (Lc 4.24,25) e Jonas no ventre do grande peixe (Mt 12.41).



Confirmação ou conciliação?


A despeito do grande número de citações do Antigo Testamento e de sua autoridade, houve quem cresse que nem Jesus, nem os apóstolos confirmaram, de fato, a inspiração e a confiabilidade dessa parte da Bíblia. Em vez disso, afirmam tais estudiosos, os autores do Novo Testamento estariam conciliando seus textos às crenças judaicas aceitas na época. Trata-se de hipótese refinada, mas sem substância. É teoria que não se coaduna com os fatos das Escrituras, nem com as vindicações de Cristo. As referências mais numerosas e significativas quanto à genuinidade e à inspiração divina do Antigo Testamento vêm dos lábios do próprio Jesus, que jamais demonstrou tendência para a conciliação. A expulsão dos cambistas de dinheiro de dentro templo (Jo 2.15), a denúncia dos “guias cegos” (Mt 23.16) e dos “falsos profetas” (Mt 7.15) e a advertência aos mestres em evidência (Jo 3.10) dificilmente seriam tidas como sinais de conciliação.

Aliás, Jesus repreendia sem rodeios as pessoas que se aferravam às tradições e não à Palavra de Deus (cf. Mt 15.1-6). Seis vezes num único capítulo (Mt 5), Jesus contrapôs a verdade a respeito das Escrituras às falsas crenças que haviam surgido e se expandiam. O Senhor as denunciou assim: “Ouvistes que foi dito” (e não “está escrito”) e “eu, porém, vos digo”. Jesus não hesitava em declarar “Errais” (Mt 22.29), quando os homens estavam errados. Mas, quando os homens entendiam a verdade, o Senhor os estimulava, dizendo-lhes: “Respondeste bem” (Lc 10.28). O ensino de Jesus a respeito da autoridade divina do Antigo Testamento é tão incondicional e tão isento de transigências, que não se pode rejeitar esse ensino sem rejeitar as palavras de Jesus. Se alguém não aceitar a autoridade do Antigo Testamento como Escritura Sagrada, tal pessoa põe em dúvida a integridade do Salvador. Seja o que for que se diga a respeito da inspiração do Antigo Testamento, uma coisa é certa: o próprio Antigo Testamento reivindica a própria inspiração. E o Novo Testamento a confirma de modo maravilhoso.

Notas (Introdução Bíblica, Norman L. Geisler & William E. Nix)
  

                                                 Antigo Testamento 


Ordem
Nome
Abreviação
Capítulos
Versículos
1
Gênesis
Gn
50
1533
2
Êxodo
Êx
40
1213
3
Levítico
Lv
27
859
4
Números
Nm
36
1288
5
Deuteronômio
Dt
34
959
6
Josué
Js
24
658
7
Juízes
Jz
21
619
8
Rute
Rt
4
85
9
1 Samuel
1Sm
31
811
10
2 Samuel
2Sm
24
695
11
1 Reis
1Rs
22
817
12
2 Reis
2Rs
25
719
13
1 Crônicas
1Cr
29
942
14
2 Crônicas
2Cr
36
822
15
Esdras
Ed
10
280
16
Neemias
Ne
13
406
17
Ester
Et
10
167
18
42
1070
19
Salmos
Sl
150
2461
20
Provérbios
Pv
31
915
21
Eclesiastes
Ec
12
222
22
Cantares
Ct
8
117
23
Isaías
Is
66
1292
24
Jeremias
Jr
52
1364
25
Lamentações
Lm
5
154
26
Ezequiel
Ez
48
1273
27
Daniel
Dn
12
357
28
Oseias
Os
14
197
29
Joel
Jl
3
73
30
Amós
Am
9
146
31
Obadias
Ob
1
21
32
Jonas
Jn
4
48
33
Miqueias
Mq
7
105
34
Naum
Na
3
47
35
Habacuque
Hc
3
56
36
Sofonias
Sf
3
53
37
Ageu
Ag
2
38
38
Zacarias
Zc
14
211
39
Malaquias
Ml
4
55



                                                    Novo Testamento 

Ordem
Nome
Abreviação
Capítulos
Versículos
1
Mateus
Mt
28
1071
2
Marcos
Mc
16
678
3
Lucas
Lc
24
1151
4
João
Jo
21
879
5
Atos dos Apóstolos
At
28
1007
6
Romanos
Rm
16
433
7
1 Coríntios
1Co
16
437
8
2 Coríntios
2Co
13
256
9
Gálatas
Gl
6
149
10
Efésios
Ef
6
155
11
Filipenses
Fp
4
104
12
Colossenses
Cl
4
95
13
1 Tessalonicenses
1Ts
5
89
14
2 Tessalonicenses
2Ts
3
47
15
1 Timóteo
1Tm
6
113
16
2 Timóteo
2Tm
4
83
17
Tito
Tt
3
46
18
Filemom
Fm
1
25
19
Hebreus
Hb
13
303
20
Tiago
Tg
5
108
21
1 Pedro
1Pe
5
105
22
2 Pedro
2Pe
3
61
23
1 João
1Jo
5
105
24
2 João
2Jo
1
13
25
3 João
3Jo
1
15
26
Judas
Jd
1
25
27
Apocalipse
Ap
22
404

  

         RESUMO 


Total de livros da Bíblia: 66

Total de capítulos da Bíblia: 1.189

Total de versículos da Bíblia: 31.105 

Antigo Testamento

Quantidade de livros: 39

Quantidade de capítulos: 929

Quantidade de versículos: 23.148 

Novo Testamento

Quantidade de livros: 27

Quantidade de capítulos: 260


Quantidade de versículos: 7.957

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