sábado, 12 de julho de 2014

ETICA CRISTÃ P.2

TICA CRISTÃ N.2




O valor da temperança

E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18).

A Igreja de Cristo sempre primou pela temperança. A vida de seus membros tem de ser um eloquente protesto contra as inconsequências e vícios.

Jeremias utilizou vários métodos para apresentar a Palavra de Deus ao povo de Judá. Na lição de hoje veremos que ele usou uma tribo inteira para ensinar aos israelitas acerca da importância de se respeitar às ordenanças divinas. Os recabitas se recusavam a beber vinho, porque o patriarca da família havia determinado que seus descendentes não bebessem vinho de forma alguma (35.1-11). Os recabitas foram obedientes e demonstraram respeito às tradições de seus pais. Deus queria que o povo de Judá compreendesse que eles não estavam respeitando suas leis e ordenanças. Eles desobedeciam a Deus persistentemente e, por isso, seriam disciplinados. Se quisermos agradar ao Senhor, precisamos obedecer-Lhe. A obediência é uma prova do nosso amor ao Pai.

Legaram-nos os recabitas um exemplo tão marcante que, passados vinte e seis séculos, ainda nos inspiramos em seu equilíbrio e temperança. E Deus levou-lhes em conta a piedade. Quando da destruição de Jerusalém, o Senhor deu-lhes suas almas como despojo; foram preservados do mal enquanto os intemperantes e viciosos eram entregues à ruína.

O mundo está sendo destruído. Como estamos a nos comportar? Agimos como os recabitas? Ou nos chafurdamos nos vícios e prazeres mundanos? Neste domingo, ordena-nos o Senhor que visitemos a casa dos recabitas.

A ORIGEM DOS RECABITAS

1. Sua origem. Quando o Senhor ordenou a Jeremias que visitasse os recabitas, tinham estes já uma história de aproximadamente 250 anos. De uma tribo nômade e dedicada ao pastoreio, foram pouco a pouco aparentando-se com os queneus e com os descendentes de Jetro, sogro de Moisés (1 Cr 2.55), até se constituírem num expressivo e piedoso clã.

2. Seu relacionamento com Israel. Os recabitas entram na história do povo de Deus de maneira heroica. Jonadabe, um de seus patriarcas, é convidado pelo rei Jeú a extirpar os profetas de Baal do Reino do Norte. Nesta ocasião, o recabita identifica-se como tendo um coração reto diante de Deus (2 Rs 10.15-27). Apesar dos desvios de Jeú e de outros líderes em Israel, mantiveram-se os recabitas fiéis à Lei de Deus, embora não passassem de forasteiros entre os hebreus.

3. O encontro dos recabitas com Jeremias. Os recabitas achavam-se em Jerusalém para escapar às forças babilônicas que, dentro em breve, haveriam de destruir a Cidade Santa. Na periferia desta, armaram eles suas tendas. E, agora, recebem o inesperado convite do profeta para se dirigirem à Casa de Deus. Aqui, seria encenado mais um duro sermão aos descendentes de Jacó, visando demovê-los de sua rebelião contra o Senhor.

O ESTILO DE VIDA DOS RECABITAS

Foi exatamente entre as trevas e as apostasias de Israel, que Jonadabe sentiu-se impulsionado a fundar uma sociedade que tinha por base a temperança, a modéstia, a frugalidade e, principalmente, o temor a Deus. Vejamos, pois, qual o seu estilo de vida.

1. Abstinência de bebidas fortes. Resolveram eles absterem-se totalmente das bebidas fortes, pois sabiam muito bem serem estas nocivas à moral e aos bons costumes (Gn 9.20-23; 19.32-38). Além disso, estava o vinho intimamente associado às festas dos ímpios cananeus. Ora, se queriam os recabitas viver como povo de Deus, deveriam primar por uma conduta sóbria e recatada.

Tem você vivido de maneira sóbria? Ou tem-se entregado aos vícios? Lembre-se: Deus há de julgar também nossa intemperança.

2. Peregrinações. Vistos de nosso contexto cultural, os recabitas pareciam os mais estranhos dos homens. Além de se absterem das bebidas alcoólicas, faziam questão de viver como peregrinos (Hb 11.13), a fim de protestar contra a intemperança, a injustiça e a idolatria que já dominavam Israel e Judá.

Ainda nos consideramos peregrinos do Senhor? Não podemos assimilar a cultura pecaminosa do presente século (Rm 12.1,2; Hb 11.13).

3. Honravam a tradição de seus antepassados. Ao contrário dos judeus que já se haviam esquecido da Lei de Moisés e do exemplo dos patriarcas, levavam os recabitas em consideração o que lhes havia recomendado Jonadabe filho de Recabe: “Assim, ouvimos e fizemos conforme tudo quanto nos mandou Jonadabe, nosso pai” (Jr 35.10). Como haviam eles honrado seus pais, tinha-lhes o Senhor, agora, uma gloriosa promessa (Jr 35.18,19).

Eles se houveram com denodo e zelo em relação às tradições dos ancestrais. E, quantas vezes, nós, ignorante e tolamente, não buscamos destruir tudo o que nos legaram os antigos? As tradições que têm como alvo a pureza do corpo de Cristo e a integridade moral dos filhos de Deus têm de ser mantidas: “Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” (2 Ts 2.15). Sobre o assunto, pronuncia-se o conceituadíssimo comentarista Warren W. Wiersbe: “A tradição humana não é necessariamente má, a não ser que contradiga ou se arvore para substituir a Palavra de Deus”.

Tem você guardado as recomendações de seus pais? Ou acha que o conselho dos antigos é algo que pode ser descartado em nome de uma modernidade duvidosa e perversa?

O EXEMPLO DOS RECABITAS

A fim de realçar a fidelidade dos recabitas, o profeta os conduz ao Santo Templo. E, aqui, na câmara de Hanã, oferece-lhes taças cheias de vinho, e ordena-lhes que o bebam. Mas o chefe do clã de Recabe, recusa-se a fazê-lo. Com esta demonstração de indômita coragem,Jazanias, o maioral dos recabitas, deixa bem patente a todos, principalmente aos ministros do altar, porque eles não se davam ao vinho.

O interessante é que o vinho fora posto diante dos recabitas exatamente no interior da Casa de Deus. E os sacerdotes, pelo que inferimos do texto, achavam-se tão presos aos vícios quanto o povo. Os levitas não mais primavam pela temperança! Sem o perceber,estavam comprometendo todo o seu ministério.

Você é conhecido pela temperança? Pelo autocontrole? Ou já não liga mais para a sobriedade? Não são poucos os que se acham destruídos pelas bebidas alcoólicas e por outros vícios, hábitos e costumes igualmente nocivos. Não abra nenhum precedente. Não se deixe contaminar seja pelo ambiente social seja pela herança cultural. Lembre-se: Noé e Ló eram muito mais piedosos e firmes do que nós. Todavia, induzidos pelo vinho, portaram-se inconvenientemente.

CONCLUINDO

Estamos nos últimos dias. O momento requer sobriedade e vigilância. À semelhança dos recabitas, primemos pela excelência das virtudes cristãs. Caso contrário: seremos tidos como profanos quando da volta do Senhor Jesus.

E que jamais nos esqueçamos: a Igreja de Cristo tem um forte compromisso com a temperança, com a sobriedade, com a prudência, com os bons costumes e com a excelência moral tanto de seus membros quanto dos que a cercam. Afinal, somos a luz do mundo e o sal da terra (Mt 5.13-16; Ef 5.8-13).

Para evitar alguns vícios medite em:

Dn 1.5-9; 6.4       Como deve o servo de Deus andar
Gn 9.20-22          O vício traz a vergonha
Gn 19.31-38        O vício leva à devassidão
Pv 31.4,5              O vício não convém aos nobres
Dn 5.23               O vício leva a blasfêmia
Rm 14.21             O vício leva ao escândalo

“O pai de Jonadabe e fundador da família dos recabitas Recabe pode ter sido de uma das famílias de queneus que entraram na Palestina com os israelitas (1 Cr 2.55). Nos dias do reino dividido, Recabe determinou que a causa da apostasia e da imoralidade do povo era a cultura palestina, e comandou seus filhos a voltarem ao seu antigo modo nômade de vida com toda sua simplicidade. Nos dias de Jeú, Jonadabe, o líder dos recabitas, auxiliou aquele rei em sua destruição ao culto a Baal (2 Rs 10.15,23). Nos dias de Jeremias, o profeta usou os recabitas como uma lição objetiva. Ele os levou até a Casa do Senhor, e lhes ofereceu vinho. Eles recusaram por causa de sua lealdade para com o seu ancestral. Jeremias usou a fidelidade deles como uma censura à infidelidade de Israel para com o Senhor. Por causa de sua fidelidade, o Senhor lhes prometeu: ‘Nunca faltará varão... que assista perante a minha face todos os dias’ (Jr 35.19). Diz-se que Rab Judah registrou que as filhas recabitas se casaram com os levitas, e assim esta linda promessa foi cumprida. Hegessippus disse que ‘sacerdotes recabitas’ intercederam por Tiago, o irmão do Senhor Jesus Cristo, mas não conseguiram salvar sua vida.

Malquias, o ‘filho de Recabe’, reparou a Porta do Monturo de Jerusalém sob o governo de Neemias (Ne 3.14). Ele pode ter sido o líder dos recabitas depois do exílio”. (Wycliffe Dicionário Bíblico. 1.ed. RJ: CPAD, 2006, p.1653)

• Um triste espetáculo — “A embriaguez é um pecado que jamais caminha sozinho, porque leva os homens a outros males; é um pecado que provoca muito a Deus. O ébrio dá à sua própria família e a todo o mundo o triste espetáculo de um pecador endurecido, além do que seria comum, e que se precipita à perdição. Procuremos então, pela oração, evitarmos tudo aquilo que possa entristecer ao nosso benigno Consolador” (HENRY, M. Comentário Bíblico de Matthew Henry. 1.ed. RJ: CPAD, 2002, p.997).

• Embriaguez — “As Escrituras Sagradas relatam muitos casos individuais de embriaguez, como o de Noé (Gn 9.20-24), Ló (Gn 19.30-35), Nabal (1 Sm 25.36), Urias (2 Sm 11.12,13). A embriaguez está implícita no relato do banquete de Belsazar (Dn 5.1-4,23). Deve ter sido comum na época dos juízes, visto que Eli rapidamente suspeitou que Ana estivesse embriagada (1 Sm 1.13,14).

O Senhor Jesus advertiu seus discípulos contra a embriaguez, a fim de que não fossem considerados despreparados para se encontrar com Ele na ocasião de sua volta (Lc 21.34). Paulo repreendeu severamente os cristãos coríntios por beberem em excesso na Ceia do Senhor (1 Co 11.20,21), e advertiu os crentes de Roma em relação à embriaguez (Rm 13.13). Ele ensinou sem rodeios que a continuidade no alcoolismo impede as pessoas de entrarem no reino de Deus (1 Co 6.9-11; Gl 5.21). Sua advertência é clara e direta. ‘Não vos embriagueis com vinho, em que há contenda [ou dissolução]’ (Ef 5.18)” (Wycliffe Dicionário Bíblico. 1.ed. RJ: CPAD, 2006, p.638).

Bibliografia Claudionor de Andrade,comentário de efésios,cpad,2010


A justiça do cristão:
Fidelidade no casamento e honestidade nas palavras Mt 5:31-37

A terceira antítese (sobre o divórcio) é uma sequência natural da segunda (sobre o adultério). Pois, em determinadas circuns­tâncias, Jesus diz agora, um novo casamento de uma pessoa divorciada, ou com uma pessoa divorciada, é equivalente a adul­tério. Esta terceira antítese é essencialmente um chamamento à fidelidade matrimonial.

Confesso minha relutância básica em tentar fazer a expo­sição destes versículos. Parcialmente porque o divórcio é um assunto complexo e controvertido, mas muito mais porque é um assunto que afeta profundamente as emoções das pessoas. Pode-se dizer que talvez não haja infelicidade tão pungente quanto a de um casamento infeliz. Talvez não haja tragédia maior que a degeneração, numa separação de amargura, discórdia e deses­pero, do relacionamento que Deus pretendia que fosse cheio de amor e satisfação. Embora eu creia que o caminho divino, em muitos casos, não é o divórcio, espero escrever com sensibili­dade, pois conheço a dor de muitos e não desejo contribuir ainda para o seu desespero. Mas, como estou convencido de que o ensinamento de Jesus sobre este assunto, como sobre qualquer outro, é bom, intrinsecamente bom, tanto para cada indivíduo como para a sociedade, encho-me de coragem para escrever.

1. A fidelidade no casamento (vs. 31,32)

Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. 32Eu, porém, vos digo: Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de adultério, a expõe a tornar-se adúl­tera; e aquele que casar com a repudiada, comete adultério.

Estes dois versículos dificilmente poderiam ser considerados como a totalidade das instruções dadas por nosso Senhor a res­peito do divórcio, ali no monte. Parece serem um sumário abre­viado dos seus ensinamentos, dos quais Mateus registra uma versão mais completa no capítulo 19. É melhor reunir as duas passagens para interpretar a mais curta à luz da mais longa. Foi assim que, mais tarde, aconteceu o debate de Cristo com os fariseus:

19:3 Vieram a ele alguns fariseus, e o experimentavam, pergun­tando: E lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo?4Então respondeu ele: Não tendes lido que o Criador desde o princípio os fez homem e mulher, 5que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? 6De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. 7Replicaram-lhe: Por que mandou então Moisés dar carta de divórcio e repudiar?8Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres; entretanto, não foi assim desde o princípio. 9Eu, porém, vos digo: Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério.

Sabemos que havia uma controvérsia sobre o divórcio entre as duas escolas rabínicas rivais de Hillel e de Shammai. O Rabi Shammaiadotava uma linha rigorosa e ensinava, com base em Deuteronômio 24:1, que a única base para o divórcio era grave ofensa matrimonial, algo evidentemente "impróprio" ou "inde­cente". O Rabi Hillel, por outro lado, defendia um ponto de vista muito relaxado. Se é que podemos confiar no historiador judeu Josefo, esta era a atitude comum, pois ele aplicava a pro­visão mosaica a um homem que "deseja divorciar-se de sua esposa por qualquer motivo". Do mesmo modo, Hillel, argumentando que a base para o divórcio era alguma coisa "impró­pria", interpretava este termo da maneira mais ampla possível para incluir as mais triviais ofensas de uma esposa. Se ela se ordem de toda a passagem; naturalmente não há ordem alguma para o marido divorciar-se de sua esposa, nem qualquer incen­tivo para que o faça. Tudo o que temos, por outro lado, é uma referência a certos procedimentos necessários se o divórcio acon­tecer; e, consequentemente, uma permissão muito relutante fica implícita e uma prática costumeira é tolerada. 
Como, então, Jesus respondeu à pergunta dos fariseus sobre a regulamentação de Moisés? Ele a atribuiu à dureza dos cora­ções das pessoas. Fazendo assim, não negou que a regulamen­tação vinha de Deus. Deu a entender, entretanto, que não era uma instrução divina, mas apenas uma concessão de Deus por causa da fraqueza humana. Foi por isso que "Moisés vos per­mitiu repudiar . . .", disse ele (v. 8). Mas, então, imediatamente referiu-se de novo ao propósito original de Deus, dizendo: "En­tretanto, não foi assim desde o princípio." Assim, até mesmo a própria concessão divina era, em princípio, incoerente com a divina instituição. 
Os fariseus tratavam o divórcio com leviandade; Jesus o consi­derou tão seriamente que, com uma única exceção, chamou a todo novo casamento depois do divórcio de adultério. 
Esta foi a conclusão da sua discussão com os fariseus, e isto é o que se registrou no Sermão do Monte. Talvez seja conveniente ver os seus dois argumentos conjuntamente. 
5:32 Eu porém, vos digo: Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada, comete adultério. 19:9 Eu, porém, vos digo: Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério. 
Parece que se presume que o divórcio levava ao novo casa­mento das partes divorciadas. Só esta presunção explica a declaração de que um homem que se divorcia de sua esposa sem motivo "a expõe a tornar-se adúltera". Sua ação teria tal resul­tado apenas se ela se casasse novamente. Além disso, uma sepa­ração sem divórcio — em termos legais, a mensa et toro (de mesa e cama) mas não a vinculo(dos laços matrimoniais) — é um arranjo moderno desconhecido no mundo antigo. 
Considerando que Deus instituiu o casamento como uma união exclusiva e permanente, uma união que ele faz e que o homem não deve quebrar, Jesus chega à inevitável conclusão de que divorciar-se de um parceiro e casar-se com outro, ou casar-se com uma pessoa divorciada, é assumir um relaciona­mento proibido, adúltero, pois a pessoa, que conseguiu um di­vórcio aos olhos da lei humana, ainda está casada, aos olhos de Deus, com o seu primeiro parceiro. 
Apenas uma única exceção foi feita a este princípio: exceto em caso de relações sexuais ilícitas (5:32) ou sendo por causa de relações sexuais ilícitas (19:9). A chamada "cláusula de exceção" é um enigma muito conhecido. Os comentaristas não são unâ­nimes quanto à sua autenticidade ou quanto ao seu significado. 
Em primeiro lugar, esta cláusula é autêntica. Eu gostaria de argumentar, como o fazem quase todos os comentaristas conser­vadores, que temos de aceitar esta cláusula não só como parte genuína do Evangelho de Mateus (pois nenhum manuscrito a omite), mas também como palavra autêntica de Jesus. O motivo por que muitos a rejeitaram, considerando-a como uma interpolação de Mateus, é que está ausente de passagens paralelas nos evangelhos de Marcos e Lucas. Mas Plummer estava certo quando taxou de "hipótese violenta" essa rejeição apressada da cláusula de exceção, considerando-a um acréscimo editorial. Parece muito mais provável que a sua ausência em Marcos e Lucas deve-se não à ignorância deles, mas por pressuporem que esta cláusula fosse assunto do conhecimento de todos. Afinal de contas, sob a lei mosaica o adultério era punido com a morte (embora a pena de morte para esta transgressão possivelmente tenha caído em desuso no tempo de Jesus) [Dt 22:22; Jo 8:1-11. G. E. Ladd escreve: "O Velho Testamento condenou o adultério com a penalidade de morte. O Novo Testamento diz que um adúltero deve ser considerado como morto, e a parte inocente fica livre dos seus votos matrimoniais como se o seu cônjuge estivesse morto" — The Gospel of the Kingdom, (Eerdmans, 1959) p. 85.]; portanto, ninguém teria duvidado que a infidelidade conjugai fosse motivo para o divórcio. Até mesmo os rabinos rivais, Shammaie Hillel, con­cordavam com isso. Só discordavam quanto à amplitude com que esta expressão "alguma coisa indecente" em Deuteronômio 24:1 poderia ser interpretada. 
A segunda dúvida sobre a cláusula de exceção refere-se ao que significa por causa de relações sexuais ilícitas, conforme traduz a Edição Revista e Atualizada. A palavra grega é porneia. Normalmente é traduzida por "fornicação", indicando a imora­lidade dos que não são casados, e frequentemente distingue-se de moicheia ("adultério"), a imoralidade dos casados. Por causa disto, alguns têm argumentado que a cláusula de exceção per­mite o divórcio no caso de descobrir-se algum pecado sexual pré-marital. Alguns acham que "a coisa indecente" de Deute­ronômio 24:1 tem o mesmo significado. Mas a palavra grega não é bastante precisa para ficar assim limitada. Ponteia deriva de ponte, prostituta, sem especificar se esta é casada ou solteira. Também não especifica o estado civil do seu cliente. Mais ainda, foi usada na Septuaginta referindo-se à infidelidade de Israel, a esposa de Jeová, conforme exemplificado emGomer, esposa de Oséias (Os 1:2,3; 2:2,4.). Devemos, então, concordar com R. V. G. Tasker, que concluiu que ponteia é um "termo abrangente, incluindo adultério, fornicação e perversão sexual". Ao mesmo tempo, não temos liberdade de cair no extremo oposto e argumentar que ponteia abranja toda e qualquer ofensa que tenha de alguma forma até mesmo vaga, qualquer coisa a ver com o sexo. Isto seria praticamente o mesmo que igualar porneia com "incompatibilidade", e não temos apoio etimológico para isso. Não; porneiasignifica "falta de castidade", algum ato de imoralidade sexual física. 
O que, então, Jesus ensinou? N. B. Stonehouse oferece uma boa paráfrase da primeira parte da antítese do Sermão do Monte: "Vocês ouviram a apelação dos mestres judeus sobre Deutero­nômio 24:1, com a intenção de consubstanciar uma prática que permita aos maridos divorciar-se, livremente e a seu bel-prazer, de suas esposas, fornecendo-lhes simplesmente um estúpido documento legal de transação." "Mas eu digo a vocês", con­tinuou Jesus, que tal comportamento irresponsável da parte do marido fará com que ele, sua esposa e os novos parceiros tenham uniões que não constituem casamentos, mas adultérios. Neste princípio geral, temos uma exceção. A única situação em que o divórcio e o novo casamento são possíveis sem transgredir o sétimo mandamento é quando o casamento já foi quebrado por algum sério pecado sexual. Neste caso, e só neste caso, Jesus parece ter ensinado que o divórcio seria permissível, ou pelo menos poderia ser obtido sem que a parte inocente adquirisse mais tarde o estigma do adultério. A tendência moderna dos países ocidentais de estruturar a legislação para o divórcio com base, antes, na "separação irrecuperável" ou "morte" do casa­mento e não na "ofensa matrimonial" precisa de leis melhores e mais justas; não se pode dizer que seja compatível com os ensinamentos de Jesus. 
Não obstante, o assunto não pode ser abandonado aqui, pois esta relutante permissão de Jesus continua precisando ser consi­derada pelo que é, a saber, uma acomodação sustentada por causa da dureza dos corações humanos. Além disso, deve-se sempre ler no contexto imediato (o endosso enfático de Cristo à permanência do casamento no propósito de Deus) e também no contexto mais amplo do Sermão do Monte e de toda a Bíblia, que proclama um evangelho de reconciliação. Não significa muito o fato de que o Amante Divino estivesse sempre pronto a atrair novamente Israel, sua esposa adúltera? (Jr 2:1; 3:1; 4:1; Os 2:1-23.) Portanto, que ninguém comece uma discussão sobre este assunto, indagando sobre a legitimidade do divórcio. Estar preocupado com os mo­tivos para o divórcio é ser culpado daquele mesmo farisaísmo que Jesus condenou. Toda a sua ênfase na discussão com os rabinos foi positiva, isto é, foi colocada sobre a instituição ori­ginal divina do casamento como um relacionamento exclusivo e permanente, no qual Deus junta duas pessoas numa união que nenhum homem pode interromper; e (é preciso acrescentar) ele enfatizou a sua ordem dada a seus seguidores para amarem-se e se perdoarem uns aos outros, e para serem pacificadores em cada situação de luta e discórdia. Crisóstomo reuniu, adequada­mente, esta passagem às bem-aventuranças e comentou em sua homília: "Pois aquele que é manso, pacificador, humilde de espírito e misericordioso, como poderia repudiar sua esposa? 
Aquele que está acostumado a reconciliar os outros, como po­deria discordar daquela que é a sua própria carne?” Com este ideal, propósito e chamamento divinos, o divórcio só pode ser considerado uma trágica deterioração. 
Portanto, falando pessoalmente como pastor cristão, sempre que alguém me pede para conversar sobre o divórcio, já há alguns anos me recuso firmemente a fazê-lo. Adotei como regra não falar com ninguém sobre o divórcio, sem antes falar sobre dois outros assuntos, isto é, casamento e reconciliação. Às vezes, uma discussão destes tópicos torna desnecessária a outra. Final­mente, apenas depois de se ter compreendido e aceitado o ponto de vista divino do casamento e o chamamento divino à recon­ciliação, é que há a possibilidade de se criar um contexto dentro do qual se possa falar com pesar sobre o divórcio. Acho que este princípio de prioridades pastorais é coerente com os ensina­mentos de Jesus.

2. Honestidade no falar (v. 33)

Os rabinos não só pendiam para a permissividade em sua atitude para com o divórcio, mas também eram permissivos em seus ensinamentos sobre o juramento. É outro exemplo de como se desviaram das Escrituras do Velho Testamento, a fim de as tornarem mais fáceis de serem obedecidas. Precisamos primeiro examinar a lei mosaica, depois a distorção farisaica e, final­mente, as verdadeiras aplicações da lei sobre as quais Jesus insistiu. 
Também ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus jura­mentos. 
Esta não é uma citação exata de nenhuma lei de Moisés. Ao mesmo tempo, não se trata de um resumo impreciso de diversos preceitos do Velho Testamento, de preceitos que exigem das pessoas o cumprimento dos votos que fizeram. E tais votos são, estritamente falando, "juramentos" nos quais a pessoa invoca a Deus como testemunha do seu voto para puni-lo se não o cumprir. Moisés frequentemente parecia enfatizar o perigo do juramento falso e o dever de cumprir os votos feitos ao Senhor. Eis alguns exemplos:

"Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão" (Ex. 20:7, o terceiro mandamento). "Não jurareis falso pelo meu nome, pois profanaríeis o nome do vosso Deus" (Lv 19:12). "Quando um homem fizer voto ao Senhor, . . . não violará a sua palavra'' (Nm 30:2). "Quando fizeres algum voto ao Senhor teu Deus, não tardarás em cumpri-lo" (Dt 23:21). 
Até mesmo uma leitura superficial destes mandamentos torna clara a sua intenção. Proíbem o juramento falso ou perjúrio, isto é, fazer um voto e, depois, quebrá-lo. 
Mas os fariseus casuístas trabalhavam sobre estas proibições incômodas e tentavam limitá-las. Afastavam a atenção das pes­soas do voto propriamente dito e da necessidade de cumpri-lo, destacando a fórmula usada no voto. Argumentavam que o que a lei realmente proibia não era tomar o nome do Senhor em vão, mas tomar o nome do Senhor em vão. "Jurar falsamente", eles concluíram, significava profanação (um uso profano do nome divino), não perjúrio (empenhar a palavra desonestamente). Por isso, desenvolveram regras elaboradas para fazer votos. Fizeram listas de quais fórmulas eram permissíveis, e acrescentaram que apenas aquelas fórmulas que incluíam o nome de Deus tornavam o voto obrigatório. Ninguém precisa ser tão cuidadoso, diziam, sobre a guarda de votos nos quais o nome de Deus não fora usado. 
Jesus expressou o seu desprezo por esse tipo de sofisticaria num dos "ais" contra os fariseus ("guias cegos", ele os chamou) que Mateus registrou mais tarde (23:16-22): 
Ai de vós, guias cegos! que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou. 17Insensatos e cegos! Pois, qual é maior: o ouro, ou o santuário que santifica o ouro? 16E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é nada; quem, porém, jurar pela oferta que está sobre o altar, fica obrigado pelo que jurou. 19Cegos! Pois, qual é maior: a oferta, ou o altar que santifica a oferta? 20Portanto, quem jurar pelo altar, jura por ele e por tudo o que sobre ele está. 21Quem jurar pelo santuário, jura por ele e por aquele que nele habita; 22e quem jurar pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que no trono está sentado. 
Os ensinamentos de nosso Senhor no Sermão do Monte são semelhantes. A segunda parte de sua antítese, na qual ele apre­senta os seus ensinamentos em oposição aos dos rabinos, diz o seguinte::34 Eu, porém, vos digo: De modo algum jureis: Nem pelo céu, por ser o trono de Deus; 35nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; 36 nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto.37Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar, vem do maligno. 
Ele começa argumentando que a pergunta sobre a fórmula usada para se fazer votos é totalmente irrelevante e, particularmente, que a diferença feita pelos fariseus entre a fórmula que menciona Deus e aquelas que não o mencionam é inteiramente artificial. Contudo, por mais que vocês tentem, disse Jesus, não podem evitar alguma referência a Deus, pois o mundo todo é mundo de Deus e vocês não O podem eliminar, de modo algum. Se vocês jurarem pelo "céu", é o trono de Deus; se pela "terra", é o es­trado dos seus pés; se por "Jerusalém", é a sua cidade, cidade do grande Rei. Se vocês jurarem por sua cabeça, na verdade é sua no sentido de não pertencer a qualquer outra pessoa, mas ainda assim é criação de Deus e está sob o seu controle. Você não pode sequer mudar a cor natural de um simples fio de cabelo, preto na juventude e branco na velhice. 
Portanto, sendo irrelevante o enunciado preciso de uma fór­mula para fazer votos, então a preocupação com as fórmulas não é ponto importante da lei. Na verdade, considerando que todo aquele que faz um voto deve cumpri-lo (seja qual for a fórmula usada para sua confirmação), falando estritamente todas as fórmulas são supérfluas, pois a fórmula nada acrescenta à solenidade do voto. Um voto é obrigatório, independentemente da fórmula utilizada. Sendo assim, a verdadeira implicação da lei é que devemos cumprir as nossas promessas e ser pessoas de palavra. Então os votos se tornam desnecessários. De modo algum jureis (v. 34), seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não (v. 37). Como diria mais tarde o apóstolo Tiago: "Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não (Tg5:12.)." E o que disto passar, Jesus acrescentou, vem do maligno, tanto da maldade dos nossos co­rações com o seu grande engano, como do maligno, que Jesus descreveu como "mentiroso e pai da mentira (Jo 8:44.)". Assim como o divórcio é devido à dureza do coração humano, os juramentos se devem à falsidade humana. Ambos foram permitidos por lei; nenhum foi ordenado (cf. Dt 23:22); nem seriam necessários. 
Duas perguntas podem surgir em nossas mentes, a esta altura. Primeira, se os juramentos são proibidos, por que Deus mesmo usou juramentos nas Escrituras? Por que, por exemplo, ele disse a Abraão: "Jurei por mim mesmo . . . que deveras te abençoa­rei .. ."? (Gn22:16,17. cf. Hb 6:13-18.). A isto creio que devemos responder que o propósito dos votos divinos não foi aumentar a sua credibilidade (consi­derando que 'Deus não é homem para que minta') [Nm 23:19.], mas sim despertar e confirmar a nossa fé. A falha que levou Deus a condescender com o nível humano não se deve a qualquer falsidade da parte dele, mas da nossa incredulidade. 
Em segundo lugar, se os juramentos ficam proibidos, esta proibição é absoluta? Por exemplo, deveriam os cristãos, a fim de sercoerentes em sua obediência, abster-se de jurar em alguma declaração juramentada diante de um oficial da justiça, e teste­munhar sob juramento num tribunal legal? Os anabatistas ado­tavam esta linha de comportamento, no século dezesseis, e a maioria dos quakersainda o faz hoje em dia. Embora admiremos o seu desejo de não transigir, surge a questão: tal interpretação não é excessivamente literal? Afinal nem mesmo Jesus, Mateus registra mais tarde, se recusou a responder quando o principal dos sacerdotes o colocou sob juramento, dizendo: "Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus." Jesus confessou que era e que, mais tarde, eles o veriam entronizado à direita de Deus (Mt 26:63, 64.). O que Jesus enfatizou em seus ensina­mentos foi que os homens honestos não precisam recorrer a juramentos; não que eles devam recusar-se a prestar juramento, se tal coisa for exigida por alguma autoridade externa. 
A aplicação moderna não é difícil de se achar, pois os ensina­mentos de Jesus são eternos. Jurar (isto é, assumir votos) é real­mente uma confissão patética de nossa própria desonestidade. Por que achamos necessário introduzir nossas promessas com alguma fórmula tremenda: "eu juro pelo arcanjo Gabriel e todo o exército dos céus", ou "eu juro pela Santa Bíblia"? O único motivo é que sabemos que as nossas simples palavras não são dignas de crédito. Por isso, tentamos induzir as pessoas a acredi­tarem em nós, acrescentando um juramento solene. Interessante é notar que os essênios (uma seita judaica contemporânea de Jesus) tinham altos padrões neste ponto. Josefo escreveu sobre eles: "São conhecidos pela fidelidade e são ministros da paz. Qualquer coisa que digam é mais firme que um juramento. Mas eles evitam o juramento e o consideram pior que o perjúrio, pois dizem que aquele em quem não se pode crer sem (jurar por) Deus, já está condenado." O mesmo acontece com todas as formas de exagero, hipérboles e o uso de superlativos. Nós não nos contentamos em dizer que passamos horas agradáveis; temos de descrevê-las como "fantásticas" ou "fabulosas" ou até mesmo "fantabulosas" ou qualquer outra invenção. Mas quanto mais recorremos a tais expressões, mais desvalorizamos a linguagem e as promessas humanas. Os cristãos deveriam dizer o que pre­tendem e pretender o que dizem. Nosso "sim" e "não" sem adornos deveria ser o suficiente. E quando um monossílabo é suficiente, por que perder tempo e fôlego acrescentando algo mais?

J. R. W. Stott,  www.ebd.com

A moralidade pessoal do crente (I Co 6:12-20).

A presente seção aborda diversas expressões éticas dos crentes. Paulo parece iniciar uma discussão sobre várias questões «indiferentes», como as questões de alimentos proibidos, observância de dias, etc, segundo encontramos nos capítulos décimo quarto e décimo quinto da epístola aos Romanos. Mas a seção anterior, que versa sobre a santidade necessária no reino de Deus, bem como sua reprimenda severa contra vários abusos de natureza sexual, não demora a fazê-lo voltar às suas considerações sobre esse tema, e em termos ainda mais severos e definidos do que antes. 
A introdução de Paulo a esta seção, que menciona as regras da «liberdade cristã», em relação a alimentos proibidos e observância de dias especiais, quesão questões indiferentes, mui provavelmente nos dá margem a entender que os crentes de Corinto tinham situado os vícios sexuais na mesma categoria das coisas indiferentes, no que, naturalmente, estavam redondamente enganados. Talvez a declaração doutrinária deles pudesse ser expressa da seguinte maneira: «É questão indiferente o que alguém faz com seu próprio corpo. O que importa é somente o espírito». E isso expressa uma boa doutrina gnóstica, ler em ebdareiabranca. Aqueles crentes tinham abusado do ensino paulino da «liberdade cristã», dando-lhe aplicações que não lhe pertenciam por direito. É por essa razão, pois, que Paulo esclarece: «Porém, o corpo não é para a impureza, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo», no décimo terceiro versículo deste mesmo capítulo. 
A cidade de Corinto era um centro de vícios sexuais de vários tipos, talvez sem igual em qualquer outro lugar do mundo de então. E a igreja cristã ali existente quase não podia evitar ser contaminada por esse péssimo ambiente. A prostituição fazia parte das antigas religiões pagãs, sendo uma prática totalmente aprovada por elas. Estrabão calculava que em Corinto havia nada menos de mil prostitutas religiosas profissionais, as quais faziam parte ativa da suposta adoração aos deuses, em meio a ritos caracterizados pela sensualidade. Além disso, havia muitas outras prostitutas seculares, abundando por toda parte os lupanares. Por essa razão o termocorintinizar veio a ser usado para expressar os abusos sensuais de qualquer sorte. Não admira, portanto, que Paulo tenha sentido a necessidade de frisar continuamente quão condenável era esse abuso, nesta sua epístola, o que fez de diversas maneiras. Os povos antigos em geral, e não meramente os habitantes de Corinto, tinham um ponto de vista extremamente liberal acerca das relações sexuais anteriores ao matrimônio, não sendo muitos os que viam qualquer malefício nessa libertinagem. Mas de modo geral, a cultura greco-romana era totalmente incompatível com os ideais judaicos sobre essa questão; e o cristianismo na realidade aumentou ainda mais o abismo de diferença de atitudes ao invés de suavizá-lo. É interessante que na cultura judaica prevalecia um duplo padrão; porque um homem podia viver com uma mulher, estabele­cendo com ela alguma forma de contrato, por mais breve que fosse em sua duração, e assim podia ter relações sexuais com ela, com a sanção total da própria lei mosaica. Para a mulher, contudo, as coisas eram bem diferentes, visto que tal liberalidade não se aplicava a ela. Diz-se que certos rabinos estavam acostumados a dizer, quandochegavam a alguma nova cidade: «Quem quer ser minha esposa por um dia?» Sim, um homem podia agir dessa maneira, mas não uma mulher. 
Em violento contraste com essas práticas, o cristianismo, apesar de não haver denunciado ou ilegitimado a poligamia, ou mesmo o concubinato, na forma de contratos legais para efeito de relações sexuais, retornou ao princípio mais primitivo como o ideal e o principio que defendiam quanto a esse particular um homem para uma mulher. Outrossim, no seio da igreja cristã, todo o líder tinha de ser «esposo de uma mulher» (ver I Tm 3:12). No cristianismo, pois, a tendência, até mesmo dentro da cultura judaico-cristã, onde a poligamia continuava comum nos dias do Senhor Jesus, foi a de reestabelecer a ética mais antiga sobre essa questão, um princípio mais puro e espiritualmente mais edificante. Podemos estar certos, porém, que em Corinto não havia leis que regulamentassem a poligamia ou o concubinato, embora o vício fosse extremamente generalizado, sancionado até mesmo pelas religiões oficiais.

Foi para uma gente assim mal acostumada que Paulo escreveu esta epístola. Para muitos coríntios, o evangelho, embora tivesse sido ostensivamente recebido, na realidade não modificara os seus hábitos. Por essa razão é que Paulo lhes escreveu, a fim de repreendê-los e instruí-los. Sabiam quais eram as exigências que Cristo lhes impusera. Não ignoram essas exigências. Pois o apóstolo dos gentios estivera entre eles pelo espaço de dezoito meses (ver o décimo oitavo capítulo do livro de Atos), tendo recebido instruções minuciosas da parte dele. Mas simplesmente lhes faltava o caráter cristão necessário para saírem e se separarem do paganismo e de suas práticas aviltantes. 
6:12    Todos os coisas me são licitas, mas nem todos as coisas convém. Todas as coisas me são licitai; mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas.

Alguns daqueles membros da igreja cristã de Corinto haviam defendido a sua lassidão de costumes abusando da doutrina paulina da «liberdade cristã», o que contribuiu tão-somente para aumentar a gravidade de seus pecados. Paulo já havia mostrado um caso flagrante de «imoralidade» (no grego, «porneia», em I Co 5:1 e ss.); e agora aborda esse mesmo tema, com termos mais generalizados, aplicando-o aos muitos casos de imoralidade havidos na igreja cristã de Corinto.
 A menção das questões sexuais faz lembrar a Paulo a questão da liberdade cristã. O apóstolo dos gentios mostra que a sua doutrina da «liberdade cristã», contrariamente ao que pensavam certos, não dava apoio ao «partido dos libertinos». Paulo menciona os «slogans» desse partido, para em seguida refutá-los. Esse partido usava de chavões como «Todas as coisas me são lícitas». «O alimento é para o estômago, e o estômago para o alimento». É até mesmo possível que Paulo tivesse escrito declarações dessa ordem aos crentes de Corinto; mas eles as tinham distorcido em seu sentido tencionado, dando-lhes uma aplicação muito mais ampla do que qualquer interpretação cristã poderia suportar.
 «...Todas as cousas me são lícitas...» Podemos supor que o partido dos libertinos, na igreja cristã de Corinto, usava esse «slogan», entre outros, provavelmente utilizando-se de expressões paulinas, embora distorcidas.

Os Exageros Dos Coríntios

1. Alguns pervertiam os ensinamentos paulinos sobre a graça, de modo a não haver mais qualquer distinção moral. Tais homens tornavam-se totais pragmáticos, não percebendo mal algum em qualquer coisa, a menos que houvesse resultados adversos para o próprio indivíduo, resultantes de certos atos. Tudo o mais tornava-se matéria indiferente para eles, e não se deixavam guiar por qualquer lei moral. 
2. O ensino de Paulo, neste ponto, fala sobre situações «não-morais». Com isso, Paulo não estava removendo a lei moral, pois existem atos que são malignos em si mesmos. Todavia, através das circunstâncias, há outras coisas que chegam a ser más. 
3. Talvez alguma forma primitiva de gnosticismo (ver Cl 2:18) tivesse lançado raízes em Corinto. Essa doutrina ensinava que podemos praticar certos males morais que prejudicam ao corpo, porquanto isso resultaria no bem de destruir o corpo físico, o qual, juntamente com toda a matéria, é princípio mesmo do mal. Imaginavam tolamente que os males físicos não podem causar dano à alma imaterial.
 Mas Paulo responde como segue: «Todas as cousas me são lícitas, mas nem todas convém. Todas as cousas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas». Assim sendo, a resposta dada por Paulo é dupla:

1. Nem todas as coisas me são convenientes, nem pessoal e nem socialmente, sem dúvida. Em outras palavras, devo ter cuidado com as minhas ações, para que não venha a prejudicar a outros. (Com isso se podem comparar os trechos de I Co 7:35; 10:23 e 12:7). Ao invés de «...convém...» poderíamos traduzir «são expedientes», «são úteis», são dignas, porquanto, no original grego, temos um verbo que indica algo que resulta em «bem», em seu funcionamento. O argumento de Paulo é que até mesmo no caso das questões moralmente indiferentes, as quais poderiam ser reputadas «legítimas», isto é, não contraditórias com qualquer conceito moral, até mesmo nesses casos nem todas as coisas podem ser praticadas de qualquer modo, visto que nem tudo contribui para o bem-estar espiritual dos crentes, nem para o próprio indivíduo e nem para a comunidade cristã. Dentro dessa categoria poderíamos situar os capítulos catorze e quinze da epístola aos Romanos, bem como o oitavo capítulo da presente epístola, que envolvem questões como alimentos proibidos, observância de dias especiais, dieta vegetariana, o uso geral da liberdade cristã, a prática ou não das cerimônias religiosas do judaísmo, a escolha das diversões, etc. Pois quando a nossa liberdade exerce mau efeito sobre os nossos semelhantes, é que já entramos no terreno das coisas que não são moralmente indiferentes, ainda que aquilo que é praticado não é mau por si mesmo.

2. Todas as coisas são legítimas, isto é, «estão em meu poder» de serem praticadas, mas «...eu não me deixarei dominar por nenhuma delas». Pode-se notar o jogo de palavras, porquanto a palavra básica, em cada caso, é a mesma, no original grego. Assim sendo, todas as coisas podem ser praticadas dentro dos limites do padrão de autoridade que me serve de orientação; porém, quando qualquer ação começa a «fazer-me exigências autoritárias», procurando «dominar-me», então tal ação não é mais moralmente indiferente. Porque comomeu Senhor reconheço unicamente a Jesus Cristo. Não posso tornar-me escravo de qualquer outro princípio. Não posso ser escravizado por princípios de dieta vegetariana, pela necessidade de observar determinados dias especiais, nem insistindo sobre a necessidade dessas coisas e nem combatendo contra a sua conveniência. Simplesmente não posso deixar-me dominar pelo que quer que seja, e nem por quem quer que seja, exceto pelo Senhor Jesus. Poderia tornar-me escravizado até mesmo pelo uso excessivo da minha liberdade cristã, ou então pelo temor de usar de qualquer liberdade cristã. Quando eu não mais for liberto de Deus, em minha expressão ou vida diária, então terei perdido a minha liberdade em Cristo, e terei sido dominado por algo; e assim sendo, terei cometido um grave pecado, contra mim mesmo e contra meus semelhantes.

A palavra «...eu...» é enfática aqui. É como se Paulo tivesse declarado: «Quanto a mim, tenho limitações em minha liberdade cristã, pelas duas razões acima declaradas». 
«Abusamos da nossa liberdade cristã quando a usamos para debilitar nosso caráter e diminuir nossa faculdade de autocontrole...Devemos usar de cautela para que não usemos dessa liberdade de tal modo que a percamos, como, por exemplo, quando nos tornamos escravos de hábitos sobre coisas que, por si mesmas, são legítimas». (Robertson e Plummer, in loc). 
Ora, exatamente isso é que os legalistas tinham feito, em sua insistência sobre a observância das leis cerimoniais mosaicas. E aqueles que defendiam o ponto de vista oposto, também se tinham deixado escravizar, devido à sua insistência sobre uma maneira de viver mais livre. Ambos os grupos tinham prejudicado um ao outro, não tendo buscado o bem-estar e a vantagem espirituais uns dos outros; pelo contrário, haviam desobedecido à injunção paulina de nada fazerem que não seja «benéfico» e «expediente» em suas tendências e resultados. 
A verdadeira liberdade consiste no modo como e na maneira pela qual escolhemos um determinado senhor ou dominador. No caso dos crentes, o único Senhor só pode ser Jesus Cristo. Ora, se assim é o caso, até mesmo quanto às questões moralmente indiferentes, certamente não podemos aplicar a doutrina paulina da «liberdade cristã» visando abusar do corpo, na forma de perversões sexuais; e isso porque tal coisa nem ao menos se trata de uma questão indiferente, mas antes, envolve um princípio moral bem real e vital, conforme Paulo passa a demonstrar em seguida. (Uma exposição completa sobre o tema da liberdade cristã se encontra nos capítulos décimo quarto e décimo quinto da epístola aos Romanos, bem como no oitavo capítulo da presente epístola). Paulo lança mão aqui desse conceito a fim de introduzir seu severíssimo estudo sobre as coisas não indiferentes, e também a fim de negar enfaticamente que aquilo que é «moralmente indiferente» pode ser um princípio aplicado a uma conduta sexual frouxa, conforme vários crentes coríntios de inclinações libertinas vinham fazendo. 
Se sacrificarmos a capacidade de escolha, implícita no pensamento da liberdade, deixaremos de ser livres; e passaremos a ficar sujeitos ao poder que deveria estar debaixo do nosso poder. 
Até mesmo de acordo com o princípio da liberdade cristã, e quanto mais segundo o princípio daquilo que convém ou não, a fornicação, a imoralidade de todas as variedades, são atitudes errôneas. Porquanto aquele que comete fornicação é posto sob o poder de uma prostituta, e não mais é um crente livre. O crente que cai nesse pecado somente debilitou seu próprio poder, bem como o poder de Cristo sobre ele, tendo, entregue as rédeas de sua vida às forças tenebrosas da maldade. Tal crente deixou de ser senhor de si mesmo, tendo rejeitado o domínio de Cristo Jesus. (Ver os trechos de Jo 8:34-36; Gl 5:13; I Pe 2:16 e II Pe 2:19). 
«Somos senhores de todas as coisas; tão-somente não devemos abusar desse senhorio de modo a sermos arrastados para a mais miserável servidão, ficando sujeitos às coisas externas, através da falta de controle e dos desejos desordenados, que antes deveriam estar sujeitos a nós». (Calvino, in loc). 
«O corpo foi designado para ser o órgão do Espírito Santo, para dominar a natureza, e não para ser o órgão da natureza para dominar o Espírito». (Kling, in loc). 
«'Não me deixarei dominar por nenhuma delas...' são palavras que se referem sobretudo à sensualidade no comer e no beber, através do que, aquele que cede a tais tentações, perde o domínio sobre si mesmo, que ele entregara às mãos de Deus, tornando-se o mais vil de todos os escravos. Com isso comparar o final do sétimo capítulo da epístola aos Romanos». (Bloomfield, in loc).

6:13    Os alimentos são para o estômago e o estômago para os alimentos; Deus, porém, aniquilará, tanto um como os outros. Mas o corpo não é para a prostituição, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo.

Paulo admite aqui que existem realmente questões indiferentes, que não têm ligação alguma com a fé, com a vida eterna e com a esperança do crente, mas que pertencem inteiramente a esta esfera física e transitória. O Senhor Jesus declarou algo similar a respeito dos alimentos indiferentes e de outras coisas da mesma natureza, no trecho de Mc 7:18,19. Os alimentos foram criados para serem comidos, e a ingestão de alimentos serve para sustento do corpo físico. Não há qualquer moralidade envolvida no ato de comer, nos alimentos, no estômago e nos processos digestivos. Nessa área, o indivíduo pode fazer o que melhor lhe parecer. (Ver Rm 14:2,3,14,15). Mas o apóstolo dos gentios nega aqui que o próprio corpo seja uma questão indiferente, como se o mesmo pudesse ser usado ao bel-prazer do crente. E isso porque a contaminação do corpo afeta o espírito e corrompe a pessoa inteira. A imoralidade não pode ser situada dentro da mesma categoria dos alimentos para sustento do corpo, porquanto há algo de aviltante e degradante nas relações sexuais ilícitas, que afeta a própria alma e o seu bem-estar espiritual. 
«O seu argumento é que há uma lei de adaptação que percorre a natureza inteira, ilustrada pela adaptação mútua dos alimentos e dos órgãos da digestão. Mas essa lei é violada pela prostituição do corpo, na fornicação, para o que, segundo a ordem determinada por Deus, o corpo não foi adaptado». (Vincent, in loc). 
Os crentes de Corinto, por conseguinte, misturavam a questão dos alimentos para o corpo, como algo que é indiferente, com o corpo entregue a práticas sensuais, um assunto inteiramente diferente daquele, embora aqueles crentes não pudessem ou não quisessem perceber tal distinção. Os filósofos gnósticos pensavam que o corpo físico já é inevitavelmente a sede mesma do princípio do mal, visto que o pecado é material, e eles imaginavam que a matéria é má e que o espírito é bom. E daí concluíam que aquilo que acontece ao corpo é inteiramente indiferente, visto que o espírito humano só seria libertado desse princípio do mal por ocasião da morte física. Mas Paulo salientou que se o homem abusar de seu corpo, mediante práticas pecaminosas, também estará prejudicando a sua alma, em sua espiritualidade e progresso. (Com isso se pode confrontar o trecho de I Pe 2:11, onde se lê: «Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais que fazem guerra contra a alma»). Isso expressa com precisão o pensamento de Paulo neste ponto. 
O fato de que a filosofia pagã, ao tratar das questões morais, com frequência classificava coisas não-essenciais, como os alimentos, paralela­mente a pecados morais supostamente não-prejudiciais, também pode ser visto no trecho de At 15:23-29, —onde as exigências impostas aos primitivos gentios convertidos ao cristianismo incluíam ambos esses aspectos, como se ambos fossem igualmente importantes. 
«...Deus destruirá...» isto é, tanto os alimentos como os estômagos ou órgãos de digestão, tudo o que está sujeito à decadência, começando e terminando dentro do tempo. Porque essas coisas pertencem, estritamente, à ordem das coisas temporais. Mas não acontece assim com a alma, que participa da eternidade. (Ver décimo sétimo versículo deste mesmo capítulo). Moralmente falando, essas coisas temporais são indiferentes, a menos, naturalmente, que certos alimentos sejam prejudiciais para o corpo, motivo pelo qual devem ser evitados, a fim de não causar dano ao templo do Espírito Santo. (Ver I Co 3:16 e ss.). É possível que aqui haja certa referência ao tempo, já no estado futuro, especialmente na eternidade, quando não mais precisaremos de qualquer alimento físico. Então esse tipo de coisas temporais desaparecerá inteiramente. 
«...Porém, o corpo não é para a impureza...» Embora o corpo seja temporal, material, como o é o estômago, tem uma missão mais alta do que aqueles crentes de Corinto suspeitavam. O corpo do crente é templo do Espírito Santo, uma casa santa, que deve ser usada como instrumento do Espírito de Deus para o bem, e não para o mal. (Ver I Co 3:16 e ss. e 6:19). 
A metafísica de Paulo, aqui abordada, é tipicamente hebraica. Paulo não separava corpo e espírito como duas entidades separadas, conforme ele faz no quinto capítulo da sua segunda epístola aos Coríntios, que é nosso melhor capítulo acerca da «imortalidade». Para os hebreus, o corpo físico era um objeto psiquicamente animado. E segundo esse ponto de vista não é algo transitório, passageiro, visto estar sujeito à ressurreição e à vida eterna, quando o crente será transformado para possuir um corpo espiritual.

A Metafísica De Paulo

1. Paulo seguia a linha de pensamento dos hebreus, não distinguindo claramente entre o corpo e o espírito, mas antes, encarando o princípio físico como a condição natural e necessária do homem, agora e para sempre. No estado eterno, o espírito será revestido de um corpo, presumivelmente o corpo terreno ressurreto. 
2. Portanto, é de extrema importância aquilo que um homem fizer através do seu corpo. Além disso, dificilmente se pode imaginar que o corpo, por si mesmo, seja maligno (conforme os gnósticos pensavam). Todavia, o corpo físico torna-se uma vítima fácil do mal. 
3. A espiritualidade, portanto, dificilmente poderá ser atingida enquanto o indivíduo abusa de seu corpo por meio da imoralidade. 
«...impureza...» O vocábulo grego por detrás dessa tradução é o mesmo que vem sendo usado desde I Co 5:1, isto é, «porneia», palavra essa que indica toda a forma de «imoralidade». 
«Paulo mostra aqui ousadamente a falácia existente no paralelo que alguns faziam entre o apetite do estômago para com os alimentos e a imoralidade. O corpo humano possui uma missão muito mais elevada do que a mera satisfação dos apetites sensuais desordenados.O sexo foi criado por Deus para a propagação da raça, e jamais para a prostituição. E Paulo já havia asseverado que Deus habita em nós como santuário do Espírito Santo. (Ver I Co 3:16 e ss.).» (Robertson, in loc). 
Paulo ensinava aqui que de alguma maneira, que ele não explana, tanto o corpo como a alma têm um destino eterno. Sem importar se os átomos deste corpo físico terão ou não tal futuro, ou se o «corpo» será uma nova criação, de material distinto da alma, e como veículo de expressão da alma, o fato é que o corpo também tem um elevado destino, embora Paulo não esclareça de que modo. Não obstante, o apóstolo dos gentios declara que aquilo que é feito através deste corpo físico tem reflexos sobre a personalidade inteira do indivíduo, afetando o seu destino, e degradando ou elevando toda a pessoa. Por conseguinte, é muitíssimo importante aquilo que fazemos com os nossos corpos. 
«...mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo...» Quando da ressurreição, o corpo de Cristo foi ressurreto e espiritualizado. Ele levantou-se dentre os mortos e posteriormente ascendeu aos céus como o primeiro homem verdadeiramente imortal de Deus. O espírito de Jesus não foi deixado despido do corpo, mas foi revestido de um corpo glorificado, transcendental. Assim também sucederá no caso de todos os crentes. A ressurreição dos crentes será a recomposição da personalidade inteira dos remidos. A alma humana é imortal; mas também existe aquele revestimento da alma por meio do corpo já glorificado, que terá por modelo a semelhança do corpo glorioso de Jesus Cristo. Não sabemos dizer, contudo, se o «corpo glorificado» incorporará os átomos do nosso antigo corpo ou não; mas isso é inteiramente destituído de importância para o argumento aqui apresentado por Paulo. (Ver o trecho de Fp 3:21 quanto ao «corpo glorioso de Cristo», do qual também participaremos). Seja como for, o corpo é «para o Senhor», tendo seu destino e propósito, seu uso próprio, visando a glória do Senhor, não se destinando certamente à «imoralidade», à satisfação dos desejos sensuais desordenados. 
«...Senhor...», neste caso, como na maioria das ocorrências do termo, indica o Senhor Jesus Cristo, o Salvador dos homens.Referindo-se à mensagem geral deste versículo, Faucett (in loc.) comenta como segue: «Temos aqui o gérmen dos três assuntos abordados nas seções subsequentes: 1. A relação entre os sexos; 2. A questão dos alimentos oferecidos aos ídolos; 3. A ressurreição do corpo. Uma essência real subjaz os fenômenos superficiais da presente organização do corpo; esse gérmen, quando todas as partículas são espalhadas, envolve a ressurreição de um corpo incorruptível». 
É possível que Paulo tenha usado aqui o termo corpo, a fim de subentender o próprio «eu». Os pecados do corpo prejudicam ao «eu», à pessoa inteira. Jesus Cristo veio para redimir a pessoa inteira, incluindo o corpo, que deve ser considerado como o veículo físico, que será transformado e espiritualizado quando da ressurreição. Por conseguinte, o corpo deve ser redimido, e não sujeito à imoralidade. Nesse sentido, a salvação envolve igualmente o corpo. (Ver Rm 8:23). 
«O Senhor Jesus e a 'porneia' lutam pelo domínio dos corpos dos crentes; se quiserem ser leais a ele, precisam renunciar àquilo; se cederem àquilo, terão de renunciar a ele». (Findlay, in loc). 
Visto que o corpo é «para o Senhor» em sentido final, isto é, pertencente a ele por toda a eternidade, tendo sido redimido por ele, é lógico que agora mesmo os crentes usem os seus respectivos corpos para serem usados no serviço de Cristo e para sua glória, e não para fins de degradação moral. Cristo comprou nosso corpo, e é a ele que o corpo pertence, tal como um escravo pertence totalmente ao seu senhor. (Ver o vigésimo versículo deste capítulo).

6:14    Ora, Deus não somente ressuscitou ao Senhor, mas também nos ressuscitará a nós pelo seu poder.

Consideremos o exemplo de Cristo Jesus. Durante toda a sua vida terrena ele viveu com pureza, e ninguém podia convencê-lo de pecado. Não corrompeu ao seu corpo. Outrossim, após a morte física, seu corpo foi ressuscitado pelo poder de Deus, tendo sido espiritualizado. Dessa maneira ele ascendeu aos céus e está ocupado em um serviço celestial, para glória de Deus. Assim também sucederá a todos os crentes. O corpo dos crentes é passível de ressurreição, estando destinado aos lugares celestiais, razão pela qual não pode ser usado para o serviço da maldade. Portanto, a moralidade não é uma questão indiferente, como indiferentes são as questões dos tipos de alimento e dos órgãos digestivos, tudo o que não demorará a perecer, jamais tendo sido criados para caracterizarem a natureza do estado futuro.

«Já que o corpo está destinado a compartilhar, juntamente com o corpo de Cristo, da ressurreição, quando será erguido incorruptível, está sujeito a uma mais elevada adaptação, com o que a fornicação é incompatível». (Vincent, in loc). 
Dessa maneira, pois, Paulo empresta maior peso ao seu argumento, acerca da sua dignidade e elevados propósitos, bem como acerca do alto destino do corpo do crente. 
É frisada aqui a primeira ressurreição. (Ver Ap 20:5). A esperança escatológica tem elevado a importância do corpo do crente muito além das inadequadas filosofias que alguns crentes de Corinto aplicavam. 
A ressurreição se verificará mediante o «...poder...» de Deus, o que é frase comum vinculada à ideia da ressurreição, embora não envolva qualquer sentido comum, mas antes, um significado elevadíssimo. A ressurreição é a demonstração mesma do poder de Deus, visto que os homens não podem realizar tal coisa, e muito menos ainda a grande espiritualização dos corpos ressuscitados que se seguirá. A ressurreição dos crentes, pois, inclui a ideia da espiritualização, como também, usualmente a ascensão aos lugares celestiais, com a glorificação resultante. Ora, isso pode ser realizado exclusivamente por Deus, através do poder sem igual que ele possui. (Comparar com os trechos de At 2:27,30,31,33; Ef 1:19 e ss.). 
Deus abolirá os alimentos e os estômagos, visto que são coisas que pertencem à ordem temporal de coisas. Mas Deus ressuscitou a Jesus Cristo (seu corpo), e assim também fará conosco, utilizando-se do seu mesmo poder divino. Portanto, o corpo do crente é para o Senhor, e não para a imoralidade. 
Paulo não se refere aqui à sua esperança de escapar inteiramente da morte física, o que era uma esperança real para ele, conforme se aprende em I Co 15:51. Esse aspecto de sua esperança é omitido porque ele abordava um assunto que requer o concurso da ressurreição. Por causa de seu argumento, ele deixou passar ao largo uma doutrina que faria alguns crentes negligenciarem a realidade da morte física. 
Variante Textual: Existem várias modificações, nos manuscritos antigos, do tempo do verbo que expressa a ressurreição dos homens. O futuro, «ressuscitará» se encontra nos mss P(46) (primeiro corretor), Aleph, D(c),
vg(s cl w), Sa (pt) Bo e os manuscritos gregos mais recentes (minúsculos). O aoristo, «ressuscitou», aparece também nos mss P(46) (segundo corretor), B, 1739, nas versões latinas r,t, vg(pt), Sa(pt) e nos escritos de Orígenes. O tempo presente «ressuscita», aparece nos mss p(ll) século V d.C.) e pela mão original de P(46) (o documento mais antigo que possuímos, dos escritos paulinos, século III d.C), como também em A,D (mão original), 69 e alguns pontos outros manuscritos de menor importância. 
O tempo futuro dá a entender a ressurreição escatológica, sendo esse o prisma preferido pelos escribas. Mas é bem provável que isso seja uma emenda feita no aoristo, que mui provavelmente representa o original. Se o aoristo foi realmente usado por Paulo, então está em foco aqui a ressurreição espiritual dos crentes, em Cristo Jesus, o que é um acontecimento passado, tal como lemos também no trecho de Rm 6:4. Porém, mesmo que Paulo realmente tenha usado o tempo aoristo, ainda assim a ressurreição escatológica pode estar em vista, visto que, quando da ressurreição de Jesus Cristo, também fomos realmente «ressuscitados», numa potencialidade certa, que aguarda tão-somente a ocasião própria para que tal acontecimento se realize. Alguns estudiosos, entretanto, supõem que o tempo aoristo aparece aqui como assimilação do verbo que aparece neste mesmo versículo e que alude à ressurreição de Cristo, verbo esse que também está no tempo aoristo. Nesse caso, o original poderia estar no tempo presente ou no tempo futuro. Porém, o mais provável mesmo é que o tempo aoristo represente o original, o qual sofreu diversas modificações, conforme é esclarecido neste parágrafo. Sendo esse o texto «mais difícil», também é o mais provável, de acordo com as regras textuais. A modificação mais óbvia é aquela feita para o futuro. Alguns bons editores, entretanto, preferem realmente o futuro. Todavia não há maneira indiscutivelmente certa de dar solução a esse problema.

6:15    Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei pois os membros de Cristo, e os farei membros de uma meretriz? De modo nenhum.

Paulo dá início aqui a um outro argumento, visando mostrar que a polução do corpo dificilmente pode ser classificada dentro da mesma categoria dos alimentos para o estômago, conforme alguns crentes coríntios entendiam. Cada crente, individualmente, faz parte do corpo místico de Cristo. (Ver Rm 12:4,5 acerca desse tema. Ver também I Co 12:13). Cada membro é dotado de uma função toda especial, o que significa que cada crente é um membro sem igual, importante, ainda que não independente dos demais membros do corpo, e muito menos ainda, da Cabeça, que é Cristo Jesus. Ora, tudo isso fala da nossa «intimidade mística» com Cristo, em que há união de espíritos, conforme também lemos no décimo sétimo versículo deste mesmo capítulo. Há, portanto, uma união espiritualíntima, a participação dos crentes na mesma natureza espiritual de Cristo, mediante o poder transformador do Espírito Santo. E como poderiam, por conseguinte, aqueles que estão nessa comunhão mística com Cristo, terem também intimidade, no nível físico, com uma prostituta, através de atos imorais? Tais ações são mortíferas para o espírito do crente, detrimentos em extremo para a sua comunhão com Cristo, a sufocação mesma da espiritualidade. Ora, isso é algo totalmente contrário ao progresso espiritual, o que só pode ocorrer mediante a comunhão com Jesus Cristo, através de seu Santo Espírito. Tais concupiscências «guerreiam contra a alma», no dizer de IPe 2:11.

O corpo é «...para o Senhor...», para glória do Senhor, para seu serviço, para ser glorificado segundo o corpo glorificado de Jesus, para seu serviço eterno; mas também é «adaptado» para ele, em comunhão mística, do que também se deriva o nosso poder espiritual. Ora, ter qualquer contato com a imoralidade é sufocar essa intimidade e arruinar essa adaptabilidade da personalidade humana para com Cristo. Por essa razão é que a palavra «...corpo...», neste versículo, certamente envolve a ideia da «pessoa inteira», tema esse que atravessa todo o texto, ainda que o corpo físico literal também esteja em foco como algo sujeito à ressurreição, quando então a personalidade inteira será restaurada em Cristo e glorificada nele. Ora, essa «adaptação» (ver o décimo terceiro versículo deste capítulo) vem através da comunhão mística com o Senhor. E deveríamos estar interessados no aprimoramento dessa comunhão, ao invés de estarmos interessados no pioramento dessa intimidade, que é exatamente o que a prostituição efetua.

O ponto de vista pagão sobre o corpo sempre fazia com que o homem fosse reduzido ao nível dos animais; e, em um sentido totalmente físico, isso é uma verdade. Mas o «corpo», sem importar se está em foco apenas a entidade física, ou se queremos dar a entender a «pessoa inteira», tem algo em comum com o Cristo glorificado, e não com os animais irracionais, razão pela qual deve ser tratado com respeito, e não como se fosse apenas um organismo animal. Outrossim, o corpo do crente, quando da glorificação, juntamente com o «eu inteiro», torna-se membro de Cristo, desfrutando de comunhão mística com ele. Essa é outra razão poderosa pela qual o corpo (a entidade física e o eu inteiro) não pode ser entregue à prostituição. Agostinho observava: «Não podem eles ser, ao mesmo tempo, membros de Cristo e membros de uma prostituta». (De Civ. Dei xxi.25).

«...e os faria membros de meretriz?...» Poderia Paulo, do alto de sua autoridade apostólica na igreja, mediante ensinamentos frouxos, dizer aos crentes que lhes é facultado participar da imoralidade, assim prejudicando a sua comunhão com o Senhor Jesus? Nunca, responde Paulo. «Deus o proíba». «Longe de nós tal pensamento».

«...Absolutamente, não...» Literalmente traduzidas, essas palavras diriam: «Que não seja assim». Têm sido variegadamente traduzidas como «Deus proíba» (não literalmente, mas demonstrando o espírito de aversão), «Longe de nós tal pensamento», ou, mais simplesmente,Jamais! No original grego, temos «me genoito», uma das poucas ocorrências do modo optativo, nos escritos de Paulo. Essa expressão é de uso frequente na epístola aos Romanos, mas, nesta primeira epístola aos Coríntios figura somente aqui. Sempre que Paulo usa tal expressão, queria rejeitar vigorosamente a ideia anteriormente expressa, como que tocado por grande sentimento de repulsa. E isso mostrava como Paulo encarava a questão dos costumes sexuais lassos, que eram tão comuns em Corinto e por todo o mundo pagão daquela época.

«Segundo o ponto de vista helenista, o corpo era o envelope perecível da alma; segundo o ponto de vista das Escrituras, é o veículo permanente do seu espírito. Devotar o próprio corpo a uma prostituta é retirá-lo, antes de tudo, da possessão de Cristo; e fazer 'isso', e 'com tal propósito', basta a declaração (sem elaboração), para mostrar a infâmia de tal proposição». (Findlay, in loc). 
A declaração de repulsa do apóstolo Paulo contra a ideia da entrega do corpo à prostituição (no grego, «me genoito», conforme foi comentado mais acima), também foi utilizada por outros autores antigos, como Epicteto (ver Odisséia, vii.316). Por conseguinte, não era expressão original de Paulo, mas mui provavelmente podia ser ouvida comumente nos seus dias, mais ou menos da mesma maneira como ele a usou.

6:16    Ou não sabeis que o que se une à meretriz, faz-se um corpo com ela? Porque, como foi dito, os dois serão uma só carne.

A linguagem utilizada por Paulo é mais do que simbólica e poética. O que ele afirmava é que o contato sexual não é um ato físico passageiro, mas antes, de alguma maneira mística, une duas pessoas no mesmo tipo de laço íntimo. Mui provavelmente ele defendia a tese que, em tal união, ocorre alguma espécie de união de energias vitais físicas e psíquicas, uma real união de seres, de alguma maneira. Nos escritos dos místicos é comum a declaração que expressa o sentimento de que o sexo está envolvido em alguma forma qualquer de aura. E é fato bem conhecido que os impulsos sexuais suprimidos podem, realmente, provocar experiências místicas. No sexo, embora não saibamos dizer como, há um elemento transcendental qualquer, o que talvez envolva alguma forma de profunda comunhão entre as duas pessoas, no nível de suas energias vitais, tanto físicas como espirituais. Parece ocorrer uma espécie de união de seres. Talvez seja por esse motivo que, nas Escrituras, a relação matrimonial é empregada para ilustrar simbolicamente a união entre Cristo e a sua igreja, porquanto, de maneira bem real, exemplifica uma real comunhão de energias espirituais vitais, e não meramente uma união poeticamente expressa.

Paulo cita aqui o trecho de Gn 2:24, de acordo com a versão da Septuaginta (tradução do A.T. hebraico original para o grego, completada cerca de duzentos anos antes da era cristã), onde, naturalmente, há alusão às relações matrimoniais. Não obstante, Paulo deixava entendido que quer dentro do casamento, quer fora dele, as relações sexuais envolvem alguma espécie de união vital dos seres de duas pessoas. Essa união pode justificar nossa comum afirmativa que, de certa forma, elas se tornam «uma só pessoa». Ora, e seria possível que um crente, que professa ter a Jesus Cristo como seu Senhor, e que assim se encontra supostamente em Cristo, isto é, que goza de alguma espécie de comunhão mística com ele, possa ao mesmo tempo unir-se tão vitalmente a uma mulher sensual, carregada de pecados, impelida por diversas concupiscências fortes, como ocorre se se unir a uma prostituta? Paulo não podia admitir que ambas essas coisas podem ser realidade na vida do crente. Ter tal união com uma mulher dessa natureza é romper a comunhão mística com Cristo, é sufocar a intimidade com ele. Por conseguinte, tal imoralidade sob hipótese alguma pode ser reputada como questão «indiferente», moralmente falando, conforme alguns crentes de Corinto supunham. 
«Ter contato sexual com uma das sacerdotisas de Afrodite (o que fazia parte do ritual pagão em Corinto), significava consagração a essa deusa, e, naturalmente, exclusão do corpo de Cristo». (C.T. Craig, in loc). 
No Talmude encontramos uma declaração similar: «Quem quer que se una à mulher de outro homem, com isso renuncia ao Deus Santo e Bendito e se exclui da congregação dos israelitas». (Sohar Genes., fol. 19). 
O problema da prostituição: Paulo não aborda esse e outros problemas relacionados do ponto de vista da saúde da comunidade, do orgulho individual ou do respeito próprio ou pelos outros, conforme fazem a medicina e a sociologia modernas. Para o apóstolo dos gentios tratava-se, essencialmente, de um problema espiritual, pesadamente sobrecarregado de proposições espirituais da mais elevada ordem. As relações entre um homem e o seu Deus são afetadas por sua vida sexual, razão pela qual é algo que se reveste das mais importantes consequências. A comunhão com Deus pode ser totalmente abafada, e a intimidade com Jesus Cristo pode ser destruída, através do abuso das funções sexuais. 
«A indulgência nesse particular do sexo embota o fino fio da vida pessoal e diminui a sensibilidade do indivíduo para com as realidades espirituais... E grande parte desses abusos, se não mesmo todos eles, tem sido combatida pela sociologia, particularmente no que diz respeito à prostituição abusos esses igualmente condenados por Paulo. Apesar de ser possível ao indivíduo escapar, pelo menos durante algum tempo, de quaisquer consequências físicas e fisiológicas, não é possível escapar das consequências psicológicas. A prostituição tende por produzir efeitos psicológicos adversos sobre os indivíduos envolvidos, e, em adição a isso, efeitos adversos inevitáveis sobre a estrutura moral e espiritual da sociedade. Outrossim, conforme o ponto de vista do apóstolo, qualquer pessoa que se permite tais práticas une sua ,personalidade' com a de sua companheira, ou vice-versa, assim contaminando o próprio templo de Deus, de quem pertence, com exclusividade, a 'personalidade' do crente... Uma das mais antigas heresias contra a qual o apóstolo teve de combater foi a ideia perniciosa que dizia que a liberdade cristã subentende licenciosidade... Suas convicções precisam ser reafirmadas pela igreja, século após século». (John Short, in loc). 
Paulo cita aqui certos trechos do A.T., a fim de encontrar apoio para o seu argumento, prática essa comumente vista em suas epístolas, usualmente com o acompanhamento da fórmula está escrito.

«Aquilo que tem sido feito sobrevive, moralmente, em ambos. E daí por diante um não pode livrar-se do outro». (Findlay, in loc).

«...serão os dois uma só carne...» Essas palavras não significam fazer uma só carne, reproduzindo sua própria espécie, ao que tem sido reduzido o significado deste versículo, mas que é um sentido realmente alheio ao texto.

6:17    Mas, o que se une ao Senhor é um só espirito com ele.

A declaração paulina aqui é de grande importância:

1. Não fala de uma simples disposição que compartilhamos com Cristo.

2. Compartilhamos a mesma essência de natureza com ele. A declaração, então, é paralela àquela de Rm 8:29 que fala sobre a nossa transformação à imagem de Cristo. 
3. É o Espírito que transforma a alma humana. Ver II Co 3:18. Aqui, a palavra «espírito» é uma referência ao «espírito humano.» Alguns intérpretes preferem «Espírito». O grego nunca tem um «p» maiúsculo na palavra «pneuma», portanto, às vezes, não é claro se «disposição», «espírito humano», ou «Espírito Santo» é o sentido. No presente versículo uma referência ao Espírito é remota. A nossa união com Cristo nos dá a essência espiritual dele, mesmo como a união com uma prostituta obriga-nos a compartilhar das energias vitais dela. 
4. A dignidade de Cristo não é prejudicada pela participação dos outros filhos na natureza dele. O Filho e o Pai possuem a natureza divina infinitamente; os filhos, finitamente. Mas toda a eternidade consiste no aumento contínuo da participação dos filhos, porque na eternidade não pode existir estagnação. Sendo que existe uma—infinidade—com a qual devemos ser enchidos, deve existir também um enchimento eterno, infinito. 
5. O versículo, embora declarando uma imensa verdade metafísica, é principalmente ético. A nossa comunhão com Cristo, no nível da alma, exige de nós uma vida de pureza e grande avanço ético. O nosso privilégio como filhos exige de nós uma renúncia das coisas mundanas.
A palavra «...Senhor...», que aparece neste versículo, se refere a Jesus Cristo, o que representa um uso muito comum nas páginas do N.T. (Ver quanto ao tema da «intimidade entre a cabeça e o corpo», os trechos de Gl 2:20; Ef 2:5 e ss.; 3:16 e ss.; Cl 2:10; 3:1 e ss.; Jo 15:1 e ss. e 17:23 e ss.). 
Assim, pois, o apóstolo Paulo mostra que a nossa união mística com Cristo é muito mais íntima do que aquela que temos com nossas respectivas esposas. E a aplicação dessa verdade é aquela expressa por Calvino (in loc): «Pois se aquele que é casado não deve ter relações sexuais ilícitas com uma prostituta, muito mais hediondo será o crime dos crentes, se se unirem a prostitutas, visto que não somente formam 'uma só carne' com Cristo, mas também 'um só espírito'. E isso nos mostra a comparação entre o maior e o menor».

«Meyer observou com razão que o casamento místico entre Cristo e a sua igreja não deve ser pressionado aqui (como fez Olshausen, com base em Ef 5:23 e ss.), visto que as relações dos comparados não correspondem entre si. Não obstante, a veracidade íntima dessa relação mística é a 'base' fundamental de ambas essas passagens». (Alford, in loc). 
«Aquele que se une com Deus, mediante a fé em Cristo Jesus, recebe o Espírito e se torna participante da natureza divina. E quem poderia modificar tal relação a fim de ter contato com uma prostituta? ou para desfrutar de qualquer satisfação sensual? Aquele que pode fazer tal troca deve estar caído profundamente!» (Adam Clarke, in loc). 
O presente versículo, por conseguinte, ensina-nos que está envolvido muito mais do que a comunhão com Cristo, na experiência mística, embora essa experiência também seja uma realidade. Na verdade, ensina a participação real na sua natureza essencial.
 6:18    Fugi da prostituição. Qualquer outro pecado que o homem comete, é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo.

«...Fugi da impureza...» É usada aqui a mesma palavra grega empregada no décimo terceiro versículo, «porneia», igualmente traduzida por «impureza», a qual é comentada em I Co 5:1. Essa palavra indica qualquer contato sexual ilícito, qualquer forma de imoralidade. Cumpre-nos fugir de toda e qualquer forma de desvio moral que se afaste dos elevados padrões do cristianismo, pelos motivos seguintes:

1. Os indivíduos imorais na realidade não podem ser pessoas convertidas, pelo que também não herdarão o reino de Deus, cujo sentido, neste caso, é «vida eterna» (ver o nono versículo).

2. Porque a conversão e a santificação cristã formam uma nova criatura, o que é comprovado pelas experiências da vida diária. (Ver o décimo primeiro versículo). 
3. Porque aquilo que fazemos com nossos corpos não pode ser classificado entre as «questões indiferentes», do ponto de vista moral, como indiferentes são as diferenças de dietas, observância de dias especiais, etc. (Ver os versículos doze e treze). 
4. Porque o «corpo» tem um grande destino, não sendo apenas o lar temporário da alma. Além disso, o corpo não é a sede do mal, mas antes, o lugar de habitação do Espírito Santo, o santuário de Deus, o qual será também ressuscitado pelo poder de Deus, tal como o Senhor Jesus foi ressuscitado. (Ver os versículos catorze e dezenove). 
5. Porque quando das relações sexuais há uma união vital de duas pessoas, de corpo e espírito, numa espécie de comunicação mística; razão também pela qual nenhum crente pode unir-se legitimamente com uma mulher sensual. Isso rompe a comunhão do crente com Cristo. (Ver o décimo sexto versículo).
6. Porque, em Cristo, e devido à nossa transformação íntima segundo sua imagem, somos unidos a ele em espírito, passando a participar de sua mesma natureza espiritual. Por esse motivo, é um crime horrível alguém poluir sua natureza espiritual com a imoralidade. O espírito humano remido pertence a Cristo, e só pode ser devidamente unido a ele mediante o processo da santificação. 
7. Finalmente, o pecado de imoralidade é um pecado mais grave do que qualquer outro que o crente possa cometer, visto que polui o seu corpo, o qual é passível das seguintes coisas:
a. Será ressuscitado pelo poder de Deus;
b. Recebeu grande destino em Cristo;
c. Tendo sido redimido através da expiação pelo sangue de Cristo, pertence a ele com exclusividade, não podendo, por conseguinte, ser sujeitado a abuso por nossa vez (ver a última porção do presente versículo e o versículo vigésimo);
d. O corpo agora é templo do Espírito Santo, santuário de Deus, lugar da habitação de Deus, onde o Senhor torna-se conhecido à personalidade humana, não podendo, por essas razões, ser poluído pela imoralidade. (Ver o décimo nono versículo);
e. O corpo é possessão de Deus (ver o vigésimo versículo);
f. Tudo deve ser feito visando a glória de Deus (ver o vigésimo versículo).

Como se podem derrotar os pecados sexuais? Paulo aconselha a fuga do pecado, tanto aqui como no trecho de I Co 10:14 (onde a mesma coisa é dita acerca da idolatria). É somente nesses dois trechos que Paulo fala em tais termos, em todas as suas epístolas. Existem alguns pecados poderosos demais para serem enfrentados diretamente, por demais enganadores ou por demais atrativos. Os pecados do sexo não podem ser derrotados enfrentando-os e lutando. O encontro com situações que provocam a tentação inevitavelmente leva à queda. Isso nos mostra quão sábio é evitar os filmes perversos, a literatura sensual, as produções teatrais, etc, porquanto tais coisas e espetáculos aguçam um apetite que inevitavelmente conduz à queda. E temos aqui, por semelhante modo, um poderoso argumento contra os contatos e carícias durante o namoro e o noivado, bem como contatos sociais por demais íntimos com outros, numa sociedade onde os padrões morais são bem frouxos. Compete-nos, portanto, evitar todos os contatos dessa natureza, todas essas tentações. Paulo recomenda que «fujamos» dessas coisas.


Porque, se não fugirmos delas, mais cedo ou mais tarde ocorrerá inevitavelmente a queda, porquanto nesse campo da sexualidade enfrentamos um inimigo que nos pode derrotar sem qualquer grande esforço. Não convém que enfrentemos frontalmente esse pecado, oferecendo-lhe resistência através da força da vontade. Nosso plano de batalha, nesse caso, consiste em fugir. E nessa fuga que fujamos para os braços de Cristo, desenvolvendo nele as virtudes morais positivas (ver Gl 5:22,23), as quais nos protegerão dessa forma de pecados. A alma remida que permanece em comunhão com Cristo, através de seu Espírito, mediante a meditação, o estudo das Escrituras, a oração, e, idealmente, mediante as experiências místicas reais, perderá seu apetite pelas concupiscências carnais. Nesse processo de fuga (do mundo), para os braços de Cristo, podemos derrotar as paixões da carne, não havendo, na realidade, qualquer outro método através do que isso possa ser feito com sucesso.

Paulo já havia declarado algo similar, com o mesmo sentido básico, na passagem de Rm 13:14: «...mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e nada disponhais para a carne, no tocante às suas concupiscências». Assim sendo, não devemos frequentar aqueles lugares, ler aquelas coisas, ter contato com aquelas pessoas, que formariam provisões para as ações sensuais. Pelo contrário, «revistamo-nos do Senhor Jesus Cristo». Que seja ele o nosso revestimento espiritual. Que ele nos cubra e proteja com o seu sangue.

Com esses pensamentos podemos comparar o ensinamento de Jesus Cristo sobre o adultério visual (ver Mt 5:28). E também podemos confrontar a admoestação e censura de Simão Pedro, que diz: «...tendo olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado, engodando almas inconstantes,...» (II Pe 2:14). Existem homens que vivem em estado permanente de concupiscência, em razão do que vivem procurando sempre alguém com quem adulterar. Seus olhos percorrem a terra, procurando quem queira pecar em seguida com eles e a vitalidade de seus seres é desperdiçada nessa pervertida atividade. Conforme a tradução inglesa de Williams (aqui vertida para o português), os olhos dessas pessoas são «insaciáveis pelo pecado». Jamais ficam satisfeitas, sempre precisando de quem queira compartilhar de sua sensualidade. Tornaram-se escravos completos do sexo. Tais indivíduos, ao invés de fugirem dessa forma de pecado, buscam situações favoráveis para o pecado, sempre fazendo coisas que provocam o seu apetite. Tais homens não passam de escravos, e somente a ajuda «vinda do alto» poderá salvá-los. A fim de não nos tornarmos escravos dessa forma de pecado, precisamos fugir do inimigo. Se quisermos enfrentá-lo diretamente, através da força da vontade, seremos fatalmente vencidos e escravizados. O pecado da imoralidade é como um super-homem, insaciável e insano. O sexo descontrolado, na realidade, é um monstro insano.

Sófocles, no diálogo de autoria de Platão, intitulado República (329), ao ser interrogado sobre como vinha manuseando as questões do «amor», retrucou: «Mui alegremente tenho 'escapado' do mesmo, e sinto como se tivesse escapado de um senhor louco e furioso». Sim, o sexo pervertido pode ser uma entidade assim, e feliz é aquele que consegue escapar do mesmo.

«Pecar 'contra o corpo' é defraudá-lo da parte que o mesmo tem com Cristo, é cortá-lo de seu destino eterno. Esse é o efeito da fornicação, em um grau sem-par... Aquilo que o apóstolo Paulo assevera sobre a fornicação, nega a respeito de qualquer outro pecado». (Robertson e Plummer, in loc).

«...pecado... fora do corpo...» Precisamos admitir que temos aqui uma frase difícil, porquanto não nos é dada qualquer explanação a respeito da mesma. É bem provável que isso signifique que todos os outros pecados, que não os de natureza sexual e imoral, ainda que de maneira relativa, mas não absoluta, sejam pecados que não prejudicam finalmente ao corpo e ao seu tencionado destino. Somente a perversidade sexual teria tal efeito.

«...fora...», nesse caso, é palavra que significa algo como «sem efeito sobre o destino do corpo» (novamente falando apenas em sentido relativo). Por essa razão é que Alford (in loc.) comenta a respeito dessa questão como segue: «A assertiva do apóstolo é estritamente veraz. O alcoolismo e a glutonaria são pecados feitos no corpo e através do corpo, sendo praticados mediante o abuso do corpo, mas são coisas 'introduzidas de fora', pecaminosas em seu 'efeito', cujo efeito é dever de cada indivíduo prever e evitar. Mas a fornicação é a 'a alienação daquele corpo que pertence ao Senhor, fazendo do mesmo, corpo de uma prostituta'; não é um 'efeito' sobre o corpo deles, com base na participação de coisas vindas de fora, mas antes, é uma 'contradição da verdade' do corpo, proveniente 'de dentro' de si mesmo».

É bem provável que Paulo concordaria com essa opinião de Alford. O que é inegável é que Paulo não subscreveria àquela filosofia que afirma que todos os pecados são igualmente maus, não havendo qualquer gradação de pecado.

Gradações De Pecado

1. Alguns crentes, naqueles momentos que fazem experiências com a teologia popular, supõem que não há gradação no pecado. Noutras palavras, «pecado é pecado», dizem, «e todos os pecados são igualmente maus diante de Deus».

2. Essa opinião, entretanto, nega o princípio exarado em Rm 2:6, que diz que cada indivíduo será julgado de conformidade com as suas próprias obras, e que o próprio crente será julgado segundo o que tiver praticado, de bom ou de mau, através do seu corpo (ver II Co 5:10).

3. Essa teologia popular também nega a base mesma da lei da colheita segundo a semeadura.

4. A discussão sobre Rm 1:24 e seu contexto, bem como o texto presente, parecem impor uma censura especial à imoralidade de natureza sexual. Essa forma de pecado desfecha um ataque especial contra o corpo, que é templo do Espírito.

«A palavra 'corpo' deve continuar sendo entendida como termo que indica a 'natureza humana inteira', que é referida no décimo nono versículo, como templo do Espírito Santo. Outros pecados profanam os átrios exteriores do templo; mas esse pecado penetra até ao próprio Santo dos Santos, com sua imundícia mortífera

'Endurece ao intimo e petrifica aos sentimentos'.

Há uma profunda significação e uma grande verdade nas solenes palavras litúrgicas: 'Da fornicação, e de todos os outros 'pecados mortais', ó bom Senhor livra-nos'». (Shore, in loc).

Mas também existem outras explicações sobre essas palavras, fora do corpo, conforme a lista que expomos abaixo:

1. Alguns pensam que as palavras «qualquer outro» devem ser compreendidas no sentido popular de «quase todo». Assim sendo, outros pecados podem ter um efeito tão adverso para o corpo como a imoralidade, podendo também ser «contra o corpo», sendo igualmente pecados feitos «no corpo» ou «contra o corpo», embora em um sentido secundário.

2. Outros pensam que a imoralidade polui «o corpo inteiro», ao passo que o efeito de outros pecados é apenas parcial, razão pela qual poderiam ser reputados (de maneira relativa) como praticados «fora do corpo», isto é, sem produzirem plenos efeitos perniciosos contra o corpo.

3. Ainda outros estudiosos imaginam que a imoralidade se torna um real tirano, dominando o corpo, com uma intensidade desconhecida no caso de outros pecados, o que significaria que sua relação para com o corpo é menos pronunciada, pelo que também poderiam ser considerados como praticados «fora do corpo».

4. Finalmente, conforme Paulo mostrara antes, os contatos sexuais ilícitos levam o crente culpado a participar das energias vitais de ordem física e psíquica de uma mulher sensual (ver o décimo sexto versículo deste capítulo), o que resultaria em um mau efeito sobre o corpo. Nenhum outro pecado conseguiria atingir desse modo as próprias energias vitais, porquanto no caso de nenhum outro pecado há tal contato com uma força maligna. É bem provável que esta quarta possibilidade expresse sentimento que Paulo quis transmitir, embora as outras ideias talvez tenham alguma aplicação ao que ele tencionava dizer.

«Os outros vícios são conquistados pela luta; a concupiscência, pela fuga». (Anselmo).

6:19    Ou não sabei que o vosso corpo é santuário do Espirito Santo, que habita em vós, o qual possuis da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?

Este versículo encerra diversas importantes verdades que podem ser sumariadas como segue:

1. Todos os crentes possuem a presença permanente do Espírito Santo neles. Não pode haver salvação, sob hipótese alguma, nem fé, nem conversão, nem santificação, nem regeneração e nem transformação segundo a imagem de Cristo sem a agência do Espírito Santo e sem o entrelaçamento de sua natureza santa com a natureza humana.

2. O que fora dito antes, acerca da comunidade cristã, como templo do Espírito Santo (ver I Co 3:16 e ss.), em que a «igreja» aparece como santuário e lugar de habitação de Deus, no Espírito Santo, é dito aqui a respeito do crente «individual». A doutrina assim ensinada é que deve haver algum contato real e vital entre o espírito humano e o Espírito de Deus; porquanto disso é que se constitui a salvação. Em outras palavras, a salvação ocorre mediante essa «experiência mística» com o Espírito do Senhor. É uma experiência «mística» porquanto através dela entramos em real contato e intimidade com a natureza divina, não sendo isso apenas uma expressão simbólica. Na verdade, a energia divina se une à energia humana e a transforma. Deus, pois, mostra-se «imanente» em sua criação.

3. Por causa dessa presença habitadora do Espírito Santo, o crente passa a pertencer inteiramente a Deus, ficando destinado a compartilhar da natureza divina. (Ver o décimo sétimo versículo deste capítulo).

4. Essa verdade, considerada em seu conjunto, subentende que o corpo (o «eu» inteiro), bem como qualquer porção do mesmo, não pode ser entregue a práticas pecaminosas, imorais. Tal combinação é simplesmente impossível. O indivíduo precisa escolher entre uma coisa e a outra.

«...da parte de Deus...» Visto que Deus é o manancial último de todas as bênçãos espirituais, que nos são dadas por mediação de Cristo, através do Espírito Santo. (Quanto a isso ver os trechos de Ef 1:3,4; Rm 11:32). O Espírito de Deus é um presente dado aos homens, para que se concretize sua total salvação. Ora, o Espírito Santo não pode habitar em um santuário poluído, porquanto não pode realizar ali a sua obra. Assim sendo, a presença permanente do Espírito Santo, o dom de Deus aos homens que visa a sua redenção espiritual, requer que o crente se separe do mal, tal como aprendemos em II Co 6:16. Essas palavras, «...da parte de Deus...», por conseguinte, mostram nossa total dependência para com o Senhor. Nossa realização espiritual é um presente divino, e não um produto do esforço humano. Essa é uma suposição fundamental do sistema inteiro da graça divina, da soteriologia paulina.

«...santuário...» No original grego encontramos o vocábulo «naos», que era aplicado ao «Santo dos Santos», em contraste com o termo «ieron», que se aplicava ao templo inteiro. É verdade, entretanto, que tais palavras gregas podiam ser empregadas como sinônimos, referindo-se ao templo inteiro e seus recintos. No entanto, parece que Paulo fez aqui alusão ao lugar mais íntimo do templo, o qual, no templo de Salomão, era o local onde se verificavam as manifestações da glória divina. Dentro da dispensação do novo pacto, entretanto, o crente é que é local dessa manifestação divina, sendo ele mesmo transformado pelo Espírito Santo, que ali habita. O crente é o santuário do Espírito Santo. É interessante que em I Co 3:16 a mesma palavra é usada para indicar o «templo», referindo-se à comunidade inteira da igreja cristã.

«...corpo...», o santuário do Espírito Santo. Estão possivelmente em vista, nessa palavra, tanto «a personalidade inteira» como o «corpo físico», ambos os quais são ocupados pela energia divina. Ora, sendo assim a realidade dos fatos, o corpo do crente não pode ser entregue à imoralidade, porque o Espírito de Deus não pode habitar à vontade em um templo devotado às forças malignas.

«...não sois de vós mesmos...» A presença do Espírito Santo no templo do corpo faz deste último propriedade exclusiva de Deus. É sua residência, lugar onde ele manifesta a sua glória. E assim o crente individual deixou de ser mera entidade humana. O indivíduo, ao entregar ao controle do Espírito de Deus o santuário de seu ser físico, na realidade cessou de exercer controle pessoal sobre o mesmo, deixando de ser seu próprio senhor. Daí por diante, tudo quanto Deus planeja para a humanidade, na redenção que há no sangue de Cristo, torna-se potencialmente possível, e eventualmente se tornará uma radiosa realidade. Porém, nenhum indivíduo poderá atingir a esse elevadíssimo alvo enquanto quiser ser o capitão da sua própria alma. O crente, pois, em sua personalidade inteira, torna-se propriedade de Deus. (Ver os trechos de At 20:18 e Rm 14:8, acerca desse pensamento). Vivendo ou morrendo, vivemos ou morremos para o «Senhor».

Com essas ideias podemos confrontar as palavras de Epicteto, o qual disse: «Se fosses uma estátua de Fídias, pensarias tanto em ti mesmo como no artista; e procurarias nada fazer indigno daquele que te fez, ou de ti mesmo. Mas por que, visto que Zeus foi quem te fez, nem por isso cuidas em como te comportares? No entanto, o artista, em um caso, é como o artista no outro caso? ou a obra em um caso, é como a obra no outro caso?»

Declarou ainda esse mesmo antigo autor: «Miserável! Levas Deus contigo, mas não o sabes. Pensas que me refiro a algum deus de prata ou de ouro? Carregas a ele contigo, dentro de ti mesmo, e não percebes que o estás poluindo com os teus pensamentos impuros e com teus feitos maléficos». (Discursos, ii.8).

Por conseguinte, pertencemos a Deus, em face das seguintes considerações:
1. Por direito de criação;
2. Por direito de redenção;
3. Por direito de possessão;
4. Por direito de propriedade moral e espiritual;
5. Por direito da gratidão que nos convém é que essa possessão deve ser expressa (ver o vigésimo versículo, mais abaixo);
6. Por direito da obra expiatória de Cristo (ver também o vigésimo versículo); e
7. Por direito da possessão e habitação permanente do Espírito Santo (que é o aspecto ensinado neste décimo nono versículo).

Aos diversos argumentos contrários à prática da imoralidade, por parte do crente, e que são sumariados no versículo anterior, Paulo acrescenta aqui essa ideia da possessão absoluta, por parte de Deus, do ser de cada crente. O corpo do crente pertence realmente a Deus, que é o seu remidor. Portanto, o crente não pode deixar o seu corpo ser usado para maus propósitos; o crente não tem «direito» algum de fazer tal coisa. O crente perdeu a «autoridade» sobre si mesmo. Ora, tal «autoridade» foi transferida para Deus, e a ele compete usar nossos corpos para o bem, ao passo que, nas mãos humanas, nossos corpos seriam inevitavelmente usados para o mal.

6:20    Porque fostes comprados por preço; glorificai pois o Deus no vosso corpo.

As palavras «...comprados por preço...» expressam um tema extremamente comum nas páginas do N.T., referindo-se sempre à «expiação» operada pelo sangue de Cristo, em que Cristo nos «comprou novamente» do mercado de escravos do pecado. (Quanto a essa verdade, ver especialmente os trechos de I Pe 1:18,19 e At 20:28). O preço pago foi o sangue de Cristo, que simboliza tudo quanto Cristo Jesus fez por nós, em sua morte expiatória pelos pecadores. É dessa maneira Cristo nos libertou dos nossos pecados, liberando-nos de nossa lealdade ao pecado, de nossa escravidão ao pecado. Cristo também rompeu o domínio das forças malignas sobre nós, às quais estávamos sujeitos, exatamente porque éramos homens decaídos, vivendo em uma esfera de decadência espiritual, à qual chamamos de terra. (Ver Cl 2:15). Por essa razão é que lemos a respeito de Jesus Cristo: «...foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação» (Ap 5:9).

A expiação dos nossos pecados também é verdade expressa na Bíblia nos termos de resgate. (Ver os trechos de Mc 10:45; I Pe 1:18,19). A passagem de I Co 7:23 subentende a mesma verdade, mas emprega a figura simbólica da servidão. Segundo essa ilustração, o escravo (o pecador) é remido e libertado; mas passa a pertencer a um novo senhor. Antes, pertencíamos ao nosso pai, Satanás; mas fomos libertados de seu domínio, que se estende aos corpos dos homens e ao sistema do mundo inteiro, o ambiente no qual vivemos.

Em lugar algum, entretanto, as Escrituras ampliam a figura simbólica aqui referida a fim de dar a entender que «Satanás» recebeu o preço da redenção ou resgate. Essa tão absurda ideia, entretanto, tem sido ensinada aqui e acolá durante quase todo o decurso da história eclesiástica, especialmente na chamada Idade Média. A satisfação foi antes dada a Deus, e a nenhum outro, e tudo foi aceito na pessoa do Amado, o Filho de Deus. (Ver Ef 1:6).

Portanto, preço, «resgate», e «mercado de escravos» são diferentes metáforas empregadas pelo apóstolo dos gentios, das quais não podemos extrair todos os seus pensamentos espirituais paralelos. O sentido de «preço» é claro, como também são claros os sentidos de «resgate», de livramento da servidão, da satisfação dada a Deus. Porém, não nos cabe indagar aqui para quem foi pago esse resgate, isto é, se a Deus ou a Satanás, como se fôssemos forçados a satisfazer a alguma exigência que requeira o sofrimento às mãos de Cristo, a fim de satisfazer a alguma magnificente sede de vindita. Levar a doutrina da redenção, em seus aspectos simbólicos, a extremos como esses, é prejudicar tal doutrina. (Quanto a notas expositivas sobre o conceito de «resgate», ver os trechos de Mt 20:28 e I Tm 2:6). O ato de comprar, de pagar um resgate, subentende com grande clareza o direito de possessão e de controle daquilo que foi assim adquirido;e esse era justamente o ponto que Paulo procurava frisar aqui. O corpo do crente, comprado pelo Senhor, ao preço do seu sangue, pertence a ele, como a ele pertence a personalidade inteira do crente. Portanto, nosso corpo deve ser dedicado ao serviço e à glória do Senhor Jesus.

Assim, pois, aos diversos argumentos contrários às práticas imorais, que envolvem os corpos dos crentes (sumariados no décimo oitavo versículo deste mesmo capítulo), ainda um outro argumento é aqui adicionado. O direito de possessão absoluta é um direito exclusivo de Deus. O corpo do crente, por conseguinte, não pode ser utilizado como instrumento de práticas imorais, como se esse corpo pertencesse a alguma força maligna e degradante.

«O resgate foi da servidão ao pecado, da maldição imposta pela lei, bem como do poder de Satanás (comparar com os trechos de Rm 6:17e ss.; Gl 3:13; Cl 1:13 e At 26:18). Ora, esse resgate foi feito por certo 'preço', a saber, o seu 'sangue'. (Ver Mt 20:28; I Pe 1:18). Deixando de lado a mera significação da palavra, mas observando o que nela está envolvido, chegamos ao mui importante pensamento que o preço foi altíssimo e que o resgate foi caro... Essa expressão ocorre em I Co 8:23, mas onde, tal como em At 20:28, Cristo é apresentado como o possuidor». (Kling, in loc).

«...glorificai a Deus no vosso corpo...» Essa é a inferência prática tanto deste versículo como desta seção inteira. Essa glorificação deve ser dada em forma de palavras, mas também deve incluir feitos de ação de graças. (Ver I Co 10:31, que diz: «...fazei tudo para a glória de Deus»). Esse conceito inteiro de dar glória a Deus é comentado em Rm 16:27. «O aspecto da adoração a Deus se manifesta através de uma vida completamente dedicada ao seu serviço». Tal dedicação eliminará a servidão ao pecado, incluindo o pecado da imoralidade. Por conseguinte, Paulo ajunta ainda uma outra razão pela qual o crente não pode ocupar-se de tais práticas. O presente capítulo expõe muitas dessas razões, e uma nota de sumário aparece no começo dos comentários sobre o décimo oitavo versículo deste capítulo.

A glória conferida a Deus é temporal. É agora a principal preocupação da vida. «E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai» (Cl 3:17). Mas essa atitude se estende também pela eternidade afora, visto que as ações morais da vida do crente servem para transformar-lhe a alma para ocupar-se de um serviço mais elevado e muito mais glorioso. Não obstante, o alvo permanece o mesmo, a saber, a glória de Deus. Isso expressa uma grande verdade, pois, quando damos glória a Deus, nós mesmos somos glorificados em Cristo, já que somente nesse estado podemos ser feitos o meio exaltado de glorificar o seu nome, conforme se espera de nós que façamos. (O trecho de Rm 8:29,30, descrevem a natureza dessa glorificação).

É visando a glória de Deus que experimentamos a glorificação, o que redunda em seu louvor; e isso significa que tanto o Senhor, como nós mesmos, somos beneficiados. Assim sendo, a finalidade da vida, o seu propósito mesmo, é a glória de Deus, é o desfrutamento de Deus, por parte do crente, para sempre. Somente quando glorificamos verdadeiramente a Deus é que podemos encontrar nosso bem e destino mais elevados. Ser alguém transformado segundo a imagem de Cristo redunda em glória para Deus, sendo essa a maior glória que um homem pode fazer redundar para Deus, já que isso é realmente agradável para o Senhor. É para glória de Deus que seremos finalmente glorificados. Assim sendo, a glória conferida a Deus é sempre benéfica para os homens. Porquanto os decretos de Deus são todos benéficos e benignos, e jamais de natureza destrutiva, como também são sempre altruístas, e nunca egoístas. Por essa razão é que as Escrituras dizem com toda a verdade: «Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito...» (Jo 3:16).

«...no vosso corpo...» Porque o corpo físico é agora o instrumento de que dispomos para a glorificação de Deus, sendo esse o grande tema da presente passagem. O corpo é que deve ser usado no serviço de Deus, e não utilizado para finalidades imorais. O corpo do crente pertence a Deus, e não a forças malignas. O corpo do crente será redimido, tornando-se um veículo eterno da glória de Deus, sem importar se pensamos nele como uma entidade física ou como representante do ser inteiro do crente. Contudo, a entidade física é enfatizada neste versículo.

Com este versículo se pode comparar o trecho de Rm 12:1,2, onde o corpo também aparece como o instrumento da dedicação dos crentes a Deus, e onde o corpo é usado como o «símbolo» da dedicação da pessoa inteira do crente ao seu Senhor.

Variante Textual: «...no vosso corpo e no vosso espírito...» é como o texto aparece em alguns manuscritos antigos, como C(3), D(2), as versões latinas k, l e p, e nas traduções AC e KJ. Porém, todos os manuscritos realmente antigos, como P(46), Aleph, ABC(1)D(1)EFG, omitem essas palavras, no que são seguidos pelas outras doze traduções não mencionadas aqui, mas que foram usadas para efeito de comparação por este comentário. As palavras, «e no vosso espírito» representam uma glosa escribal, cujo intuito é o de enfatizar a personalidade humana inteira, como a esfera e o agente da glória de Deus. Porém, embora isso represente uma verdade, não é o que Paulo salienta aqui. Não obstante, a verdade que ele destaca é similar, embora ele tenha empregado somente o termo «corpo» para expressar a agência do homem para a gloria de Deus.

Paulo aponta aqui para os crentes de Corinto (e para nós também) o caminho real da autêntica dedicação das faculdades totais do crente, para a glória de Deus, o que também redunda na própria glorificação dos crentes, em Cristo Jesus. Mas aqueles crentes de Corinto, em seu egoísmo, vinham fazendo do próprio «eu» o centro de todas as suas atividades, algo fatal para todo aquele que se diz crente.

Epicteto se insurgiu contra as concupiscências e contra os excessos praticados pela natureza mortal. Vale a pena acompanhar a bela passagem desse autor, que ilustra bem a ideia expressa neste sexto capítulo da primeira epístola aos Coríntios, extraída de seu Manual(3,11): «Uma vez que um indivíduo possua o objeto desejado por alguém, passa a exercer controle sobre o espírito desse alguém e este último passa a ficar escravizado ao primeiro. Em consequência disso, a fim de ser evitada essa vulnerabilidade, é mister que o indivíduo impeça que essa situação se transforme em realidade, tornando-se independente, não somente com respeito às coisas impessoais, mas, igualmente, no tocante às pessoas. Exercita-te, pois, naquilo que está ao teu alcance. O senhor de cada indivíduo é o homem que tem autoridade sobre aquilo que deseja ou não, evitando uma coisa ou tirando outra. Por conseguinte, que aquele que almeja ser livre, não deseje qualquer coisa e nem evite coisa alguma que dependa de outrem, porque, de outra maneira, estará destinado a ser um escravo.

Algumas pessoas se deixam escravizar às emoções imperiosas, como o sexo, conforme observou Menandro: 'Uma jovem sem qualquer dignidade fez de mim um escravo, embora nenhum adversário me tivesse podido subjugar'. As práticas sexuais podem atingir tais extremos de tirania que, quando assim sucede, poucos, ou mesmo ninguém, podem escapar sem ficar com cicatrizes. Epicteto indaga:,Quando uma jovem bonita te exauriu as forças, porventura conseguis te escapar ao justo castigo?'

É necessário que todos exerçam uma vigilância eterna, para escaparem das seduções do sexo: e essa vigilância só pode ser cultivada mediante práticas hígidas, que se desenvolvem em hábitos firmes e protetores. Epicteto demonstrou a sua técnica como segue: 'Portanto, se não desejas tornar-te colérico, não alimentes o hábito do aborrecimento, para não alimentares ainda mais a fogueira. Para começar, conserva-te tranquilo, e conta os dias em que não cederes à ira. Eu costumava irar-me todos os dias; então, um dia sim, e outro não; então, de três em três dias; e, finalmente, de quatro em quatro dias. Mas, se conseguires passar calmo durante trinta dias, então oferece um sacrifício a Deus; portanto, primeiramente o hábito é enfraquecido, e em seguida é totalmente destruído. Quanto a mim, consegui sentir-me liberto da ira pelo espaço de um dia, e também no dia seguinte; e, depois, por dois ou três meses a fio. E, se porventura surgiam motivos para eu irar-me, cuidava zelosamente por abafá-los. Devo reconhecer que é mister fazer isso com grande domínio próprio. Hoje, quando vi uma bela mulher, não disse para mim mesmo: 'Oxalá que ela fosse minha!' ou: 'Feliz é o seu marido!' Porquanto aquele que assim afirma, também está inclinado a dizer: 'Feliz é o adúltero!' Por semelhante modo, não me ponho a imaginar a cena que se poderia seguir: a mulher se despiria e se reclinaria ao meu lado. Nesse caso, eu daria palmadinhas em minha própria cabeça e diria: 'Bravo, Epicteto, acabas de rejeitar uma bela falácia, muito mais bela que o chamado Mestre. E ainda que a pobre mulher, coitada dela! se sentisse desejosa, fizesse acenos e me solicitasse a estar com ela, chegando mesmo a tocar em mim e achegar-se mais para perto de mim, ainda assim eu me conservaria indiferente, e seria vencedor...Isso é algo de que alguém poderia sentir-se realmente orgulhoso...Ora, como é que esse feito pode tornar-se realidade?

Pelo menos toma tu a resolução de agradar ao teu verdadeiro 'eu׳; toma a resolução de pareceres nobre aos olhos de Deus; fixa os teus desejos na disposição de te tornares puros em presença de teu puro 'eu׳, e na presença de Deus.

A Resignação

«É necessário que o indivíduo estabeleça a paz consigo mesmo, entrando em harmonia com o mundo. Jamais deve perder de vista o fato de que ele é um mero mortal humano, animal, vegetal, etc. Se alguém conservar-se permanentemente no reconhecimento dessa verdade básica e simples, então a sua alma será capaz de controlar-se quando outros estiverem perdendo a compostura e o controle próprio.

Entre as muitas coisas capazes de tornar um homem vulnerável, destaca-se o amor. Como exemplo disso, consideremos o homem que ama profundamente à sua própria esposa. Esse homem estará sujeito a sentir-se extremamente angustiado no caso do falecimento dela. A vida pode tornar-se insuportável quando ficamos separados de seres amados; em consequência, a fim de fortificar-se como o aço, em face de tais circunstâncias, o indivíduo precisa lembrar-se incessantemente da natureza perecível da vida e das atividades humanas. 'Quando qualquer coisa, desde as mais vis até às mais excelentes, se fizer atrativa e útil para ti, ou tornar-se objeto de tuas afeições, nunca te olvides de perguntar a ti mesmo: Qual é a sua natureza?! Se por acaso gostas muito de uma jarra, diz para ti mesmo que aprecias muito aquela jarra, e então não ficarás perturbado se a mesma vier a quebrar-se. Se osculares a um filho teu ou à tua esposa, diz para ti mesmo que estás beijando um ser humano; pois então, se porventura a morte desfechar o seu golpe, não ficarás aflito'. Em outras palavras, se alguém conservar-se na completa consciência do fato que, nesta vida, nada é permanente ou imutável, então mais facilmente poderá resignar-se ante qualquer ocorrência desagradável que o envolva. Não obstante, essa atitude só deve ser tomada quando os objetos e as circunstâncias estiverem além da capacidade do indivíduo em alterá-los. Por outro lado, o homem pode assumir uma outra atitude, diferente da que é aconselhada acima, a qual é igualmente eficaz no manuseio das tragédias: 'Jamais digas a respeito de qualquer coisa: Eu a perdi. Pelo contrário, diz: Eu a devolvi. Teu filho morreu? Foi devolvido. Tua esposa faleceu? Foi devolvida. Tuas propriedades te foram arrebatadas? Porventura não foram também elas devolvidas? Mas, talvez objetes: Aquele que as arrebatou de mim é um homem iníquo. Porém, que te importa a pessoa através de quem o grande Doador pediu-te algo em devolução? Enquanto o grande Doador permitir-te ficar na posse de alguma coisa, cuida dela, mas não como tua própria; antes, trata-a como os viajantes tratam de uma hospedaria'». (Seleções extraídas de Epicteto, com comentários, do livro intitulado Realms ofPhilosophy, William S. Sahakian, Schenkman Pub. Co., Cambridge, Mass., Estados Unidos da América do Norte, 1965).

Bibliografia R. N. Champlin,comentário do novo novo testamento,2010







A luta contra os excessos e a moda extravagante



"Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convém. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas". 1 Co 6.12.

O cristão não precisa sair do mun­do nem se isolar dele, mas deve iluminá-lo com a luz divina que existe em sua vida e salgá-lo com seu bom equilíbrio cristão.

  

1 Tm 2.9    Da mesma sorte, que as mulheres em traje decoroso, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada, e com ouro, ou pérolas, ou vestu­ário dispendioso,

1 Tm 2.10  Porém, com boas obras (como é próprio às mulhe­res que professam ser piedosas).

1 Pe 3.3     Não seja o adorno da esposa o que é exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário;

1 Pe 3.4     Seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de gran­de valor diante de Deus.





Comentário dos Textos de Referência I Tm 2.9,10 e I Pe 3.3,4



A passagem de I Tm 2.9,10 e tirada do contexto, A Adoração Pública e as Mulheres (2.8-15).



A adoração pública deve incluir a oração, conforme I Tm 2:1 e ss., onde há alguns itens pelos quais nos convém orar. Na sinagoga, as orações faziam parte importante da liturgia, mas às mulheres não era permitido nem falar e nem orar em voz alta, durante a adoração pública. Silêncio absoluto era esperado da parte delas. Um escravo, ou até mesmo um menino, podia ler as Escrituras na sinagoga; mas isso era vedado às mulheres, mesmo que uma delas fosse a esposa do principal rabino. Devemos compreender que esse costume é o pano de fundo da seção que temos à nossa frente e que procura regulamentar o papel das mulheres nos cultos públicos das igrejas cristãs. Uma vez que se saiba o pano de fundo judaico sobre a questão, o décimo primeiro versículo deste capítulo só pode significar o que ali se lê claramente: nenhuma mulher crente podia ter participação verbal no culto de adoração da igreja (se algum irmão ou irmã quiser o comentário do vs 11, me mande um e-mail ebdareiabranca). Não lhe era permitido ensinar, e nem ao menos falar em voz alta. Antes, cumpria-lhe guardar silêncio. (Ver o décimo segundo versículo). Tudo isso está de acordo com a prática nas sinagogas judaicas, e dizer que esta seção indica menos do que isso é interpretar a passagem incorretamente.



Vários intérpretes cristãos têm procurado distorcer a correta interpretação deste texto, a fim de fazer as Escrituras se adaptarem às práticas deste ou daquele grupo, mas isso fazem aqueles eruditos ignorando o pano de fundo histórico do N.T. Disse um famoso rabino: «É melhor queimar a lei do que ensiná-la a uma mulher». (Esta passagem pode ser comparada com os trechos de I Co 11:2-16 e 14:34). Esta última referência impõe silêncio às mulheres crentes, tal como se dá no caso do presente texto; mas a primeira dessas duas referências parece permitir que a mulher participe verbalmente do culto, se estiver usando um véu. Porém, se isso realmente fosse permitido, então o texto presente, a passagem de I Co 14:34 e a tradição judaica estariam sendo contraditas frontalmente. Portanto, é melhor compreendermos que o suposto «falar das mulheres», no décimo primeiro capítulo da primeira epístola aos Coríntios, é apenas um reconhecimento do que vinha ocorrendo naquela comunidade cristã, sem que Paulo tivesse feito ali qualquer censura, já que preferiu deixar essa censura para mais adiante. A leitura corrente, do décimo primeiro capítulo ao décimo quarto capítulo dessa epístola, demoraria entre cinco e dez minutos; por conseguinte, essa censura faz parte do texto. Mas, na presente passagem, fica suposto que havia mulheres que «abusavam» no culto de adoração, participando oralmente do mesmo, o que era algo contrário à tradição judaica, transferida para o cristianismo, e o que agora Paulo passava a censurar. Somente essa interpretação é honesta, e o demais é apenas tentativa de fazer as Escrituras se adaptarem à prática nas igrejas locais, e não o contrário, como deveria ser.



O problema do presente texto não envolve tanto o que o mesmo significa, porquanto isso é perfeitamente claro. O problema consiste de:«Aplica-se essa proibição à igreja moderna?» A resposta deste comentário é que isso não deve ser aplicado com toda a severidade, pois tais injunções contra as mulheres se alicerçam sobre preconceitos judaicos, sendo uma degradação para as mulheres crentes. O leitor deveria consultar Jo 4:27,29, para ver as ideias tão rebaixadas que os judeus tinham acerca das mulheres. Alguns rabinos chegavam a duvidar que as mulheres tivessem alma, e muitos deles diziam vulgaridades acerca delas. Na sociedade judaica, as mulheres eram vendidas e compradas como se fossem propriedades, e somente de uma prostituta se esperaria que ela falasse com um homem, em público. Eis por que os discípulos ficaram surpreendidos por encontrar a Jesus falando com uma mulher em um lugar público, conforme o registro do quarto capítulo do evangelho de João, onde é dada a historia da mulher samaritana.



Naturalmente, é verdade que o novo pacto elevou enormemente a posição das mulheres. Espiritualmente, uma mulher não é inferior a um homem, e o destino espiritual das mulheres crentes é igual ao destino dos homens crentes. (Ver Gl 3:28). O trecho de Cl 3:11encerra declaração similar. É deveras lamentável que esse discernimento não foi mais perfeitamente compreendido e posto em prática. O texto à nossa frente, sobre as mulheres, reflete uma mentalidade que não concorda totalmente com aquela revelação superior, pois continua alicerçada sobre o judaísmo. O autor deste comentário não pode interpretar honestamente a questão de qualquer outra maneira. Antes de tudo, deve-se interpretar um texto qualquer segundo aquilo que ele diz, sem nos importarmos se estamos de acordo com isso ou não. Não devemos perverter seu significado a fim de fazê-lo adaptar-se às nossas práticas pessoais ou coletivas. Em seguida cumpre-nos ver se uma passagem tem aplicação a nós, ou se tem elementos que pertencem a outra época, mas que não podem e nem devem ser aplicados para nossa própria época.



Isso não significa, por outro lado, que aquilo que temos à nossa frente, na presente seção, não é bom. Pois a verdade é que tem seu devido valor. Porém, no que se aplica ao papel das mulheres, no culto de adoração, simplesmente não podemos aceitá-lo. A igreja em geral tem ignorado convenientemente versículos como I Co 14:34 e I Tm 2:11, em seu pano de fundo histórico e em seu claro significado; e assim tais passagens são pervertidas para se adaptarem à prática corrente. Isso é lamentável, porque é uma desonestidade. Portanto, estes versículos ordenam às mulheres que nada digam, durante o culto de adoração. Assim sucedia nas sinagogas dos judeus. Porém, temos um caminho melhor, uma revelação superior, refletidos em passagens como Gl 3:28; Cl 3:11 e At 2:18, onde vemos que mulheres são declaradas até mesmo «profetisas», longe de não poderem elas falar na igreja. Esse ponto de vista mais elevado sobre as mulheres é que devemos seguir, ao mesmo tempo que cumpre serem evitados os abusos decorrentes de uma liberdade excessiva, conforme tem acontecido em tantas igrejas evangélicas modernas, onde as mulheres encabeçam praticamente tudo. Além disso, muito temos a aprender acerca da conduta das mulheres crentes; e esse aspecto não deve ser negligenciado por nós.



2:9      Quero, do mesmo modo, que as mulheres se ataviem com traje decoroso, com modéstia e sobriedade, não com trancas, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos custosos,



«...da mesma sorte...» É contrário ao pano de fundo religioso judaico, que transparece na presente seção, supor que às mulheres é aqui permitido orarem e participarem oralmente dos cultos, em qualquer sentido, contanto que ao menos observem certos costumes corretos sobre vestuário e comportamento. Tal interpretação é contrária ao texto (ver o décimo primeiro versículo) e também contra a cultura judaica de onde surgiu a igreja cristã primitiva. Conforme diz Gealy (in loc.) «O escritor dá a entender como ponto pacífico que as mulheres devem fazer-se presentes à adoração pública e às orações. Porém, visto que a declaração explícita do oitavo versículo é que (somente) os varões devem orar, isto é, ler as orações públicas, e posto que este parágrafo insiste que as mulheres devem permanecer em silêncio na igreja, dificilmente é possível supor que o autor sagrado queria dizer: 'Desejo também que as mulheres orem com vestuário modesto', etc... O presente texto deveria ser antes compreendido como: 'Também desejo que as mulheres que fizerem parte das orações públicas se vestissem com modéstia', etc».



«Poucas passagens existem, em toda a Bíblia, que tenham provocado tão acaloradas discussões como estes versículos. Consideradas literalmente como uma ordem autoritativa, estas palavras excluiriam completamente as mulheres de toda a liderança na igreja. Mas é óbvio que tal interpretação não se ajusta à prática universal das igrejas neotestamentárias. As epístolas de Paulo contêm os nomes de muitas mulheres que se destacavam no trabalho da igreja em vários sentidos: Lídia, Dorcas, Priscila, Trifena e Trifosa, Pérside, Júlia,Evódia, Síntique, e outras. Esta epístola mostra-se explícita, entretanto, na proibição às mulheres de falarem nas igrejas, subordinando-as à autoridade dos homens. Não há que duvidar que a posição delas sofreu a influência dos costumes da época, à luz do que as mulheres crentes teriam ficado sujeitas a críticas, por se mostrarem conspícuas em público... Na prática real, apesar da igreja ter quase sempre evitado consagrar mulheres como ministros (da Palavra), os grandes pendores das mulheres têm sido usados como mestras, missionárias e uma multidão de outras atividades. O movimento que tende por reconhecer completa igualdade entre homens e mulheres, no trabalho da igreja, cresce a cada ano que passa; e a utilidade da igreja aumenta à proporção em que maior número de posições é dado às mulheres crentes... É óbvio que a disposição desta epístola é limitar o serviço das mulheres na igreja, mas não em completo acordo com a atitude de Jesus, que era de completo respeito e cavalheirismo para com as mulheres». (Noyes, in loc).



Talvez seja difícil, para alguns crentes, perceberem que a presente passagem realmente impõe completo silêncio às mulheres, não lhes permitindo qualquer posição de liderança na igreja. Porém, este é o claro ensinamento do texto, refletindo as estruturas sociais da sociedade daquele tempo, cujas características eram ainda mais exageradas na sinagoga. A igreja cristã se tem mostrado correta em não praticar literalmente a ordem aqui baixada; mas tem havido intérpretes desonestos que procuram fazer esta passagem concordar com a prática da igreja, quando, na realidade, esta passagem concorda com a prática da sinagoga, o que é algo bem diferente.



«...ataviem...» No grego é «kosmeo», que significa «pôr em ordem», «adornar», «decorar», «tornar atrativo». Faz parte da natureza feminina apreciar o belo, como também procurar tornar-se atrativa, com adornos apropriados. O autor sagrado, porém, limita essa atividade, para que as mulheres crentes fossem diferentes das mulheres mundanas. O verdadeiro adorno, diz-nos o autor sagrado, são as «boas obras». A piedade torna bela qualquer mulher; e isso de maneira importante e duradoura, e não de modo sem importância e passageiro. Cumpre-nos notar que o termo grego «kosmos» vem desse verbo. «Kosmos» significa o mundo organizado, a «ordem de coisas» criada por Deus, o seu «adorno», a bela obra de suas mãos. Mas desse termo grego também vem nossa palavra moderna «cosmético».



«...traje decente...» No grego é «katastole», que pode significar ou «vestes», como uma roupa para encobrir o corpo, ou «comportamento», como se a conduta fosse o «vestuário das ações e das maneiras». Alguns intérpretes aceitam uma dessas ideias, e outros aceitam a outra. Na verdade, há um vestuário «externo» e outro «interno». Esse termo é usado exclusivamente aqui, em todo o N.T., sendo umadaquelas cento e setenta e cinco palavras peculiares às «epístolas pastorais».



O mais provável é que estejam aqui em foco as «vestes externas», as roupas femininas, porquanto isso se coaduna melhor com a descrição do versículo, que enumera as coisas que uma mulher deve vestir. O termo «...decente...», neste caso, é tradução do adjetivo grego «kosmios» (que vem da mesma raiz que «ataviem»), palavra que significa «respeitável», «honroso», «modesto», o contrário de provocante, desrespeitoso, desonroso, isto é, vestes contrárias ao espírito de adoração, o que poderia sugerir antes uma mulher da rua, uma prostituta, vestes tipicamente mundanas, que quase sempre visam focalizar a atenção no aspecto sexual da mulher. Mas esse mandamento vem sendo completamente desrespeitado pela moderna igreja cristã, mostrando-nos a que nível baixo tem descido a espiritualidade das nossas igrejas.



«...modéstia...» No grego é «aidos», que quer dizer «reverência», «respeito», «modéstia». No grego antigo, tal palavra era virtualmente usada como sinônimo de «aischune», «vergonha», indicando o senso de respeitosa timidez na presença de superiores, ou indicando um respeito penitente para com aquele contra quem tivermos feito alguma ofensa (ver Homero, Ilíada i.23). Homero também usou essa palavra para indicar a disciplina militar. (Ver Homero, Ilíada, v.531). Por igual modo, era usada para indicar o «respeito» devido aos pais ou a outras pessoas. Comenta Lock (in loc.) «Está em vista aquele pejo que evita ultrapassar os limites da reserva e da modéstia femininas». Esta é uma das trezentas e cinco palavras usadas nas «epístolas pastorais», mas que não se acha nas «outras» epístolas paulinas. Esse vocábulo ordena que as mulheres se retirem da atenção pública, assumindo um espírito quieto, uma atitude respeitosa para com os homens e para com os líderes da igreja. Também ordena que as mulheres não tentem impor-se, mas antes, que permitam que os homens se ocupem de todas as funções da igreja. Isso é tudo quanto podemos compreender deste vocábulo, a julgar pelo seu pano de fundo «judaico». Fica exigida aqui, pois, certa forma de «recolhimento», da parte das mulheres crentes, que não consideraríamos conveniente na igreja evangélica atual.



Não nos devemos esquecer que, naquela época, nos países orientais, uma mulher decente nunca era vista em lugar público, exceto em alguns feriados especiais, ocasiões em que ela permanecia virtualmente reclusa, já que seus amigos constantes eram escravos e crianças. Extremamente poucas mulheres frequentavam escolas ou aprendiam ao menos a ler e escrever. Portanto, dentro dessas condições sociais quão fora de lugar seria deixar as mulheres fazer parte dos cultos públicos oralmente. Nas sinagogas judaicas então isso seria um escândalo.



«...bom senso...» No grego é «sophrosune», palavra comum que indica «moderação», a «virtude áurea» dos gregos, que evitaria os vícios de excesso ou de deficiência. Tal palavra fala sobre «autocontrole», aquilo que evita excessos e que conserva a mulher em seu devido lugar, não lhe permitindo usurpar a posição e as funções dos homens na igreja. Essa palavra também era empregada com o sentido de «bom senso», visto vir de «sos» (seguro) e «phren» (mente). Envolve o controle das paixões e dos desejos, a disciplina da mente e da própria personalidade. Eurípedes chamou isso de «o melhor dom dos deuses» (Med. 632). Aristóteles fazia dessa virtude um fator normativo em toda a ação ética, intitulando-a de «virtude áurea». «Moderação» é o principal sentido que esse termo tinha na filosofia grega; e até hoje, na igreja grega, essa virtude é muito enfatizada. A prática da «moderação», tanto em contraposição ao «ascetismo» como em comparação ao «excesso», é igualmente a «virtude áurea» do cristianismo.



«...cabeleira frisada...» No grego, literalmente, temos «...com tranças...». O termo grego «plegma» significa qualquer coisa «trançada» ou «entretecida». E quando diz respeito aos cabelos, tinha o sentido de «trançado». «Pleko» é a sua forma verbal, que significa «trançar», «entretecer». Alguns intérpretes supõem que está em foco o costume de entretecer adornos de ouro, de prata e de pedras preciosas nas madeixas dos cabelos. Essa interpretação é possível, mas parece antes que o autor condenava a prática inteira de mulheres a tentarem embelezar seus cabelos por meios artificiais, como as trancas. (Ver I Pe 3:3, logo abaixo, onde essa prática também é condenada). Não há nenhum motivo para supormos, com base neste versículo, que a igreja era rica, o que permitia às mulheres crentes exagerarem em seus penteados. Todavia, as palavras em seguida, «...vestuário dispendioso...», permitem-nos compreender que, em alguns lugares, os crentes se tinham tornado donos de consideráveis bens materiais. Facilmente podemos imaginar que isso ocorreu em Éfeso, que era cidade onde fluíam muitas riquezas. O autor sagrado, pois, luta em prol da simplicidade, em que a mulher use cabeleira solta, natural. Paulo também ordena o uso de «cabelos compridos», em I Co 11:15.



Os judeus da antiguidade (como lemos nos escritos de Josefo) tinham «cabeleireiras profissionais». Certas tradições informam-nos que tanto Maria Madalena, como Maria, mãe de Jesus, trabalhavam como «cabeleireiras»; mas não sabemos dizer se essas tradições são autênticas ou não. Modos exagerados de vestimentas e penteados, nos tempos antigos, tal como nos modernos, caracterizavam as prostitutas. O trecho de Ap 17:4 pinta a grande «mãe das prostitutas», como alguém assim adornada.



«...ouro...» Talvez entretecido nos cabelos, usado como joia, ou ambas as coisas.



«...pérolas...» Engastadas em joias, talvez também postas nos cabelos trançados. A maioria dos intérpretes recomenda a «moderação» nessas coisas. O autor desta seção, entretanto, parece que não queria que as mulheres usassem qualquer joia. Queria total simplicidade e naturalidade.



«...vestuário dispendioso...» Nem o substantivo e nem o adjetivo é empregado nas «outras» epístolas paulinas. No grego é «imatismos», que significa «veste», sem qualquer ideia ou sugestão quanto à sua qualidade ou preço, «...dispendioso...», no original grego, é «poluteles», que significa «caro», «dispendioso», e cuja raiz nominal significa «extravagância», «luxo». Em Éfeso e outros lugares, a igreja pode conquistar alguns elementos das classes superiores; e, entre essas pessoas, certas mulheres talvez tivessem resolvido ir à igreja a fim de «serem vistas», algo bastante comum entre as mulheres. A «vaidade» das mulheres, especialmente no vestuário, é um tópico comum entre os filósofos moralistas latinos e gregos. (Comparar com 1 Pe 3:3).



2:10    mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras.



Existe uma maneira correta, aceitável e desejável das mulheres se adornarem, isto é, com «boas obras». Essas boas obras são o «sinal» de um genuíno cristianismo. (Comparar com Ef 2:10 e Hb 10:24). Quando uma mulher age com caridade e bondade, isso adorna a sua pessoa de forma duradoura e autêntica. Não precisa uma mulher crente de qualquer outro adorno.



«...é próprio...» No grego é «prepo», que significa «apropriado», «conveniente». Sim, é «próprio» em contraste com os adornos mundanos, que são impróprios. Isso se «coaduna» com a atmosfera do culto de adoração, com a atitude de piedade, ao passo que os adornos artificiais são destruidores da piedade e da atmosfera própria de adoração.



«...professam ser piedosas...» Literalmente, «...professam piedade...» O uso de «epaggellomai», com o sentido de «professar» (reivindicar ser), se limita a estas «epístolas pastorais». Normalmente essa palavra significa «promessa», «oferecimento». Até mesmo em Tito 1:2, tal vocábulo tem esse significado. (Ver também At 7:5; Rm 4:21 e Gl 3:19).

«...piedosas...» No grego é usado o substantivo «theosebeia», que significa



«reverência a Deus», «piedade». A forma verbal significa «adorar a Deus». A raiz dessa palavra é «theos» (Deus) e «sebomai» (sentir respeito, ter medo, adorar). Portanto, as mulheres que adoram a Deus ou que o respeitam haverão de adornar-se com boas obras, com a prática da adoração, e não com artifícios externos. Esta é a única oportunidade em que essa palavra é usada em todo o N.T., sendo uma daquelas cento e setenta e cinco palavras usadas exclusivamente nas «epístolas pastorais».



As matronas judias estavam acostumadas a dizer em altas vozes às jovens recém-casadas: «Não há necessidade de pintura, não há necessidade de antimônio, não há necessidade de cabelos trançados; pois ela mesma é belíssima». O «antimônio», referido nessa citação, era uma preparação aplicada às pestanas, o que emprestava aos olhos um brilho pronunciado. As noivas de Cristo deveriam ter como adorno a piedade, de modo a não necessitarem de qualquer ajuda artificial que vise somente ao corpo.



«Quantos dólares são gastos com o luxo, para cada dólar gasto na causa de Cristo!» (Doddridge, in loc).



«Elas, tal como Dorcas, de Jope, cujo louvor se encontra no livro da Vida, 'deveriam ser cheias de boas obras e de esmolas' (Ver At9:36)». (Spence, in loc).



«Que vossos corpos sejam isentos de decorações de meretrizes. Que vossas almas sejam adornadas com abundância de boas obras». (Plummer, in loc).



Agora o comentário de I Pe 3.3,4



3:3      O vosso adorno não seja enfeite exterior, como as trancas dos cabelos, o uso de joias de ouro, ou o luxo dos vestidos,



As mulheres crentes devem ser distintas e adornadas, mas não na ornamentação externa, e, sim, pela beleza íntima do caráter cristão. Esse é o adorno que verdadeiramente se faz necessário. Pedro dava a entender não que as mulheres devem ser descuidadas em seu vestuário, porque isso chamaria para elas uma atenção negativa. Também não é provável que estivesse proibindo o uso de joias. Antes, ele advertia contra a ostentação nos penteados, no uso das joias e no modo de vestir. Sua advertência pode ser comparada com o que se lê em Is 3:16-24, onde o profeta denuncia as filhas de Sião que andavam altivas, de pescoços esticados, com olhos dissipadores, a balançar as cadeiras e suas joias a tilintar, ao darem os seus passos medidos. Paulo, em I Tm 2:9-12, nos dá uma denúncia muito similar a essa, acerca da tendência das mulheres de exagerarem em seus adornos artificiais. Não é provável que Pedro ou Paulo aprovassem o exagero das mulheres no uso moderno dos cosméticos e dos estilos arrojados de vestes.



«...adorno...» O verdadeiro sentido, neste caso, é penteados, maquiagem, uso de joias e vestes, como algo meramente exterior. O verdadeiro adorno das mulheres crentes é descrito no quarto versículo—um adorno espiritual, composto das riquezas da alma, o que embeleza a mulher em seu caráter. O termo grego aqui empregado é «kosmos», que tem os significados de «mundo», «ordem», «enfeite». A última dessas significações está em foco aqui. Dessa palavra é que se deriva o termo moderno «cosmético». Pode haver alguma conexãotencional, devido ao uso dessa palavra, com a ideia de «mundanismo»; pelo menos Pedro quis dizer que a ornamentação externa exagerada é sinal de mundanismo. Porém, visto que essa palavra tem um sentido geral, podendo dar a entender o que é exterior ou interior, não há qualquer tentativa verbal consciente para designar a ornamentação como «mundanismo», por si mesma.



«...frisado de cabelos...» Juvenal, em suas Sátiras, vi., ridiculariza a extravagância dos penteados das matronas romanas de seus dias.«Suas auxiliares votam quanto ao penteado como se isso fosse uma questão de reputação, ou como se a vida estivesse em perigo, tão grande é o valor que ela dá à questão da beleza; ela levanta muitas camadas, ela ergue muitos andares de caracóis sobre a cabeça.Tona-se tão alta como Andrômaca na frente, mas por detrás é baixa. Pensar-se-ia que ela é outra pessoa».



O fato que uma mulher podia fazer um alto penteado, como se fosse uma torre, significa que ela tinha os cabelos longos; e isso é mais do que o que pode ser dito acerca de muitas matronas modernas. Sabemos que as mulheres não se contentavam em pentear os cabelos em penteados mirabolantes, mas também tingiam-nos e seguravam suas madeixas com grampos de grande valor, encrustados de ouro, com pedras preciosas. Eram usadas perucas, até mesmo louras. Pelo menos, quanto a esse particular, «Nada há de novo debaixo do sol!» A história antiga mostra que as mulheres gregas, bem como as de outras culturas antigas, não eram menos vaidosas quanto a esse particular do que as mulheres romanas. Algumas vezes, placas finas de ouro eram misturadas com os cabelos, refletindo a luz do sol; ou, à noite, refletindo a luz das candeias, o que fornecia uma estranha cena. Os alfinetes de marfim, com pontas de pérola ou com corpos incrustrados de pedras preciosas, eram comuns entre as mulheres das classes mais abastadas. Mulheres solteiras com frequência encaracolavam ou frisavam seus cabelos, formando uma massa geral, ao passo que as mulheres casadas com frequência os partiam no alto, acima da testa. Clemente de Alexandria, em Pai. III.xi, observa como as mulheres temiam o sono, pois teriam a necessidade de descansar a cabeça sobre algum travesseiro, e isso lhes estragaria o penteado. Na cultura judaica havia cabeleireiras profissionais, cuja especialidade era frisar os cabelos de suas clientes. Maria Madalena, segundo certas tradições, teria tido essa profissão; e os judeus dizem que Maria, mãe de Jesus, também tinha essa profissão. (Ver Misnah Sabbat., cap. 6, seção l). Não há como confirmar ou confutar essas tradições.



«...adereços de ouro...» Os ornamentos de ouro eram usados nos cabelos, na forma de redes para os cabelos, braceletes, anéis, laços e argolas de tornozelo. As antigas mulheres judias usavam uma espécie de coroa de ouro sobre a cabeça, na forma da cidade de Jerusalém (ver Mishnah Sabbat., cap. 6, seção 1); e isso tanto antes como depois da destruição daquela cidade.



«...aparato de vestuário...» Essas palavras não proíbem o uso de roupas de boa qualidade, nem encorajam o desleixo nas vestes. Antes, proíbem a tentativa de ostentação deliberada, através do uso de vestidos bordados em ouro ou com joias, o que, naturalmente, dariam a impressão de fausto, além de ser sexualmente estimulante.



«Duas coisas devem ser levadas em conta nas vestes, a utilidade e a modéstia. Portanto, não se pode justificar a vaidade de uma mulher que usa os cabelos encaracolados ou penteados extravagantes. Aqueles que fazem objeção e dizem que vestir-se desse modo é questão indiferente, porquanto todos seriam livres para fazer o que bem queiram, podem ser facilmente desditos; pois a elegância excessiva e a exibição supérflua, em suma, todos os excessos, se originam de uma mente corrompida. Além disso, a ambição, o orgulho, a afetação e todas as coisas semelhantes não são coisas indiferentes. Por conseguinte, aqueles cujas mentes foram purificadas de todas as variedades haverão de pôr devidamente em ordem todas as coisas, não pecando contra a moderação». (Calvino, in loc).



Xenofonte contava uma encantadora história em que um cavalheiro ateniense exprobrava sua esposa por sua vaidade, pois ela esperava poder atraí-lo com seus sapatos de saltos altos, pintando o rosto de rouge e branco. A esposa de Fócio, que foi um célebre general ateniense, recebeu a visita de uma senhora finamente ornamentada de pedras preciosas, cujos cabelos estavam adornados de pérolas e tinham sido frisados. A esposa de Fócio naturalmente, observou o preço da aparência de sua visitante, mas acrescentou: «Meu ornamento é meu marido, agora general dos atenienses já por vinte anos». Para uma mulher crente, o seu ornamento deve ser a espiritualidade obtida da parte de Cristo, o seu Senhor.



Os intérpretes salientam que as santas mulheres do A.T. usavam joias (ver Gn 24:53) supondo que esta objeção é contra o excesso nessas coisas, e não contra o uso completo de joias. E é bem provável que essa posição seja correta. Cada crente deveria estar individualmente convencido para si mesmo, acerca de onde traçar a linha entre a modéstia e o exagero, no que diz respeito ao que é abordado pelo presente versículo. Se uma mulher crente se mostra cuidadosa a respeito do decoro de sua alma, também terá o bom senso de como ornamentar a sua tenda de carne.



3:4      mas seja o do intimo do coração, no incorruptível trajo de um espirito manso e tranquilo, que é precioso diante de Deus.



Melhor tradução seria «pessoa interior», porquanto mulheres estão em pauta. A expressão equivale àquela de Paulo, «homem interior» (ver Ef 3:16), que indica a «verdadeira pessoa», a «alma». Essa «verdadeira pessoa» pode ser embelezada tanto quanto o quiser uma mulher crente; e esse adorno consiste de um espírito tranquilo e manso, isto é, essas são evidências—juntamente com outras coisas—de desenvolvimento e de maturidade espirituais. Naturalmente, isso também se aplica a homens crentes, porquanto aquilo na direção em que nos devemos esforçar é a beleza da alma, porquanto, sem a santificação, ninguém jamais verá a Deus (ver Hb 12:14).



O grego diz, literalmente, «homem oculto», porquanto Pedro queria estabelecer o contraste entre a «pessoa externa», que pode ser decorada com joias e artifícios, e a «alma», que não aparece aos sentidos, mas que, não obstante, é real.



«...coração...» Apesar do termo «coração» ser frequentemente usado para indicar a porção «emocional» do homem, a alusão à alma ou verdadeiro eu é quase sempre inerente, e isso é óbvio aqui também. O coração é aquela porção vital sem a qual a vida física é impossível. Portanto, torna-se símbolo apropriado da verdadeira vida do ser, investido na alma. O coração é a fonte da verdadeira fé (ver Rm 10:10); podendo ser cegado (ver Ef 4:18); é a fonte de alegria e cântico (ver Ef 5:19); deve ser singelo, mas é totalmente dedicado a Deus e a questões espirituais (ver Ef 6:5 e Cl 3:22); pode condenar as ações do indivíduo ou aprová-las, pois é dotado da função da consciência (ver I Jo 3:20,21). E também pode ser obscurecido e endurecido, entrando em apostasia e esquecendo Deus inteiramente (ver Rm 1:21 e 2:5).



«...incorruptível...»A «joia imperecível» das autênticas graças cristãs, em contraste com tudo quanto é físico, incluindo o ouro e as joias, que finalmente serão destruídas, juntamente com todo o mundo físico. Essa é uma maneira poética de dizer-nos que devemos buscar o que é celestial e eterno, pois todas as coisas terrenas são corruptíveis e perecíveis, e, portanto, temporais. A alma, adornada pelas graças cristãs, torna-se imortal, tal como Deus é imortal, pois chega a participar da própria modalidade da vida de Deus. (Ver as explicações a esse respeito em Jo 5:25,26 e 6:57). A alma, ao obter essa natureza imperecível, torna-se uma joia eterna, apropriada para que sobre ela seja posta a coroa de Cristo.



«...espírito manso...» O termo «espírito» parece ter aqui o sentido de «disposição»; mas essa disposição deve ser compreendida como expressão do espírito ou alma da mulher crente. A graça feminina que o evangelho exige é a gentileza, e a gentileza feminina é algo de que este mundo cruel muito precisa. O trecho de Gl 5:23 alista a «gentileza» como um dos aspectos do «fruto do Espírito», pelo que se deriva do desenvolvimento e da maturidade espirituais, não podendo ser qualidade limitada exclusivamente—às mulheres.



«...tranquilo...» A mulher crente aqui idealizada não é resmungona, rixenta ou bruxa. Sua conduta deve ser simples e digna. Ela deve mostrar-se autoconfiante e temperada, dotada de vida santa. A vida de uma crente assim é um sermão eloquente, embora talvez nunca abra a boca para pregar o evangelho. Ela vale mais que rubis. (Ver Pv 3:15 e ss.) «Quem entre vós é sábio e entendido? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras» (Tg 3:13).



«...mansa, gentil, tranquila (ver Mt 21:5; I Co 13:4; Ef 4:2; Cl 3:12; Mt 11:29; Tg 1:20; 3:13; I Co 4:21; Gl 6:1 e II Tm 2:24). É o contrário do espírito voluntarioso, orgulhoso, presumido, obstinado, endurecido, iracundo e invejoso; antes, é calmo, tranquilo, sem excitações apaixonadas». (Lange, in loc).



«...é de grande valor diante de Deus...», isto é, as qualidades cristãs da esposa crente. É isso que realmente a enriquece, bem como àqueles que entram em contato pessoal com ela. O termo grego «poluteles» significa «caríssimo», sendo usado em I Tm 2:9 a fim de descrever roupas caras. Não pode haver dúvidas que Pedro alude ao «grande preço» das vestes e das joias. No entanto, é como se ele dissesse: «Esses não são verdadeiros valores; os verdadeiros valores de uma mulher crente são as graças cristãs, que sua alma obteve mediante o desenvolvimento espiritual».



«...diante de Deus...» As mulheres por muitas vezes usam vestes caras e penteados exagerados a fim de atrair a atenção de outras pessoas: primeiramente, de outras mulheres, e então dos homens. No entanto, deveriam preocupar-se com sua aceitação diante de Deus, e não diante de outros seres humanos. O favor divino pode ser obtido, e este versículo mostra-nos como uma mulher crente pode fazê-lo.



«Pois, por que as mulheres tanto cuidado mostram por se adornarem, exceto atraírem os olhares dos homens para elas? Mas Pedro, pelo contrário, ordena que elas anelem por buscarem a aprovação diante de Deus, que é de grande valor». (Calvino, in loc).



Ideias adicionais:



1. Devemos preocupar-nos com o que é interno e espiritual, e não com o que é apenas externo e terreno. No dizer de Sêneca: «Grande é aquele que usa sua louça de barro como se ela fosse de prata; não menor é aquele que usa sua prata como se ela fosse louça de barro».



2. «Deus dá grande atenção aos mansos, humildes e tranquilos; ele eleva tais almas, quando estão abatidas; ele faz com que as boas novas lhes sejam pregadas; ele aumenta a alegria delas no Senhor; ele alimenta essas almas até à saciedade, quando estão famintas; ele as guia no juízo, e as ensina os seus caminhos; ele as elevará no julgamento, reprovando-as com equidade por amor a elas; ele dá maior graça a elas e as embeleza com a salvação, levando-as a herdar a terra» (John Gill, in loc).



3. «Aprende: Uma das principais preocupações de um verdadeiro crente jaz no reto ordenar e comandar de seu espírito; onde termina o trabalho de um hipócrita, ali começa a obra do verdadeiro crente». (Matthew Henry, in loc).



Referências e Ideias. A gentileza. 1. A gentileza de Deus torna grande o crente (ver Sl 18:35). 2. Deus trata a seu povo com gentileza (ver Is 40:11). 3. A missão do Messias foi realizada com gentileza (ver Is 42:3). 4. A gentileza caracteriza a Cristo (ver II Co 10:1). 5. A gentileza é um dos aspectos do «fruto do Espírito», uma qualidade espiritual exigida da parte dos homens (ver Gl 5:22).




Bibliografia R. N. Champlin,comentário do novo testamento 2000

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